19 de novembro de 2010

Freud explica

O relógio da cabeceira da cama piscava o horário em luzes vermelhas. Meus olhos escuros estavam arregalados, ressaltando as leves olheiras arroxeadas adquiridas ao decorrer da semana de noites mal-dormidas, o cabelo desalinhado. Uma fina gota de suor frio passou pelo meu queixo e foi repousar no travesseiro fofo. Aquilo tinha que ter um fim.

Levantei, me arrumei e tomei o café-da-manhã demoradamente, com direito a muitas xícaras de café extra forte. Dirigi até o escritório, com as mãos ligeiramente trêmulas (não sei ao certo se era culpa do excesso de cafeína ou do nervosismo). Cheguei quieta e permaneci assim, para o não-espanto de meus colegas. Ignorar alguns bom-dias não era um crime hediondo. Não na situação que eu me encontrava, pelo menos. Postei minha coluna e me refugiei ao lado da máquina de café. Peguei o celular e digitei o primeiro número que veio a mente. Só havia uma pessoa que podia me salvar daquele horror.

Enquanto esperava por um cappuccino, xingando a máquina pré-histórica, aguardei a outra pessoa do lado da linha encontrar seu celular e me atender. Eu precisava ser rápida e eficaz.

- Sou eu. – cortei o ”olá” da minha salvadora. – Não tenho tempo para isso. Não, não bati o carro. – bufei, experimentando pela primeira vez no dia uma sensação que não tivesse como reflexo involuntário roer as unhas. Ingênua criatura do outro lado da linha que cogitava a hipótese de que eu algum dia seria capaz de ferir meu adorado New Beetle Preto. – Preciso que venha agora para o escritório do Contos de Bar. Sim, o protótipo do caos. – olhei de esguelha para onde os colunistas a principio trabalhavam, concordando. – É um caso de vida ou morte. – houve uma exaltação por parte da pessoa com quem eu falava, seguida por uma avalanche de perguntas. – Sim, estou dormindo no mínimo oito horas por dia, comendo a salada, pagando minhas contas...Só resolvi tomar um ou outro cappuccino hoje. – apertei algum botão na máquina, preparando meu segundo cappuccino. – Venha logo, por favor. E não se preocupe, vamos conversar na sala do zelador do prédio. Acredite, é melhor do que a sala do Editor.

Desliguei e cruzei os braços, batendo com o pé no chão, de um jeito ritmado. Era só esperar, tomar mais sete doses duplas de cappuccino extra forte e me manter longe de qualquer tipo de contato verbal com meus colegas. Agachei-me ali mesmo e tirei uma caneta e um caderno da bolsa, anotando rascunhos aleatórios.

Em menos tempo do que o previsto para alguém com um carro cruzar a cidade, uma figura adentrou os limites do escritório do Contos de Bar. Não era alta, porém também não era baixa. Ela cumprimentou os meus colegas que pararam momentaneamente de tentar por enfeites natalinos em Larry para sorrirem de um jeito aparentemente são, porém, logo voltaram as suas atividades. A figura magra e de cabelo escuro chanel desviou de flechas em chamas e Larry, vindo ao meu encontro. Uma onda de alívio invadiu meu corpo, o que me fez abraçar minha salvadora. Essa estava com os olhos levemente arregalados e me abraçou de volta, dando uns tapinhas nas minhas costas.

Ela abrira a boca, provavelmente para me indagar qual era a situação calamitosa em que eu me encontrava, com exceção do próprio ambiente de trabalho. Coloquei minha mão sobre seus lábios e balancei a cabeça negativamente, indicando que os esclarecimentos viriam depois. Nos esgueiramos até a sala do zelador dessa vez desviando dos alvos humanos que Marina acertava com uma velocidade impressionante, empunhando algo parecido com um revolver de calibre 38.Para a não-surpresa de minha salvadora, esmurrei a porta do gentil Foster por cerca de dez segundos.

- Onde é o incêndio dessa vez? – ele abriu a porta misteriosamente, pois carregava um extintor na única mão com dedos.
- Provavelmente perto das mesas dos colunistas. – e segurei Foster pelos ombros com força, o olhar alucinado voltando a tomar conta do meu rosto pálido. – Eu preciso da sua sala. Agora!
Foster acenou positivamente e saiu heroicamente porta a fora, tentando apagar os estragos das flechas, das balas e, não nos esqueçamos, de Larry, no escritório.

- Entra, rápido! – puxei minha companhia para dentro daquele pequeno recinto o mais depressa que pude.
- Calma, querida. Acredite ou não, essa não é minha primeira vez desviando de pedaços de flechas e móveis em chamas.
- Sente. – indiquei uma cadeira vaga e sentei em um tripé, colocando a vassoura Leucádia e um esfregão encostados na parede. – Acredite, você sabe, mais do que ninguém, que eu não te chamaria aqui caso algo realmente não estivesse me perturbando.
- E pelo visto também está prejudicando o seu sono. – ela apontou para as olheiras. Era uma pessoa observadora, eu precisava admitir. - Tente ser objetiva, querida. – minha salvadora de cabelos curtos sentou, cruzando as pernas.
- Sou biologicamente incapaz de ser objetiva. - olhei para ela da maneira mais cética que pude ao dizer isso. – Mas vou tentar fazer um apanhado geral sobre a situação que se abateu sobre mim essa semana. – suspirei, fechei os olhos, tentando lembrar dos detalhes. – Era terça-feira, quatorze horas da tarde, em ponto, e eu estava com a Júlia saindo de um supermercado que fica aproximadamente duzentos e trinta e um metros de distância da...
- Você disse que ia ao menos tentar ser objetiva, Victória. – ela tinha um tom de voz divido entre a rigidez e a preocupação.
- Ok, ok. – cruzei os braços, emburrada. – Foi quando eu estava saindo do supermercado com várias sacolas cheias de frutas e chocolates que eu vi... aquilo. – respirei fundo. – Algo que me fez parar no hospital. Algo que povoou os meus pensamentos, me atormentando durante um dia e fazendo com que eu tivesse o mesmo maldito pesadelo toda à noite! – me ergui do tripé, andando em círculos na sala de Foster e tropeçando no esfregão. – tomei mais de vinte copos de 200ml de café extra forte só para não dormir! Não sei mais o que fazer!
- Fale mais sobre o que viu ao sair do supermercado e do pesadelo.
- Então eu olhei para aquilo, curiosa, afinal, Júlia irradiava uma felicidade muito suspeita só de fixar os olhos naquilo. Foi terrível. Pavoroso. Cruel, até. É como dizem, a curiosidade mata. Mas no meu caso ela não matou, só me impediu de viver normalmente.– engoli em seco. – Era como se meu pior pesadelo tivesse se materializado diante dos meus olhos e pudesse me submeter a torturas inimagináveis com seu guarda-chuva.
- Victória, estou ficando realmente preocupada, fale agora o que era essa maldita coisa!
- Era um carro. Mas não um carro qualquer. Era algo parecido com uma máquina de tortura. Uma máquina de tortura sobre quatro rodas e rosa.
- Oh, então encontrou o carro da nossa antiga vizinha? – ela sorriu, colocando a mão no peito em sinal de alívio.
- Não me fale dela ou daquele infeliz fusquinha rosa-claro! – cheguei perto dela, sentando no chão, ao seu lado. – É pior do que o fusquinha da Sra. Azevedo.

Ela ficou em choque por alguns segundos até processar a idéia completamente.

- Pior?
- Muito pior. – confirmei. – Perto daquilo, o fusquinha parece um filhote de coala bipolar inofensivo.
- O que é? – ela perguntou, receosa.

Abri a boca, mas nenhum som saía. Tentei novamente e grunhi de um jeito agudo e desafinado. Só deu certo na terceira tentativa.

- Compact Pussycat. – disse o nome fatal.
- Compact o quê?
- Compact Pussycat. O carro da Penélope Pitstop.
- Nossa, isso existe?
- Se não existisse, o mundo seria um lugar melhor.

-Enfim, continue.
- Bem, como certamente já deve ter imaginado, a Júlia roubou o carro. E isso motivou a quase prisão dela, mas isso são detalhes. Voltemos ao meu problema. – olhei para baixo. – Toda noite eu tenho o mesmo sonho/pesadelo. Estou caminhando em uma rua aberta, sozinha, cantarolando uma música qualquer em japonês quando o Compact Pussycat me ataca, junto com a sua pilota. Tento correr, gritar, mandar algum sinal de fogo para uma tribo indígena local, mas nada disso funciona! Não consigo dormir e quando fico acordada é ainda mais aterrorizante...!
- Bem – ela começou, a mão segurando o queixo – Acredito que tenha ficado muito abalada com o que aconteceu com a Júlia (em relação à quase prisão) por causa do tal carro da Penélope Pitstop. Você deve ter ficado impressionada com as possíveis consequências dessa ação impensada dela, afinal, essas atitudes dela te influenciam como colega de trabalho e amiga. Por isso – ela se levantou, abrindo a porta. – Você vai vir comigo.
- Para onde? – fomos caminhando pelo corredor.
- Para casa.
- Mas eu estou trabalhando! – e apontei para um montinho de madeira queimada, que outrora deveria ter sido uma mesa.

Foi a vez dela fixar os olhos escuros e analíticos sobre mim. Ela se virou para contemplar meus colegas colunistas e meu chefe que, miraculosamente, não era o alvo das flechas daquela vez.

- Victória não está em condições de trabalhar no momento. Ela precisa ir para casa descansar imediatamente. Alguma objeção?

Todos negaram com a cabeça, obedientemente.

- Vamos. – ela apanhou minha bolsa que estava tirada em um canto qualquer e me arrastou pelo braço em direção as escadas. – E nem pense em dirigir. Assim que chegarmos em casa, vou te dar um bom copo de leite quente com mel, como antigamente, para afastar qualquer tipo de sonho ruim. Freud recomenda.

Um pequeno sorriso brotou no canto dos meus lábios. Sabia que podia contar com a minha salvadora para o sumiço daquele carro da minha mente.

- Obrigada, mãe.
O fusca da Sra. Azevedo, o motivo dos meus pesadelos antes do Compact Pussycat

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