2 de dezembro de 2010

Defensores da Paz Chiques e Sofisticados

A sala estava escura e não era possível enxergar nada. Procurei por algum interruptor na parede, obtendo sucesso. Ao abaixá-lo, 4 holofotes se acenderam iluminando 4 conhecidos à minha frente, e eu pude reconhecê-los: o primeiro da esquerda para a direita era o Sr. Esferográfica, assistente do escritório aonde eu trabalho, e curiosamente ele estava amarrado a uma cadeira e bem amordaçado (com “bem amordaçado”, quero dizer que estava quase que homo-eróticamente amordaçado, com roupa de couro, correntes e tudo mais). O segundo era o zelador Foster, grande amigo meu, e pelo visto ele estava ali pela sua vassoura de estimação, a Leucádia, uma vez que ela estava presa ao chão e ele se esforçava para tirá-la dali... O terceiro era minha alpaca, o Larry, que estava preso com uma coleira em uma espécie de estábulo improvisado, mas sem parecer se importar muito com isso. Por último, pude reconhecer Carlito, o guarda de trânsito mexicano que eu havia levado para o escritório onde trabalho, e ele estava... Bem. Ao que parece, estava ali para comer o sanduíche gigante e gorduroso que agora estava pela metade.

- O quê eu estou fazendo aqui? – perguntei.

Todos eles se assustaram ao ouvir minha voz, ficaram um tempo pensativos, e então o Sr. Esferográfica começou a se exaltar como de costume, embora sua voz ficasse engraçada por traz de uma mordaça de couro:
- O quê VOCÊ está fazendo aqui?? Foi você quem ameaçou e trouxe todos nós contra nossa vontade para essa sala! O quê NÓS estamos fazendo aqui?
- Ei, no todos estamos aquí contra nuestra voluntad! – disse Carlito, entre suas mordidas grotescas e horrendas.
- Calado! – gritou o Sr. Esferográfica – Você não tem o direito de falar! Eu tentei me comunicar com você por uma semana desde que apareceu no escritório, e você sempre agiu como se não entendesse português! Fique calado!
- No entiendo lo que dices...
- CALADO! – exaltou-se.
- Ei! – me irritei – Calado você! Está dizendo que ele não tem o direito de falar por ser estrangeiro? Sabe, se tem uma coisa que eu não suporto, é preconceito! E se tem uma coisa que eu não suporto mais do que preconceito, é uma pessoa vestida em trajes sugestivamente homo-eróticos gritando na minha frente!!! – ele ficou em silêncio, e eu prossegui, educadamente – Você disse que fui eu quem trouxe vocês aqui... Por que acha isso?
- Como assim? Você que me vestiu assim e depois me amarrou nessa cadeira! Nem preciso dizer o que pensei que você iria fazer comigo.
- “Iria”...? – indaguei – Ah, deixe pra lá, é o efeito da droga. Depois você vai se lembrar de tudo.
- QUÊ?!
- Nada não, mas por que mais acha que fui eu quem trouxe todo mundo aqui?
- Ora, Antonelli! – interrompeu o zelador – Foi você quem me pediu para ver minha vassoura que me acompanha desde a Revolução Francesa, e quando a coloquei em suas mãos, me deu um pesco-tapa e saiu correndo com ela dizendo que “se a quisesse ver viva novamente, teria que correr atrás de você”.
- Revolução Francesa...? Novamente, quantos anos você...?
- E ainda por cima, você é o único que não está amarrado com um holofote ligado na sua cara! Fica aí, escondido nas sombras! – reclamou o Esferográfica.
- Ah! Que erro o meu! Vocês não conseguem me ver? Perdão... – desliguei os holofotes e apertei o interruptor pra luz do ambiente – E agora, melhor?


- O que é isso?! – perguntaram em uníssono.
- Que bom que perguntaram. – anunciei epicamente – Eu os escolhi e os trouxe aqui por um motivo!
- Então admite finalmente que foi você que nos raptou! – gritou novamente o Sr. Esferográfica, cortando o barato do meu discurso. Apertei um botão no painel brilhante e pisca-piscante ao meu lado e ele recebeu um choque, soltando um gritinho levemente orgástico que deixou a todos no recinto levemente desconfortáveis.
- Caham. – prossegui – Nosso planeta está ameaçado, e por isso, decidi por juntar 4 adolescentes com atitude...
- Adolescentes? – reclamou novamente o Sr. Esferográfica, ofegante – Eu já estou me formando em jornalismo, e aqui temos a porra de uma lhama, um mexicano obeso e um velho sem dedos de idade desconhecida!!! E você me diz “adolescentes”?
- Bem, você certamente tem atitude. – apertei o painel multicolorido novamente fazendo-o soltar outro gritinho constrangedor. – Mas nada que não possamos consertar. O que eu quero dizer é que... Vocês, meus caros, foram escolhidos para serem meus “Super Rangers”!


Apertei o botão no painel que começou a tocar a música junto com alguns efeitos na iluminação ambiente.


- “Super Rangers”? – estranharam, cortando o clima da coisa.
- Sabem como é esse lance de direitos autorais. – respondi – Mas isso não importa! – dei um pulo para frente, e todos eles se encolheram no susto, menos o Larry, que continuou encarando suas próprias fezes – Está na hora de lhes dar seus poderes!
- Espera aí! Está dizendo que vamos ter super-poderes de verdade? – animou-se o já exausto Sr. Esferográfica.
- Não, só vou fazê-los se vestirem cada um com uma cor e obrigá-los a seguirem minhas ordens.
- Nos obrigar? O que você pode fazer... – apontei em direção ao painel cheio de botões e luzinhas, e o Sr. Esferográfica pareceu mudar de idéia e aceitar sua missão como um dos meus Rangers.
- Ótimo, vejo que todos estão prontos para aceitarem essa responsabilidade. – ouvi alguns suspiros e ofensas, mas ignorei-as e continuei – Carlito, você será o Ranger Oliva. Acho que a cor lembra algo espanhol ou mexicano ou sei lá. Parabéns!
- Muchas gracias. – respondeu, e depois arrotou fazendo voar algumas partículas do lanche que havia acabado de comer.
– Larry... – prossegui - Como combinamos, você será o Ranger Turquesa. Sempre soube que essa era sua cor favorita.
- Meh. – disse Larry, enquanto continuava defecando sem se importar com a presença de outras pessoas.
- Foster, você será meu Ranger Salmão... Por causa daquela vez que me ajudou a fazer sushi com os peixinhos do aquário do meu editor, e essa é a única cor com nome de peixe.
- Certo, posso pegar minha preciosa Leucádia agora?
- Mas é claro, você será mais útil para a equipe com ela. – tirei uma chave do bolso e abri a cinta que a mantinha presa ao chão, e o zelador pegou a vassoura e a abraçou como se fosse uma amante dos anos 50. – E por último... Temos você. – olhei fixamente para o Sr. Esferográfica, respirei bem fundo e disse – Você será o Ranger Marrom. Pronto.
- Marrom? Salmão? Oliva...? Mas o que há de errado com essas cores?! – reclamou, como sempre.
- Eu vim fazendo uns cursos de decoração e pintura, e acho que deveríamos inovar com umas cores mais chiques, sofisticadas e...
- Terciárias. – completou.
- Isso.
- E você? – perguntou, cansado e querendo ir embora logo para tirar aquelas roupas e amarras ridículas e bem lubrificadas.
- Eu serei o cara fodão que fica aqui na base mandando ordens para vocês quando menos esperarem. Usem estes relógios... – entreguei um relógio para cada um, Larry se entusiasmou demais e comeu o dele, mas tudo bem – Eles me dirão sua localização em tempo real, e eu saberei se tirarem. – encarei o Sr. Esferográfica, que colocou o relógio no pulso, derrotado – E mais importante: não digam nada sobre essa base ou sobre quem somos para ninguém! Ou mato todos vocês. – sorri, brincalhão.
- Hehehe... – disseram.
- Não, sério. – silêncio.
- Certo.- concordaram.

Finalmente desamarrei o Sr. Esferográfica de sua cadeira, que se levantou virando de costas para Foster, que tentava abrir o zíper de sua máscara de couro, me perguntando:
- Só uma coisa... Aonde estamos? Aonde você arranjou um espaço tão amplo pra construir esse Centro de Comando...?

Nesse momento Paulo, o meu editor, entrou abrindo a porta no fundo da sala, e ali ficou parado, atônito. Também pudera, acabara de entrar numa sala mal-iluminada, encontrando 4 caras e um animal, sendo que um desses caras se encontrava numa roupa semi-masoquista e outro atrás dele segurava uma vassoura. Visto tudo isso, decidiu por comentar o fator que mais lhe surpreendeu:
- Meu escritório...
- Turquesa, ele sabe demais, PEGUE-O! – Larry pulou em cima dele obedecendo a minha ordem, derrubando-o no chão e mantendo-o desacordado.
- Vai me dizer que você montou tudo isso no escritório do Paulo...? – desacreditou o meu Ranger Marrom.
- Sabe como é, realmente me empolguei muito com aquele curso de decoração e pintura.

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