16 de novembro de 2010

Compact Pussycat from Hell

Só para variar um pouco, era um dia normal. Havia líquidos suspeitos espalhados pelo chão, gritos e a colunista nova, Marina, polia um revólver sentada em algo que parecia com um corpo humano. Por incrível que pareça, o mais absurdo era o fato de que todo mundo parecia estar lá, totalmente sóbrios.
Ou talvez, não totalmente, mas isso não vem ao caso. Olhei para a minha cesta de frutas e vi que estava quase vazia. Maldição. Precisava comprar mais, ou logo ia ter que mergulhar meus dedos na cascata de chocolate que, graças a Dionísio, continuava inteira.
“Ei, Vi” chamei. Ela se virou lentamente para mim, o rosto demonstrando um medo profundo. Ou uma baita dor de barriga. “Faça compras comigo?” perguntei, fazendo minha maior cara de Gato de Botas possível, chegando a piscar lenta e fofamente.
“Tudo bem” ela falou, após alguns segundos, se levantando. Sorri e me pus de pé rapidamente. “Você tem dinheiro”
“É claro que não. Achei que fôssemos amigas!” gritei, nem chegando perto de chamar a atenção de alguém lá dentro. Não que eu esperasse algo. Victória, obviamente pensando a mesma coisa, suspirou novamente.
“Você sempre vai me atacar quando eu fizer uma pergunta que você não tenha uma resposta aceitável?” pensei por um segundo antes de responder, apesar da resposta ser totalmente óbvia.
“Sim, né.”

Após alguns minutos, estávamos andando alegremente pela rua. A não ser que palavras estranhas murmuradas em árabe não sejam algo alegre. Em todo caso, estávamos saindo de um mercadinho com sacolas cheias de frutas quando eu o vi.
Ele era rosa choque e amarelo, tinha uma boca e cílios, e olhos azuis. Também tinha uma sombrinha branca, rosa e lilás plantada no meio, e um lindo 5 desenhado do lado.
Seu nome era Compact Pussycat, o carro da Penélope Charmosa.
Victória, é claro, na hora tampou seus olhos e soltou um uivo assustador. Segurei-a delicadamente para não cair no chão, mas ela escapou por entre meus dedos e bateu a cabeça com um sonoro ‘tum’.
“Eu preciso desse carro...” murmurei. Não que eu gostasse de rosa, ou até mesmo da Penélope Charmosa, mas... naquele momento, o pensamento de que eu deveria ter o carro me consumiu. Eu não queria saber das consequências. Eu queria o Compact Pussycat.
Entrei no primeiro táxi que vi, expulsei o motorista e comecei a seguir o caminhão que levava a massa rosa choque brilhante. Depois de algumas voltas pela cidade, finalmente paramos na frente de uma garagem esquecida por Deus e todo mundo.
Desci do meu táxi, coloquei óculos escuros que tirei da bolsa por cima dos óculos de grau e olhei em volta. Aquele era o lugar, e aquela era a hora, eu podia sentir. Com um canivete, abri o cadeado da garagem e encarei, maravilhada, o objeto que me levara até ali.
Finalmente, o Compact Pussycat era meu.

É claro que, no dia seguinte, eu fui com ele para o trabalho. Me sentia diferente. Talvez fosse aquele lacinho rosa que eu amarrara no pescoço. Talvez fosse o chapéu de piloto, ou até mesmo as botas roxas. Mas era algo muito mais interno o que eu sentia. Eu era a proprietária do Compact Pussycat. E nada ia mudar isso.
No escritório, todos me olharam torto. Ninguém nunca havia me visto de cabelo preso e sem óculos, e sem dúvida, nunca bom uma bota roxa. Victória havia sumido atrás de sua mesa no momento que pisei no recinto.
“Bom dia, queridinhos” falei, sorrindo alegremente para todos. Ignorando seus olhares de espanto, desfilei até minha mesa e me sentei, desligando a cascata de chocolate e guardando-a em uma das gavetas.
“Júlia, meu bem?” perguntou Victória, se aproximando, de óculos escuros. Olhei para ela, sorrindo radiante.
“Sim?”
“Você não vai comer chocolate?”
“Chocolate engorda” falei categoricamente, puxando uma lixa de unhas do bolso e começando a, obviamente, lixar as unhas. Eu havia pintado-as de rosa, para combinar com todo o conjunto. Victória, mesmo com os óculos, parecia prestes a desmaiar.
“Você não engorda de jeito nenhum.” fuzilei-a com os olhos, baixando a lixa.
“É o que você acha! Ontem eu pisei na balança, e sabe quanto eu estava pesando? SESSENTA QUILOS! VOCÊ SABE O QUE É SESSENTA QUILOS?” berrei, jogando o cabelo para trás num gesto altamente esnobe.
“Sei. É o que você pesou nos últimos dez anos, sem tirar nem pôr. E nunca se importou com isso. O que houve com você?” ela, sem dúvidas, estava horrorizada. Eu não via motivo nenhum para isso.
“Olha aqui” apontei uma unha perfeita para ela e levantei uma sobrancelha “Só porque você não se importa com sua aparência, não significa que eu não possa me importar também! Agora saia daqui, está me perturbando.” ela decididamente arregalou os olhos, mesmo que eu não os enxergasse, e se virou e saiu correndo. “Jeca.”
“Isso foi realmente rude, Losina” falou Biancardine, me olhando de sobrancelhas erguidas “Apesar de estranhamente comum da sua parte, nunca foi direcionado a ela. Vá se desculpar.”
“Vá destripar peixes, Biancardine” suspirei, pegando um espelho da minha bolsa e retocando o rímel.

Algumas horas e muitos xingamentos e passa-foras depois, eu estava tranquilamente retocando meu esmalte, então não percebi quando os policiais chegaram de fininho. Eram dois, como nos filmes, e pareciam bastante mal-humorados.
“Júlia Losina?” perguntou um deles. Terminei minha unha lentamente antes de erguer meus olhos.
“Sim?”
“Você está sendo acusada pelo roubo do carro da Penélope Charmosa.”
“Eu ganhei aquele carro” menti descaradamente.
“Quando?” perguntou o outro, erguendo uma pranchetinha.
“Ontem.” estava na hora de usar a tática mais conhecida dos meus colegas de trabalho: se algo está errado, culpe o editor. “Quando cheguei em casa, ele estava amarrado com uma fita branca e tinha uma carta que dizia ‘para minha colunista favorita, de Paulo’.”
“E você sabe quem é Paulo?” apontei para a porta no fim do corredor.
“É o nosso editor. Ele nos dá presentes extravagantes quando fazemos um trabalho realmente bom.”
“Entendo. Então, apenas para confirmar, onde você estava ontem, entre as 14 e 15 horas?”
“Num mercadinho aqui perto com ela” apontei para trás, onde deveria estar a mesa de Victória “Em seguida, levei-a para o hospital, pois ela caiu e teve uma concussão.” o que não era uma mentira, pois depois de levar o Compact Pussycat para minha casa, usei o táxi para ir até o hospital tratar minha amiga.
Em seguida, os policiais foram até a sala de Paulo e, após alguns minutos, saíram de lá com ele algemado. Coitado, seu álibi não devia ser tão bom como o meu.
“Srta. Losina” senti a tempestade chegando quando um dos policiais se aproximou. “Nós precisaremos levar o carro. Por favor, a chave.”
“Não!” gritei, me levantando e derrubando o pote de acetona que se derramou pelo chão. Maldito desperdício. “É o meu carro!”
“É um carro roubado, e deve ser devolvido para o dono original. A chave, por favor, se não quiser ser presa também.” duas gordas lágrimas pularam dos meus olhos, sem estragar meu lápis a prova d’água. “Não vou falar novamente.” solucei baixinho e peguei a chave da bolsa, colocando-a na mão do policial.

Na manhã seguinte, me sentia como se estivesse de ressaca. Meus cabelos haviam voltado para o solto natural e pareciam totalmente sem vida. Me joguei na minha cadeira, coloquei os pés em cima da mesa e catei minha cascata de chocolate de uma gaveta.
“Júlia?” chamou Victória baixinho, e me virei para ela. Ela parecia assustada e muito triste.
“Olá.” murmurei, ligando a cascata e mergulhando um pedaço de pão nela.
“Você não tem medo de engordar?”
“Besteira. Sou fisicamente incapaz de engordar. E chocolate faz bem” grunhi antes de colocar o pão na boca. Victória sorriu como se tivesse ganhado na loteria e eu sorri de leve de volta, me sentindo estranhamente feliz.
“Que bom que você voltou ao normal” ela disse “Você estava assustadora ontem.”
“Bah. Meu cabelo está sentindo câimbras até agora, coitado.” não precisei também citar a crise alérgica que tive ao esmalte, o que me lembrou porque eu não o usei durante os últimos anos. Mas ela riu mesmo assim.
“Não o torture demais, coitado.”

Compact Pussycat e sua dona original, Penelope Pitstop

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