Enquanto eu gritava a letra de uma canção bolada depois de muito LSD, álcool e coma, o público, que superava 50.000 pessoas insanas gritava como se não houvesse amanhã. E não havia.
Eu e minha banda tínhamos pagado pelo pacote “noite de 72 horas”. Era praticamente um Woodstock punk, considerando o fato que ao fundo, rolava algum tipo de orgia maluca. Os holofotes derrubariam facilmente um avião, mas o que se encarregou disso foi o som superblástico que a banda emitia. Tínhamos nos esquecido do seguro de som anti-acidente-aéreo. Mas cuidaríamos disso depois do show.
Eu estava no auge da minha vida naquele palco. Soltei a guitarra, derrubei o microfone, e corri pra beirada do palco. E pulei.
Pulei pros braços da multidão que me aclamava!!
E foi aí que bati a testa no banco da frente do ônibus onde eu estava, e o barulho da minha cabeça oca fraturada não derrubou um avião, mas fez com que o ônibus inteiro olhasse pra mim. Ou isso, ou o fato de eu ser muito pálida, usar um sobretudo, ter o cabelo preto e a boca vermelha. E estar segurando um isqueiro e querosene. Mas eu nunca liguei muito pra isso.
Xinguei o motorista em alto e bom som, porquê a correria daquele maldito tinha me tirado de um palco do Cavern Club com o Ringo e o Paul, num Woodstock rave de 3 noites, que envolvia sexo, drogas e rock’n’roll.
Mas ele tinha seu crédito. Afinal, evitou um acidente aéreo. Aquele motorista de ônibus era um herói da aviação.
De repente, percebi um ruído alto vindo do banco da frente. Era um ruído insuportável, como uma combinação de unhas raspando na lousa, com estupro coletivo de gatos castrados e escaldados ao mesmo tempo, e microfonia. Acho que chamam aquilo de funk.
Minhas têmporas ardiam como se estivessem em chamas (o que na verdade estavam, pois me distraí na hora da raiva com o querosene e o isqueiro. Uma dica? Nunca se distraia com materiais inflamáveis).
Afanei a cabeça e apaguei o fogo, sem maiores danos. Físicos, é claro que eu quis dizer físicos! Eu nem sei mais o que é psicológico. Enfim...
Mais uma vez, interrompendo minha divagação insana-incendiária, algumas crianças subiram no ônibus, e começaram a correr pelo corredor, muitas vezes ignorando a lei da gravidade, em constante movimento, gritando como esquilos cafeinados.

Quando precisamos da ação da física pra meter a cara de uma criança no chão, ela nunca se faz presente. Mas pra fuder sua vida escolar, ela é a primeira com um cabo de vassoura e um olhar cruel no rosto.
A mãe dos esquilos, que eu não me importaria de chamar de vaca e atrapalhar o consenso da natureza, gritava diálogos faveleiros inteligíveis com o que devia ser o seu cafetão. Ou o pai dos esquilos. Ou os dois, sei lá.
No meio tempo em que eu calculava o x da força F suficiente para trazer os 5 malditos fedelhos ao chão sem precisar me mover, um senhor de idade pigarreante e mal-educado, daquele tipo mal-amado pela família, castrado pela segunda guerra, e traído pela mulher por um crioulo com uma jiromba inegável, subiu no ônibus.
E em seguida dele, subiu uma senhora com 3 sacolas do tamanho de uma capivara, com os emblemas da Casas Bahia, Lojas Americanas e Ponto Frio esbarrando em cada joelho desavisado pelo corredor.
Essa mesma senhora, que fazia o tipo da dona de casa que fofoca pra todos até o dia em que a filha do padeiro menstruou, que entope o arroz de tempero artificial comprado na mercearia do Joaquim (que olha seus peitos caídos enquanto ela procura moedas perdidas na bolsa de 30 anos de couro de bode, porquê ele é sexualmente reprimido pela mulher não-depilada com quem ele casou)... divaguei...
Bem, a senhora das sacolas correu na frente do velho, derrubando metade do povo que estava de pé, e que fedia a suor e trabalho de peão de subvida urbana, pra pegar um assento vago.
O velho ficou muito puto com a mulher, que já estava largando as sacolas pelo chão do ônibus em movimento, e a xingou com palavras provavelmente aprendidas com seus inimigos da segunda guerra.
A mãe, que gritava no celular, escutou os xingamentos do velho perturbado e tentou tapar a orelha dos 5 filhos, mas isto se mostrava humanamente impossível, já que eles não paravam em seus lugares e gritavam como gralhas no acasalamento.
Tudo isso ocorria acompanhado da trilha sonora criada pela filha prostituta do diabo com mal-gosto musical, o tal do funk.
Agora lembre-se que estou sentada dentro desse ônibus. Armada. Nervosa. E com intenso potencial de fogo.
Mesmo quando tudo o que você quer é chegar em paz no trabalho, pra entregar seu texto ao seu chefe, que está te cobrando a semana inteira... Mesmo quando tudo que você quer é silêncio e uma viagem de ônibus decente, já que você não pode fumar para acalmar seus nervos e precisa esperar chegar em casa pra poder abrir sua bebida em paz... Mesmo assim, o transporte público está lá... Esperando pra estuprar a sua sanidade.
Mas no caso daquele ônibus, ocorreu um grande erro.
Eu não tinha sanidade. Eu tinha um ódio corrosivo como ácido sulfúrico em pele de neném.
Eu tinha uma arma carregada... E querosene.
Há coisas que você não pode fazer quando você anda de ônibus/metrô/transporte público. Elas envolvem... Não correr, Não gritar, Não desrespeitar os outros passageiros, Não ser incômodo, e USAR FONES DE OUVIDO! Mas principalmente...

Não matar o motorista a tiros, botar fogo em 5 crianças, uma mãe, uma senhora, um idoso, um estudante, e trabalhadores cansados do serviço.
Mas é claro que essas regras não se aplicam a psicopatas incendiários.
Por isso, é bom nunca arriscar dentro do busão. Você nunca sabe quando eu estarei dentro dele...








Um comentário:
ASIUHSISHAAHIUHASIUHAUSIHUIASHIUASIUAHS
Excelente!
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