18 de novembro de 2010

Lobotomia Bovína

Acordei com a incômoda sensação de que estava sendo cutucado, para uma realidade aonde eu estava de fato sendo cutucado. Frustrante. Era o meu colega zelador, o Foster, com o cabo de seu esfregão. Certo que eu estava dormindo em frente a porta do armário dele, mas eu já havia deixado bem clara as regras sobre me acordar: Simplesmente não o faça.

- Qual a primeira regra sobre mim, prezado Foster? – disse irritado, enquanto esfregava os olhos.
- Sabe meu nome? Ah, não importa, saia daí antes que eu chame o segurança. – disse o velho, parecendo até que não me conhecia.
- Pfft, segurança? Quem ficaria nesse papel, o Carlito?
- Car...? Escuta, não sei como você veio parar aqui, mas se foi para procurar emprego, sugiro que coloque uma roupa decente e aja menos como um invasor. – disse rispidamente, de uma forma como se realmente parecesse que não me conhecesse.
- Foster! – notei, espantando-me – Sua mão direita!
- O quê tem? – disse ele, olhando os dedos... Todos eles.
- Seus dedos! Mas como...?
- Você não parece bem, meu filho. – disse o zelador, se virando e voltando a esfregar o chão – O escritório daqueles lunáticos fica no final desse corredor. – ele apontava com o indicador da mão direita, o que me perturbava. – Cuidado, e que Deus o proteja.

Alguma coisa parecia estar errada. Não só o fato de Foster ter regenerado os dedos de sua mão direita, ou de agir como se não me conhecesse... Mas me avisar pra tomar cuidado com meus próprios colegas colunistas? Ele que devia estar tomando cuidado comigo e minhas tendências incendiárias e levemente genocídas!

Enfim, me levantei, e caminhei até o nosso escritório, esperando que as coisas se ajeitassem. Logo de cara, ficaram ainda mais confusas.

- Pois não? – disse Garcez, de sua mesa, completamente nu.
- Garcez... Aonde está a minha cama??? – com ele nu, todos já havíamos nos acostumado.
- Cama?
- Não se faça de tonto! A minha cama, que ficava logo ali do lado da minha mesa e... – tinha alguém sentado na minha mesa.
- Rodrigo, conhece esse rapariga? – Garcez perguntou ao Sr. Esferográfica, que era a pessoa que estava na minha mesa. Ele levantou o rosto da tela do meu notebook, que estranhamente não possuía marcas de queimaduras, me encarou por alguns segundos, voltou o olhar para a tela e disse:
- Não. Pergunte ao Paulo, deve ser o novo assistente.

Respirei fundo. Era uma pegadinha, claro. Ia agir de forma madura e não cairia na deles.

- VOCÊ É LOUCO?!? – exaltou-se Sr. Esferográfica, após eu pular do chão pra cima do notebook que ele usava, quebrando-o em dois.
- Ouço muito essa pergunta, e sabe como costumo respondê-la? – questionei-o.
- E EU VOU SABER?

Nesse momento, tirei de meu bolso um estilingue e um prego enferrujado, provavelmente com algumas DST’s também, colocando-o no elástico e puxando-o contra ele, que se jogou debaixo da mesa gritando pela polícia. Tsc. Bichinhas não deviam sentar na minha mesa.

- O quê temos aqui? – ouvi a voz de Biancardine, e o som do destravar de um revólver. Lá estava ele, na entrada da sala, apontando para mim.
- Ótimo, você. – apontei meu estilingue com carga gonorréica para ele - Hora de acabar com essa cena toda, que ainda preciso escrever meu conto para amanhã!
- Primeiro de tudo, quem é você?
- Não finja que não me conhece, Biancardinossauro.
- Ora essa, sabe com que está lidando?
- Chega! – disse o Sr. Esferográfica, se levantando atrás de mim - Vou ligar pra polícia! – Biancardine então atirou aos pés dele – QUE FOI ISSO?!?
- Volte pra debaixo da mesa, tem adultos conversando. – disse ele, e então olhou para mim – Não se assustou nem um pouco com esse último tiro, colega invasor insano?
- Nah. Passei tempo suficiente no Oriente Médio pra saber que herpes e sífilis causam estrago muito maior que uma bala.
- ...Você não me é estranho.
- Não é estranho?? – disse Sr. Esferográfica, novamente embaixo da mesa – Pare de trazer conhecidos seus para esse escritório!
- Cale a boca e vá me fazer um pouco de chá. Com bastante molho inglês. - eu disse, já impaciente.
- ... Gostei de você, quer trabalhar por aqui? – propôs Biancardine.
- Eu já trabalho aqui! – respondi.
- Que bom, vejo que tem entusiasmo.
- Não! Você não me entendeu! Eu sempre trabalhei aqui! Essa é a minha mesa!!!
- Vejo que tem problemas, também. Mas não seria o primeiro.

Dutra e Losina então entraram juntas na sala, demonstrando um leve susto com o revólver de Biancardine, uma pequena confusão com a minha presença em cima de uma mesa segurando um estilingue, e um grande desconforto com a nudez de Garcez, que dançava ondulando os braços tentando aliviar a tensão do escritório.

- Biancardine... – começou Dutra.
- Fale rápido, doçura. Estou ocupado.
- Primeiramente, pare de me chamar de doçura ou arrebento seu nariz. – ele riu – Segundo: Garcez, faça-me o favor de se vestir, criatura! – ele também riu, e continuou dançando – E finalmente... O quê está acontecendo aqui?
- Achamos nosso colunista pras quartas-feiras, só isso, doçura. – afirmou Biancardine, ainda apontando para mim.
- Que? E quanto a Rocha? – perguntei, confuso.
- Rocha quem? Desde a saída do estequiom... Digo, do Oliveira, não achamos ninguém decente para ocupar a vaga.
- Como assim? Mas eu... – de repente, a situação começou a ficar claramente real para mim... Será possível que...? – JÁ ENTENDI TUDO! – exclamei, pulando da mesa para o chão, ao lado do extintor de incêndio – Suas memórias foram modificadas por bovinos superinteligentes realizando experimentos em pequenos grupos de humanos para fins de estudar a nossa sociedade e nos destruir legal!!! – enquanto repetia as duas últimas palavras insistentemente, peguei o extintor e joguei-o contra Biancardine, que por reflexo atirou fazendo-o estourar no meio do escritório, me dando cobertura para a minha fuga épica montado no Larry.

...


A fumaça branca finalmente abaixou e lá estávamos todos nós, nos mesmos lugares, em uma espécie de silêncio constrangedor. Não conseguia acreditar, Larry nunca havia perdido uma de minhas deixas em uma emergência!

- Aonde está o Larry...? – perguntei, lentamente.
- Não tem nenhum Larry. – me disseram.

...

Tudo ficou escuro.



***


Acordei com a incômoda sensação de que estava sendo cutucado, para uma realidade aonde eu estava de fato sendo cutucado. Frustrante. Dessa vez, era a Rocha, com o cano de sua arma.

- Hey, desculpa quebrar a tal daquela primeira regra, mas o Larry está defecando no armário de bebidas de novo.

Levantei num salto, mas parecia que eu estava dormindo debaixo de minha mesa como de costume, visto que ela se virou e caiu. Olhei atônito para minha parceira de guerra, esfreguei os olhos e então me virei, avistando Larry e toda sua majestosa... Naturalidade.

- LARRY!!! – corri até ele e o abracei, sem me deixar abalar pelos sons de seu intestino trabalhando.
- Está tudo bem, Bruno? – todos estavam no escritório, e pareciam estar estranhando minha reação. Após me recompor e verificar que Larry havia inutilizado todas as bebidas de nosso estoque, propus que fôssemos ao bar mais próximo por conta do Paulo e contei todo aquele pesadelo.

Finalmente pude relaxar com meus colegas de trabalho, mas não sem antes dar um ou dois socos no Sr. Esferográfica, só porque sim. Aqui fica registrado um lindo momento de confraternização, pouco antes de pedirem educadamente para que nos retirássemos.


Só nesse dia, eu preferi não comer um cheeseburguer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Design by Contos de Bar | Modified by 1UP