Era dia de ir ao mercado. Se a ridícula falta de doces na semana anterior não tivesse quase me matado, eu não estaria me submetendo a isso, afinal, a preguiça é quem manda. Eu ainda pretendia convencer meu médico a me dar uma bomba de insulina para injetar, obviamente, ao invés de insulina, sacarose.
Mas, até lá, idas ao supermercado eram necessárias. Então soltei todo o ar do peito e desci da barra de ferro no teto onde estava meditando de ponta cabeça. Antes que as coisas parassem de girar, vi uma mancha ruiva e branca vindo na minha direção.
- Oi, meu bem. – falei, me abaixando e chamando meu gato (além dele, eu tenho outros dois cachorros, que no momento deveriam estar destruindo algum sapato ou algo assim). Enfim, ele veio rebolando e sacudindo as banhas até mim. Seu nome era Raphael, mas ultimamente eu o chamava de Axl Rose (por ambos serem gordos, ruivos, bigodudos e feios, o que não diminuía em nada o meu amor platônico e, aparentemente, incondicional por eles).
Assim, depois de perder quase 10 minutos amassando o gato e cutucando suas gordurinhas, coloquei um pouco de ração nos potes e saí de casa.

Amor da minha vida
Raphael era um típico gato persa, ou seja, seus pensamentos sempre incluíam comida, cama e planos de dominação mundial. Portanto, é claro, ele sempre tinha tudo o que quisesse em casa. Afinal, quando ele tiver sucesso, se lembrará de mim e não me escravizará como o resto dos humanos. Com isso em mente, as primeiras coisas que joguei no carrinho do mercado foram 2kg de carne moída e 20 whiskas sachê. A segunda, é claro, foi chocolate.
Por algum motivo, não conseguia desviar meus pensamentos do meu gato. E isso era ruim. Se eu mantivesse meus pensamentos em uma suposição por muito tempo, talvez ela pudesse ser real. Terminei de pegar os suprimentos básicos para o resto do mês e voltei para casa rápida como um raio. No momento em que entrei no quintal de casa, fui atacada por dois cachorros.
Meus outros nenéns
Tudo bem, eram os meus cachorros. O Gordo e a Bolota. É, eu sei. O Gordo até não era um problema, ele é pequeno, mas a Bolota tem 32kg. Ou seja, mais uma costela quebrada, ou quase isso. Depois de fazer carinho nos dois e expulsá-los de perto de mim, entrei em casa, checando as compras. Foi quando eu notei os olhos doces e castanhos de Raphael se erguerem e fixarem no meu rosto por alguns segundos. Ele estava deitado no sofá, e, depois de garantir que era eu, repousou a cabecinha redonda nas patas brancas.
Comecei a guardar as compras, desviando os olhos do ruivinho o mínimo que podia. Ele me ignorou com uma simples elegância. Peguei um prato e o bati delicadamente na mesa. As orelhas, os olhos, a cabeça e o próprio gato se levantaram e ele veio trotando até meus pés, miando e se esfregando nas minhas pernas. Separei um whiskas sachê e o coloquei no prato que foi diretamente para o chão para ser atacado por uma criatura ruiva e esfomeada.
Naquele mesmo dia, depois de uma hora e pouco, me atirei no sofá para dormir um pouco. Em menos de um minuto, senti quatro patinhas andando no meu peito. Abri os olhos e dei de cara com Raphael. Ele miou e notei que suas garras estavam saltadas, bastante próximas do meu pescoço. Ele pareceu notar meu olhar e as guardou. Miou novamente e eu cocei seu pescoço. Ele ronronou de prazer.
Sim, ele me treinava para fazer carinho nele. Com medo de ser escravizada no futuro, eu apenas aceitava. Um dia, ele retribuiria. Vi ele deitar-se no meu peito, as patinhas esticadas apontando para o meu pescoço. Engoli em seco. Ele parecia bem disposto a cortar minha garganta. Suspirei profundamente. Querendo ou não cortar minha garganta, eu estava exausta. Então adormeci.
Acordei enquanto o sol descia. Podia ouvir o gemido dos cachorros do lado de fora, então corri e abri a porta. Os dois me lamberam até o rosto antes de finalmente irem procurar algum lugar para deitar. Olhei em volta procurando meu gato. Ele não estava na sala, pelo menos.
Fui até a cozinha. Em cima do balcão, farejando a pedra, estava Raphael. Ele me olhou inocentemente quando entrei. Em seus pés, estava um pequeno gafanhoto morto. Arregalei os olhos e desci o gato do balcão. O gafanhoto eu enterraria depois.
Não consegui dormir mais naquela noite. Passei as horas atrás do gato, jogando uma bolinha para ele pegar, observando-o cochilar por alguns minutos antes de se levantar e visitar a comida ou a caixa de areia. Quando o dia finalmente amanheceu, coloquei o gato em uma caixa de transporte e saí correndo.
Só havia um lugar no mundo que eu poderia ir numa situação daquelas. Em menos de meia hora, estava entrando correndo no escritório da Contos de Bar.
- Antonelli! – chamei, e o tapado não surgiu de lugar nenhum. Andei até sua mesa e o localizei abaixo dela. Chutei seu estômago. – ANTONELLI!
- Q-que foi? O que houve com o Larry? Não faça essa cara, está me assustando, onde está minha alpaca? O que você fez com ele? – eu e Larry não nos dávamos muito bem desde que ele havia comido um dos meus textos algum tempo atrás. Maldito.
- Deve estar dormindo na cama de casal ao seu lado. Antonelli, meu gato quer dominar o mundo. O que eu faço?
- De novo? Por que você sempre me procura por isso?
- Você tem uma alpaca. Deve saber lidar com animais querendo dominar o mundo.
- É, você tem razão. – sacudi a cabeça, nervosa. Maldito tapado criador de alpacas psicóticas.
- O que eu faço com ele então? – coloquei a caixa de transporte em cima de sua mesa. Raphael miou baixinho.
- Eu já falei para você se livrar dele. – soltei um grito, abri a caixa e peguei meu gato no colo, abraçando-o.
- É o meu gato! Não vou me livrar dele! – fiz minha melhor cara de Gato de Botas. Hm, meio engraçado. O Gato de Botas também é ruivo. – O que você faria se alguém mandasse você se livrar do Larry, huh?
- Eu entendo como você se sente, mas Larry não vai dominar o mundo. Nós já tivemos essa conversa. Talvez você devesse conversar com o gato. Ele vai entender seus motivos.
- Você tem razão! – gritei e abracei o gato ainda mais forte. – Muito agradecida. – peguei a caixa de transporte e andei até minha mesa. Raphael miou novamente, incomodado. Soltei-o no chão e liguei meu computador. Para variar, eu só teria mais algumas horas antes de Paulo chegar e ameaçar me demitir por não ter um texto decente pronto.
Bem, no fim, algumas horas depois ele ameaçou me demitir por ter achado dejetos felinos na sua sala. Mas ele não tinha provas, para variar, então simplesmente saí correndo com meu gato de lá.









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