23 de novembro de 2010

A Garota com Anemia

Era um dia anormal. Quer dizer, o escritório era o mesmo, sempre povoado por gritos, líquidos suspeitos, pedaços estranhos de alguma coisa e fogo em algum canto. Na verdade, quem se sentia anormal era eu. Só de olhar para minha cascata de chocolate, me veio um bolo na garganta. Isso nunca tinha acontecido antes, e fez eu me apavorar. Me sentei, sentindo o mundo girar. Fechei os olhos e baixei a cabeça, encostando-a no tampo gelado da mesa.
- Ju? – chamou Victória baixinho. Falei ‘sim?’, mas tenho certeza de que o som foi muito mais parecido com um ‘ghhh’. – O que houve?
- Sei lá – murmurei, erguendo os olhos levemente para ela me entender. – To passando mal.
- Isso eu percebi – ela retrucou, erguendo as sobrancelhas. – Você está branca.
- Eu sou branca. Caucasiana, sabe. Não negra. Afro-descendente. – murmurei, vendo o mundo girar. Baixei a cabeça novamente. Victória suspirou com raiva.
- Caraca, cada vez que falo com você, te acho mais autista. Você está pálida. E seus lábios estão brancos. Não pode ser insolação, está chovendo muito. – ela levantou minha cabeça e baixou minhas pálpebras. Eu não me mexi. Me sentia cada vez mais fraca. – Seus olhos estão brancos. Venha, vamos para um hospital.
- Eu to legal – rosnei, deitando a cabeça no tampo da mesa novamente. O geladinho me fazia bem. – Sério.
- Você não comeu nenhum doce, nem xingou nem esnobou ninguém desde que chegou aqui. Também não provocou ninguém ou me assustou, ou falou do Compact Pussycat – ela parou por alguns segundos, ofegante como se tivesse fugido de mim dirigindo o tal carro – O que quero dizer é: tem alguma coisa errada. – levantei os olhos novamente e encarei por alguns segundos. Ela apertava os lábios e franzia as sobrancelhas de um jeito realmente irritante. Por fim, baixei a cabeça e disse:
- Ok. – ela começou a gritar, mas eu não entendi as palavras. Acho que foi aí que eu desmaiei.

Quando eu acordei, tudo estava branco. Pisquei diversas vezes, quando uma mancha preta-e-azul se meteu na minha frente.
- Você está melhor? – a mancha perguntou. Eu ouvia sua voz como de muito longe, então pisquei mais algumas vezes, tentando fazer aquilo entrar em foco. Percebi, então, que estava sem óculos. Maldito dia pra ficar com preguiça de colocar as lentes.
- Quem é você? – perguntei, tateando a mesa de cabeceira. Alguém colocou os óculos na minha mão, e eu os coloquei no rosto, satisfeita. Victória entrou em foco automaticamente. – Ah, você.
- Não seja tão idiota, para variar um pouco – ela rosnou – Você desmaiou. Está com anemia.
- Ah, merda. De novo não.
- De novo, sim! – grunhiu Victória, franzindo novamente as sobrancelhas – Vamos, me diga. Qual foi a última vez que você teve uma refeição decente?
- Tudo bem, eu me rendo. – falei, tentando me sentar. Ela me empurrou de volta, e o mundo girou e deu cambalhotas para trás.
- Você está com anemia por deficiência de ferro – ela apontou para a dobra do meu braço, onde tinha um algodão colado – Eles tiraram seu sangue já.
- Ah, merda. Odeio quando fazem isso – resmunguei, e fechei os olhos. Estava ficando tonta novamente. – E agora?
- Bem, você vai precisar comer muitas coisas com ferro. Verduras, por exemplo – gemi baixinho.
- Tudo menos verduras. – ela soltou uma risadinha de escárnio e eu franzi o rosto.
- Você não tem escolha. Ninguém mandou fazer uma dieta baseada em doces. – abri os olhos e encarei-a por alguns segundos. Ela piscou, e eu pisquei também. Ela franziu a testa, e eu a imitei novamente. Então ela pegou do bolso uma barrinha de cereais de morango com chocolate e eu me sentei. Tudo girou novamente, mas eu não me importei.
- Me dê. Meu precioso. – falei, erguendo as mãos para ela.
- É sua recompensa. Então, coma todas suas verduras. – ela pegou uma bandeja numa mesa atrás de si e colocou-a na minha cama. Estava, obviamente, cheia de vegetais verde-escuros, como brócolis e espinafre.
Eca.
- Eu não sou o Popeye – rosnei, empurrando a bandeja para longe. Victória riu.
- É, você é a Olívia Palito. Agora coma.
- Se eu fosse alguma Olívia, preferiria ser a Dunham – ela franziu o rosto para mim e ergueu a sobrancelha. Suspirei profundamente e espetei um brócolis.
- Você realmente não está pronta ainda – mirei sonhadoramente a janela ao lado da cama e ela suspirou, mais uma vez.

Após alguns dias, eu realmente estava melhor, mas é claro que eu nunca iria admitir isso. Até admitia, mas sempre colocava o motivo no fato de estar comendo barrinhas de cereais de morango com chocolate depois dos legumes que Victória todo dia me forçava a engolir.
Graças à melhora, eu podia desfrutar novamente da minha linda cascata de chocolate, que havia dias não era utilizada. Quando o chocolate voltou a correr, quase chorei de emoção e falei para Victória que realmente comeria legumes, desde que mergulhados em chocolate.
Mudei de ideia na primeira porção de espinafre com chocolate. Sinceramente, não é bom tentar isso em casa.

Fome.

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