Eu estava descansando meus pés em cima de minha mesa, que arrastei para o canto mais escuro do escritório. Assim, apenas meu all star preto e a barra do meu sobretudo arrastando no chão refletia o pouco de luz que chegava ali.
Estava fumando sossegada meu Black de menta, enquanto deliciava um pouco de red label em um meio copo.
Eu curtia a minha solidão, uma vez que àquela hora da noite, todos estavam em suas respectivas casas, e o Antonelli, que morava ali, tinha levado a Alpaca para uma volta...
- Larry gosta de contar as estrelas. Eu o estou treinando para ler o futuro pelos astros. – Foi o que ele disse antes de Larry começar a defecar pecinhas brilhantes no corredor, e ele precisar sair correndo.
Eu pensava onde eu poderia morar, uma vez que nunca tive moradia fixa, mas já que tinha arranjado um emprego, isto era necessário. O computador tocava baixinho Pink Floyd enquanto eu tentava fazer algumas bolhas de fumaça com a boca pintada do meu habitual batom vermelho.
Foi então neste instante que uma jovem escancarou a porta do escritório do Contos de Bar. Eu me assustei, mas não esbocei reação. Quando se está alcoolizado, reações bruscas te levam a uma ressaca mais imediata, então achei desnecessário.
A garota vestia um vestido verde esmeralda curto e apertado, tinha cabelos loiros, salto alto e seios fartos. Pensei que poderia ser uma encomenda de Biancardine, mas ela sentou-se na minha mesa.
Cruzei um pé em cima do outro, ainda apoiados na mesa, e do escuro, falei com voz arrastada.
-Se está esperando o Biancardine, a mesa dele é aquela ali – Apontei pro outro lado, com o cigarro na mão.
-Não, Rocha, estou atrás de você. – A garota me informou com uma voz tão gemida que eu podia jurar que ela tinha acabado de sair de um orgasmo.
-Não posso ajudar você. Loiras não fazem meu estilo, sabe?
-Não estou aqui para isso, Rocha. Preciso resolver um caso.
-Se tu deu pra outro cara, quem tem que se resolver com seu marido é você. Não mato corno, dá azar. – Eu comecei a brincar de abrir e fechar meu isqueiro metálico.
-Isto já foi resolvido. O que eu quero é encontrar um objeto roubado.
-E do que estamos falando?
-De um colar de diamantes da época colonial, que herdei de minha bisavó, e que você roubou de mim!! – Ela exasperou, aproximando o rosto de botox perto de mim, sem maiores expressões.
-Olha moça, eu não sei que porra de colar é esse. E se eu não lembro, eu não fiz. – Eu virei o red label de uma vez pra dentro da garganta. Nada como álcool rasgando seu juízo.
-Estive na Europa em férias, e tive de usar o trem para chegar a Viena. Na viagem, foi você quem sentou ao meu lado. Eu reconheceria esse batom em qualquer lugar!
-Que eu saiba, nunca estive em Viena.
-Escute aqui, Rocha! Eu vim buscar meu colar e não vou sair daqui até que você o encontre! –Ela se levantou, gritando histérica, mas seu rosto permaneceu imutável. È isso que acontece quando você recém aplica botox.
-Eu não tenho o porquê encontrar algo que eu nunca perdi, ou tive em mãos. Eu nem sequer uso colar, afora minha coleira. Está me confundindo, vá embora!
-Quando fizemos a primeira parada, você me cumprimentou, se apresentou e perguntou se eu por acaso não tinha acetona, pois precisava beber alguma coisa e eles não vendiam nada alcoólico no trem. – Ela tagarelava indiferente.
-É, de fato soa como algo que eu faria. – Eu tive que admitir.
-Logo depois, tiveram de evacuar o vagão por que você acabou causando um incêndio usando acetona e um cigarro.
-Certo certo, você tem seu ponto! De fato parece que me encontrou, mas isto não prova nada. Se eu não lembro, eu não fiz! Agora me deixe em paz!
Neste instante, Antonelli entrou no escritório, com Larry em seu encalço. A jovem virou-se e encarou o bicho por 5 minutos, enquanto Antonelli parecia examinar algo escuro e pegajoso no chão do corredor.
-Meh! – piscou Larry para a jovem. Provavelmente, o animal deveria estar pensando em Dança do Pênis, ou algo mais absurdo, por que sua face de “por favor, espero que você curta sexo selvagem” era muito sugestiva, de fato.
Neste momento, a comparação da jovem com uma boneca inflável foi inevitável, uma vez que seu corpo deveria conter mais plástico do que uma boneca de verdade.
- ME DEVOLVA O COLAR OU EU CHAMO A POLÍCIA! – A jovem pareceu sair do transe, chegando ao auge de sua estridência. Um gato sendo estuprado seria uma analogia interessante nesse momento.
-Veja bem, moça, que a senhora chega aqui no escritório, falando sobre coisas que nunca fiz, e ainda grita comigo. Eu é que deveria chamar a polícia. A senhora deve ser uma violação a pelo menos cinco leis ambientais.
-Não brinque comigo! Eu Quero o que eu vim buscar!
-Saia daqui agora e considere-se com sorte de sair viva. –Eu a olhei com os olhos pintados de lápis perto, através da tenebrosa cortina de fumaça naquele canto escuro.
Em resposta a minha ameaça ela puxou o celular e twittou #190. Droga...
Twittar era golpe baixo.
Em questão de 140 caracteres, luzes vermelhas e azuis piscaram na janela, acompanhadas à típica sirene clichê das autoridades (eu sempre achei que eles deviam variar, assim como o caminhão de gás). Levantei nervosa da mesa, e saí batendo os pés pelo escritório, com a loira histérica em meu encalço.
Assim que eu passei pelo corredor, Antonelli estranhou e perguntou o que estava acontecendo.
- Ao que tudo indica, sou uma ladra que incendiou um trem em Viena, procurada pela polícia. Mas isso é só o que dizem por aí. – Dei de ombros, entrando no elevador.
-O Quê?!?! E o que vai fazer?! – Ele se levantou, nem perguntando porquê uma Barbie estava me acompanhando.
-O que eu faço de melhor... – E enquanto as portas do elevador se fechavam entre nós, tive tempo suficiente para liquidar 5 tiros na infeliz. Os gritos dela estavam me trazendo uma ressaca adiantada. E eu definitivamente não gosto de ressacas antes da hora.
Arrastei o corpo para o térreo, esperei o elevador subir, forcei as portas e atirei o corpo no poço. Antes havia retirado um vidro de acetona da bolsa da mulher.
Depois, caminhei convicta em direção às viaturas policiais, empunhada da acetona e de meu isqueiro predileto.
Algumas explosões depois, subi de volta ao escritório. Antonelli continuava no corredor, examinando a gosma escura, que dessa vez, pude perceber que eram as fezes de Larry.
-Ah, que nojo! Sai de perto disso!
-Você acaba de incinerar cruelmente cerca de 20 oficiais, mas tem nojo disso?
-É claro! É merda de lhama!
-Mas estou preocupado. Desta vez, encontrei coisas estranhas no cocô do Larry...
-Esse bicho come pedra com molho inglês. O que poderia ser estranho?
-Pedrinhas brilhantes, como diamantes...
-WHATAFUCK?!
Aquela maldita alpaca...

Larry's Troll Face








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