3 de dezembro de 2010

O Pseudo-mistério do Segundo Andar

Meu relógio de pulso marcava seis horas e quarenta minutos quando pus meus pés no último degrau da escada para o oitavo andar. Permiti-me alguns minutos de descanso antes de girar a maçaneta da porta do escritório, protegendo o rosto com uma das mãos. Afinal, quando se tem uma alpaca e um peixinho-dourado dentro do mesmo recinto você nunca sabe o que pode acontecer. A maçaneta, no entanto, não cedeu. Forcei-a e nada. Olhei para porta, para os lados e finalmente, para meu all star. Desisti naquele exato momento de arrombá-la com o par de belezinhas azuis.

Apoiei-me contra ela, vendo que não havia ninguém no escritório. Dei meia volta e desci as escadas – pois o trauma de ficar duas vezes presa naquele elevador estupidamente minúsculo era demais para mim – e fui parar no segundo andar, avistando Foster arrancando com a dificuldade habitual alguns cartazes de “Procura-se” com o rosto de Larry impresso neles – o que explicava a ausência do Antonelli – e orientando uma fila considerável de pessoas de diferentes idades, sexos, etnias, cortes de cabelo e nacionalidades que se formava na frente da entrada de um apartamento em específico. Para isso, ele utilizava uma placa de transito, um apito e Leucádia. Larguei a bolsa no chão e tratei de ajudá-lo enquanto conversávamos sobre amenidades como o tempo e ornitorrincos mutantes nipônicos.

- Então, por que todo essa fila? – fiz a pergunta mais óbvia.
- Por causa da velhinha, oras. – respondeu Foster, entre dois toques de apito curtos.
- Que velhinha?
- A velhinha do segundo andar, criança.
- Velhinha do segundo andar?
- Você comeu algum doce daquela menina loira e saltitante? – Foster ficou impaciente.
- Não... – respondi, incerta.
- Estou falando da velhinha que costurou isso. – Foster disse, manejando segurar três objetos com uma única mão e tirar do bolso da calça um pequeno pedaço de pano rosa-claro rasgado, com a palavra “Panic” bordada em outro tom de rosa.

O elemento surpresa me fez cair pesadamente no chão frio. Ninguém da fila moveu um músculo sequer, ao contrário, meu desmaio passara batido. Foster, apiedando-se, escondeu o pano novamente e resolveu me abanar com Leucádia, esperando que recobrasse a consciência, o que não demorou muito.

- Mas...Toda essa fila é de clientes dela? – o recente mal-estar não havia diminuído a minha curiosidade.
- Não, não. – ele sorriu, gentilmente. – Eles só querem ver ela, o apartamento, e entrevistá-la. Você sabe, o de praxe. – ele retomou a orientação da fila, espanando com a vassoura de estimação um qualquer que desviara da formação.
- Não, eu não sei. – minha habilidade de constatar o óbvio se aperfeiçoava à medida que a conversa se desenrolava.
- Estranho. – ele disse, erguendo uma das sobrancelhas grisalhas. – Para alguém que trabalha há um certo tempo aqui, você deveria saber da história dela.

Medidas sérias precisavam ser tomadas caso eu quisesse o fim daquela torturante espera por respostas. Foster não me deixou outra escolha: tomei Leucádia de sua mão, com força, e afastei-a de seu alcance.

- Leucádia! – ele berrou, agonizante, largando a placa de trânsito.
- Me fale a história dela e nada acontece com a vassoura.
- Leucádia não tem culpa da sua curiosidade não ser facilmente saciada!
- Ah, Foster... – fui andando para longe da fila, em direção ao elevador. Apertei um dos botões para abri-lo. A porta cinza-chumbo revelou atrás de si o poço vazio. – Leucádia vai sentir saudades suas...
- Não! – ele desesperou-se.
- Me conte o que quero saber se ainda quiser ter um instrumento de limpeza que não esteja dividindo em oitenta e dois pedaços. – sorri, cruelmente.
- Está bem, está bem! – ele estendeu os braços. – Mas me devolva ela antes, por favor.
- Claro, claro. – entreguei a vassoura para o zelador que a abraçou e disse uma série de bobagens românticas a ela. – Bem, é melhor se sentar.

Nos recostamos ali mesmo. Enquanto eu observava a fila diminuir, Foster começou a finalmente desvendar aquele psedo-mistério.

- Tudo começou quando perdi meus cinco dedos da mão direita, naquela fatídica tarde de 31 de Outubro de 1953... – ele iniciou, fungando alto, e assoando o nariz no pedaço de pano da cor-que-não-deve-ser-nomeada. – Naquela tarde percebi que não teria mais condições de continuar trabalhando na antiga fábrica que ficava no final dessa quadra. Eu precisaria arranjar um outro emprego para sustentar a mim e a minha família. Então, comecei a procurar pelo bairro, antes de ver algo no jornal. Soube, dois meses mais tarde, que o antigo zelador do prédio próximo à fábrica havia falecido e resolvi me candidatar. O mesmo prédio em que a velha costureira morava.
- Mas velha costureira é como você se refere a ela agora, não naquele tempo...
- Não, não. – Foster me corrigiu, rindo. – Há 56 anos ela já tinha entrado de cabeça na boa idade. Ela era uma espécie de enigma e celebridade do bairro. Quem a conhecia só se lembrava de tê-la visto com os cabelos brancos, as olheiras e os óculos de aro preto grosso pendurado no pescoço. Era como se ela nunca tivesse outra idade. Grupos de jornalistas se combinavam de vir entrevistá-la, pois parecia que ela havia quebrado algum recorde de longevidade feminina. É claro que eu fiquei feliz e muito nervoso por ganhar uma chance naquele edifício que ficara conhecido por causa dela.Fui para a entrevista de emprego, praticamente certo de que não seria admitido. Mas não foi bem assim. – e ele apontou Leucádia em direção a um garoto. – Disse para manter a formação! Nada de sair da linha!
- Ok, ok, volte à história! – eu já estava sentada no chão, os olhos brilhando. Ter que começar uma manhã naquele prédio sem escorregar em um carregamento de doces suspeitos ou esconder cadáveres baleados era revigorante.
- Eu parei na entrevista de emprego, não? – ele coçou a cabeça com a mão sem dedos, enquanto eu concordei entusiasticamente. – Pois bem, quando cheguei à portaria logo fui recebido pela síndica. – ele deu uma entonação significativa para a última palavra. – A síndica. – ele repetiu, surpreso pela minha falta de reações incomuns ao título “síndica”.
- Eu já entendi que você foi recepcionado pela síndica, Foster.
- Então!
- Então o que?
- Você não sabe de quem estou falando, criança?
- Como eu vou saber quem era a criatura que ocupava esse cargo há mais de cinquenta anos atrás!?

Foster bufou e cruzou os braços, sem deixar Leucádia ou a placa de trânsito caírem.

- A síndica do prédio é a mesma desde aquela época. – Foster disse lentamente. Acredito que ele tenha dito isso com algum tipo de efeito explicativo, mas falhara miseravelmente, pois eu não sabia quem ocupava o cargo atualmente. – A síndica é a velhinha costureira do segundo andar! Mas dando prosseguimento... – ele pigarreou. – Ela parecia simpática e eu tremia dos pés a cabeça por estar do lado daquela lenda viva. Durante nossa subida dos dois andares, ela havia me explicado que a avaliação seria feita em sua casa.
- Espera. Está dizendo que todas essas pessoas estão querendo entrar lá dentro? – apontei para a porta e Foster acenou positivamente com a cabeça.
- Não me lembro ao certo de como era a sala do apartamento dela: só me recordo de que havia um sofá marrom coberto com uma colcha de crochê preta com caveirinhas bordadas.
- Isso definitivamente explica muita coisa... – concluiu, relembrando com um arrepio da bandeira que virara um dos temais mais recorrentes nos meus rasados pesadelos.
- Mas o que me surpreendeu não foi o cenário ou a própria figura da costureira. As perguntas que ela fez é que foram um pouco...desconcertantes.
- Desconcertantes como?
- Bem...- ele parecia estar muito seleto quanto às palavras a serem usadas. – Olhando para passado, encaro essa entrevista como um teste de sobrevivência ao que os lunáticos do oitavo andar fazem diariamente.
- Foster, querido?
- Sim?
- Eu trabalho no oitavo andar.
- Eu sei. – ele concordou, sorrindo gentilmente. Ironia, doce ironia. - Continue com a história. – disse, inexpressiva, me erguendo do chão.
- É que isso era parte da tradição do prédio, entende, ter um andar como escritório para um jornal. Ela me contara que, desde a construção do prédio (e acredito piamente que ela tenha observado, de fato, o prédio ser construído) todos os jornalistas que haviam se estabelecidos não eram nada... – o zelador percebeu que meu olhar ganhara, em questão de segundos, uma expressividade perigosa.
- Não eram nada...? – repeti a pergunta.
- Ortodoxos. – ele deu um passo para trás. – A costureira dizia que a arma mais poderosa caso eu quisesse sobreviver ali era ter a aprovação dela e dos jornalistas. Segundo ela, eles tinham uma espécie de forte domínio sobre os outros habitantes do prédio.
- Mas nesse caso não seria melhor ter falado com os jornalistas também?
- Ela atuou como interlocutora entre nós, dizendo que, se eu não quisesse perder os dedos da outra mão, era melhor manter distância deles. – ele riu, baixando o tom de voz. – Me lembro que as perguntas eram tantas e tão diferentes...tinha até alternativas! – ele permitiu que o tímido sorriso adquirido com a lembraça pousasse em seus lábios secos e finos. – “Caso você encontre um animal parecido com uma zebra, só que mais peludo e que defeca em uma velocidade anormal para qualquer intestino, o que você faria?” ou “Durante a limpeza noturna você encontra dezoito corpos baleados no sua sala de dois metros quadrados. Como você justifica isso?” e até “Como você extinguiria um incêndio se tivesse a mão apenas uma garrafa com uma mistura de suco de morango, molho inglês e soro fisiológico?”.

Só nesse ponto do relato de Foster fui me dar conta de que a fila se reduzira a menos da metade. Uma ideia havia me acometido e resolvi ir para o final da fila, com menos de quatro pessoas agora, e fui seguida pelo zelador entretido com o próprio monólogo.

- Além das horas que passei respondendo às questões tive que preencher um questionário feito a mão por ela.

Não respondi, apenas concordei com a cabeça e mordi o lábio. Não podia voltar ao escritório, afinal, minha curiosidade não fora saciada com o relato de parte da trajetória de vida do zelador. Ao contrário: ela aumentava a cada palavra, de um jeito corrosivo e intenso, bloqueando qualquer outro tipo de pensamento que me pudesse ocorrer. Entraria no apartamento da costureira bicentenária sem nome e teria todas as minhas respostas em mãos antes de tomar o primeiro dos vinte e nove cappuccinos que ingeria pela manhã. Foster abria e fechava a boca, mas eu era incapaz de ouvir qualquer coisa ao redor que pudesse atrapalhar meus objetivos. Quando eu era a única a esperar na fila vi uma figura curvada aparecer no batente da porta. Era ela. Sorrindo e abanando seu lencinho de renda branca ela pendurou uma placa na porta, fechando-a em seguida com um estrondo, impedindo que eu tivesse a oportunidade de pegá-la pelos braços e arrancar todos os detalhes daquela entrevista, dos jornalistas e das lendas a respeito dela. Li em voz alta o que a placa dizia:

- “Pausa para o chá”. EI! – eu bati com o punho fechado contra a porta. – Abra logo! Não feche essa porta na minha cara, isso é rude. Fiquei na fila como todos os outros e mereço ser atendida também! Se quisesse fazer uma pausa para beber chá, fizesse as cinco da tarde, não as sete da manhã! E não atender uma jornalista só pelo fato de que ela trabalha no oitavo andar é preconceito, ouviu?, preconceito! Posso fazer uma queixa formal e denunciá-la! Mas é claro que isso não vai acontecer se a senhora abrir a porta! – comecei a bater com os dois punhos fechados contra a porta, do jeito mais ensurdecedor que meus músculos permitiam. Talvez devesse tentar arrombar a porta.

Foster já não se encontrava ao meu lado; fora parar no andar térreo. Ria baixinho, sem motivo aparente para os passantes.

- Ai, ai. – murmurou ele. – Ainda me lembro da última frase do teste feito a mão pela costureira, Leucádia, o termo contratual. – Foster disse à vassoura. – “Sob hipótese alguma abra a porta para um(a) colunista do oitavo andar que tenta arrombar sua casa”.



Uma visão interna do elevador, mostrando os andares "visitáveis" de acordo com a síndica

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Design by Contos de Bar | Modified by 1UP