- Bruno - ela disse.
- Bruno. – Um tom mais firme. Gostei.
- Bruno! – Voz alta, uma cara meio brava.
- BRUNO, PORRA! – Ela gritou e então sumiu.
E lá estava eu de novo, na mesma merda de mesa de todo santo dia, com a testa marcada pelo formato da tecla “Enter” do computador e com apenas um tênis. O outro estava sendo insistentemente mordido por um aborígine cabeludo apenas de calças rasgadas e com olhos fixos no meu tênis. Ele já havia arrancado a sola e continuava insatisfeito com o resultado.
Percebi que havia alguém me encarando. Era um cara estranho usando um cone na cabeça, um moleton com os dizeres “Se você me ama, chupe meu dedão”, uma saia daquelas de bailarina e uma calça com todas as cores juntas. Além de dois tênis, um de cada cor. Olhei tentando focalizar seu rosto sem muito sucesso.
- Por que você me acordou? – Disse, tentando me manter ereto na cadeira.
- Por que o... – Ele começou, mas eu interrompi, já havia entendido.
- Aham, ok. Seguinte, cara das entregas: Você coloca as minhas mensagens e cartas ali (apontei para o canto da minha mesa que tinha meu laboratório de anfetamina portátil) e vaza ok? Se me acordar de novo eu vou usar suas orelhas como rodelas de cebola. Combinados?
- Como é? Desculpa mas eu não sou o cara da entrega, seu retardado. Eu sou colunista como você! E ALIÁS, EU SOU UMA GAROTA! – Disse ela enquanto me esmurrava. Eu ainda acho que era ele .
- Colunista, é? Sei sei... Então que dia você escreve?
- Eu escrevo toda terça, seu idiota. Olha aqui na minha blusa, está escrito “JÚLIA LOSINA – TERÇA-FEIRA”.
Não, não estava, mas quem era eu para negar os sonhos do pobre rapaz que além de querer ser mulher, ainda quer ser colunista?
- É verdade me desculpe. O que você queria?
- O Antonelli pediu pra você pegar a alpaca dele no Pet Shop. Ele está ocupado tentando descobrir em que lugar do seu tênis você guarda os doces.
- Aquilo é o Antonelli? – Disse apontando pro aborígine que estava literalmente comendo meu tênis.
- Sim.
- Entendo, vou buscá-la então.
E saí em busca da alpaca. Pobre Antonelli, nunca achará meus doces enquanto não acreditar que eu não disse T-ênis quando ele me perguntou.
Antes de sair do prédio passei na sala do Paulo, nosso editor. Ele estava do lado de fora da janela, de cabeça para baixo, sendo segurado pelo pé pelo Biancardine, que estava tentando convencer ele de algo. Pelo que eu entendi ele queria saber o motivo dele não poder obrigar as colunistas mulheres à andar de cinta-liga durante o expediente. Entendi o ponto do Biancardine, mas eu estava ocupado pegando as chaves da moto que o Paulo comprou após o incidente da semana passada. Ouvi alguns gritos de protesto que ignorei com classe enquanto colocava um cacto dentro de suas calças pelo pé que o outro colunista segurava.
Peguei o elevador assoviando enquanto chutava insistentemente o saco de lixo que estava ali por algum motivo. Saí no térreo. Algumas pessoas correram em minha direção gritando que havia um homem espancado no elevador que eu estava. De onde as pessoas tiram essa idéia?
A moto estava em cima da calçada. Subi e acelerei por cerca de três segundos, já que o Pet Shop ficava do outro lado da rua.
Ao entrar no Pet Shop, me deparei com a maior mulher que eu já vi. Ela tinha cerca de dois metros de altura e duvido que seu diâmetro fosse menor. Sua circunferência total deveria ser pelo menos o dobro do meu tamanho. Ela estava sentada atrás de um balcão e me olhou com seus olhos miúdos e suas doze papadas balançando com a respiração.
- O que foi, garoto? – Ela disse com uma voz rouca e uma boca que parecia um bueiro.
- A alpaca está pronta? – Perguntei tentando ser gentil enquanto brincava de cutucar ela com uma vara de pesca e ver a banha se mexer.
- Sim. Você veio de longe?
- Uhum... – Eu não prestei muita atenção ao que ela disse, pois após uma cutucada mais forte um gato caiu no chão, morrendo de fome. Deveria estar ali há algum tempo.
- Então vou chamar meu marido, garoto, e ele leva vocês. OOOO GREEEELL! GRELL SEU INÚTIL, VEM LEVAR O GAROTO E AQUELE ANIMAL BIZARRO DE VOLTA PRO INFERNO! FAZ ALGUMA COISA, GRELL! – Ela gritou tudo numa única respiração. Toda a banha se mexeu e eu senti um leve tremor abaixo dos meus pés.
Atrás de uma porta que eu não havia reparado, saiu um homem com menos de um metro e sessenta, com uma barriga proeminente despontando da camiseta sem mangas branca e uma calça marrom. Ele era careca e tinha olhos de rato. Aquele era o Grell.
- Já vou. Vamos, garoto, vamos levar sua... Lhama de volta. – Disse ele cansado.
- É uma alpaca. – Disse dando-lhe um tapa na careca reluzente que ele nem notou.
Saímos para a garagem que ficava ao lado. Ele tinha uma picape pequena e branca com o nome do Pet Shop. Agora eu entendi o nome “Grell’Os”. A alpaca estava ao lado do carro, mastigando algo que parecia ser tabaco ou fezes. Grell colocou-a na caçamba e nós entramos no carro. A alpaca sentou-se e continuou mascando.
Logo após sairmos da garagem, Grell me perguntou onde era, e eu disse que o guiaria no caminho. Uns minutos depois ele puxou conversa:
- Garoto, coloque as calças. – Ele disse cansado.
- Não estou com elas aqui.
- Está sim, elas estão na sua cabeça. – Esperto.
- Então eu estou vestido-as, certo? – Rá!
- Ahm... tanto faz. – Ele disse cansado. Fiquei meio assustando com essa reação. Dei-lhe alguns socos até ele me convencer de que não havia nenhuma tática escondida.
- Caramba garoto, você não bate bem. – Ele disse, com um sorriso. Cara estranho.
- Vira à direita. – Eu disse, enquanto enfiava algodões no nariz dele. – Grell, como você conseguiu casar com aquela mulher? Ela é enorme e estranha. Parece o Jabba de Star wars.
- A Lúcia não era assim há 32 anos atrás, sabe?
- Então ela se chama Lúcia?
-Não. Ela se chama Grellúcia, mas eu evito falar o nome dela. Ela não gosta.
- Entendo. Mas vocês estão casados há 32 anos?
- Pois é. Sabe, ela sempre foi alta, e nunca muito magra. Mas ela não fumava e gostava de fazer sexo.
- Vocês faziam... Meu Deus. – Meu horror quando eu imaginei a cena não pôde ser expressado em palavras, então eu vomitei na cara do Grell. Ele nem ligou muito, apenas me xingou o resto do caminho.
Alguns minutos depois, eu pedi para ele parar. Estávamos na casa do Paulo. Não havia ninguém pois era cerca de meio-dia de uma sexta-feira. Tirei a alpaca e coloquei-a no gramado em frente a casa e ela foi fazer suas necessidades. Na porta da frente.
- Aqui é sua casa, garoto? – Ele perguntou enquanto se limpava numa toalha estendida no varal.
- Não, não. É a casa do meu editor. Vim só fazer uma boquinha. – Disse enquanto jogava um tijolo na janela e abria espaço para entrar. – Quer vir?
- Mas que m... Que seja. – Gostei desse Grell. Ele passou pela janela, deu uma coçada masculina na virilha, cuspiu na pia, sentou no sofá e ligou a televisão no canal de esportes. Enquanto isso eu fazia um sanduíche de creme de amendoim e procurava bebida. Achei umas garrafas de whiskey, abri duas e tomei uma. A outra eu dei para a alpaca que apreciou.
Após cerca de meia hora, eu já estava bêbado e sem roupas, a alpaca estava acasalando com uma cadela e o nosso mais novo amigo Grell dormia no sofá. Ouvi então alguém descendo as escadas. Era um homem de roupão azul que descia bocejando. Ele me encarou com espanto e nós gritamos ao mesmo tempo. Ele gritou que ia chamar a polícia e eu gritei que tinha acabado a cerveja. Após os gritos ele pegou um taco de beisebol e olhou para mim.
- O que diabos você faz na minha casa às 6 da manhã de uma sexta-feira?
- É quinta, são três e meia da tarde e essa não é a sua casa. É a casa dele. – Disse enquanto apontava pra alpaca.
- Não é não! E o que é aquilo? - Ele apontou para a alpaca.
- Aquele... é... OLHA UMA MITOCÔNDRIA! – Era minha última chance de me safar.
- O quê? – Ele desviou o olhar. Idiota.
Pulei a janela, subi na alpaca e saímos correndo em disparada, ambos nus numa estrada selvagem e sem destino. Até chegarmos no prédio do Contos de Bar.
Na chegada haviam doze viaturas no nosso encalço e eu tinha a sensação de ter esquecido algo além das minhas roupas naquela casa.
Ainda montado na alpaca subi as escadas até o quarto andar onde fomos saudados por aplausos e vivas. Pareciam mais gritos de indignação e de fúria. Mas o que vale é a emoção.
Demorei dois dias pra lembrar o que, ou no caso quem, eu havia esquecido naquela casa. Pobre Grell.
Estátua em homenagem ao Grell na cidade em que nasceu, sejá lá onde for.









4 comentários:
Meia lua pra frente + soco = Tapa na testa?
HAHAHAHA GRELL! QUEM DIRIA?!
Muito bom, Garcez xD... Sem dúvidas você consegue tornar uma história aleatória e imprevisivel numa experiencia quase real, pelo jeito que escreve. Haha
Keep it up always!
Adorei! Você escreve bem, coisa chata u.u
Ainda não consegui parar de pensar na parte dos doces no... tênis, claro :)
HAHAHA um combo de randomness com a eterna sensação de que a qualquer momento o conto vai se tornar um conto erótico
Postar um comentário