- Mas mãe, você sabe que eu tenho o costume me alimentar com os animais de estimação. Lembra do Aster, nosso ultimo gato.
- Nem me lembre disso. Sua avó ainda tem pesadelos com aquele dia, sabia? – Ela fez uma cara de nojo quando lembrou o dia em que eu ofereci um bife de gato à minha família. Estava delicioso. – Mas você tem que tentar, meu filho. Além disso, esse animal é diferente.
- Ok, ok. Mas se acabar virando meu jantar, a culpa é sua. – Disse, aceitando o porta-gato. Reparei que dentro dele não havia um gato. Havia uma fuinha. Marrom, com os olhos aguados e pequenos. Comia distraidamente um pedaço de madeira.
- Ah, oi. – A fuinha falou me olhando com seus olhos miúdos. – Ahn, você sabe a que horas o trem chega? Eu adoro trens, mas alguns são lentos. Por isso eu leio os quadrinhos do Flash, ele é sempre tão acelerado! Hey, tem alguma comida aí? Não sei por que eu só recebi essa madeira pra comer. Quero batatas. Tem batata? Ah, muita batata, muito bom.
- Ahm. Mãe, essa fuinha fala. – Comentei, me afastando da fuinha. Sua voz fina e irritante me deu dor de cabeça.
- Eu sei, não é uma graça? – Admirou minha mãe abrindo um sorriso. – Eu resolvi comprar pois eu sei que você não come coisas que falam.
- É. Enfim, vou levar ela pra dentro de casa então. A gente se vê mãe. – Disse, pegando a fuinha e abrindo a porta.
Ao entrar em casa, coloquei um travesseiro, uns jornais, água e uma ração de fuinha que tinha sobrado em casa num canto, abri o porta-gato e a fuinha saiu. Ela parou para beber água e deitou-se no travesseiro. Cinco segundos depois levantou e foi até a cozinha. Permaneceu lá por cerca de dez segundos, voltou e me encarou.
- Um dia eu ainda vou pilotar um avião. – A fuinha afirmou com certeza e largou-se em cima do travesseiro, dormindo a sono solto, roncando baixo.
- Cara eu preciso parar de usar drogas. – Afirmei, fazendo exatamente como a fuinha, largando-me na minha cama.
Na manhã seguinte acordei com a descarga sendo ativada. Abri lentamente os olhos e arrastei os pés até o banheiro. A fuinha estava com uma lasca de madeira subindo na caixa do vaso sanitário. Apertou novamente a descarga e se jogou no redemoinho. “Surfou” durante alguns segundos e depois foi sugada pelo cano. Me assustei por alguns segundos, até que ela reapareceu com a lasca de madeira na mão, encharcada. Subiu na borda do vaso e se sacudiu, secando-se quase perfeitamente.
- Uhuuu, muito bom, hein? Você viu aquilo? Rá, sou muito bom. Estou desde as 7 da manhã tentando fazer isso, finalmente consegui! Nas outras vezes eu tinha esquecido de fazer uma prancha, sabe? – E me mostrou a lasca de madeira que eu descobri que foi tirada do meu navio em miniatura. – Mas então, tem almoço? Estou morrendo de fome, e você? Ah, cara, tem umas coisas bem feias naquele cano, você deveria limpar aquilo, credo.
- É, claro. – Foi tudo que eu consegui dizer.
Fui para a cozinha preparar um miojo. A fuinha me acompanhou. Sentou-se num pote vazio e ficou me olhando procurar uma panela limpa. Quando encontrei a fuinha estava fazendo um air guitar de Paranoid em cima da minha geladeira.
- Ei, fuinha, qual seu nome? – Perguntei enquanto colocava água na panela.
- É Jobson. – Ele falou me olhando.
- Job... O quê? Não, não, inaceitável. A partir de agora seu nome é Azeite de Oliva.
- Ok – Respondeu Azeite de Oliva com um sorriso bobo. E logo depois começou a lamber suas partes íntimas. Se é que fuinhas fazem isso.
- Azeite de Oliva, me faça um favor e pegue o miojo ali naquela gaveta. – Disse, mostrando a única gaveta na cozinha. Ela estava no chão e continha cerca de doze miojos.
Alguns minutos se passaram, e quando me virei para olhar a fuinha ela estava no mesmo lugar, parada, ainda me olhando com um sorriso idiota.
- Ei! O miojo. – Disse, encarando a fuinha.
- Ahn? Ah, sim, me esqueci. O que é pra pegar mesmo? – Azeite de oliva olhava para a gaveta com doze miojos de mesmo sabor com indecisão.
- Um miojo, qualquer um. – Eu disse, impaciente.
- Qual? São tantos. – Disse ele, com uma voz insegura,
- Qualquer um. Apenas pegue. São todos iguais.
- Qualquer um o quê? – A fuinha havia voltado a lamber suas partes durante a minha fala.
- Deixa pra lá. – Disse, pegando o miojo, e jogando com embalagem e tudo dentro da água. No susto, deixei a água toda cair na pia que estava entupida, formando uma piscina de água fervente.
- Ah, que delicia, um ofurô! – Disse a fuinha se jogando na água quente e fechando os olhos, satisfeita.
- Bom, eu vou comprar algo para comer na padaria. Não se mova, ok? – Falei para a fuinha, que estava roncando dentro da minha pia.
Fui à padaria, alguns quarteirões de casa. Antes de sair roubei a bicicleta do zelador para ir mais rápido. Em menos de dez minutos eu havia voltado para casa com alguns salgadinhos. E havia algo muito, muito errado.
Havia bombeiros por toda a rua e havia um apartamento em chamas. O meu apartamento. Saí correndo para o prédio. Na portaria, vi a minha fuinha chamuscada conversando com um bombeiro. Aproximei-me e ele me olhou com uma cara entre pena e vontade de rir.
- O senhor é o dono daquele apartamento, certo? – Ele perguntou, e eu confirmei com um movimento de cabeça. – Ao que parece a sua fuinha tentou esquentar água e acabou colocando vodka na panela, no lugar de água. – Ele falou isso quase explodindo de esforço para evitar o riso.
- Entendo. Eu perdi tudo?
- Sim.
- Pelo menos não era muita coisa.
Muitos minutos depois, eu ainda estava observando os bombeiros retirarem entulho da minha casa, quando vejo Paulo passar. Ele olhou a situação e parou. Quando eu contei o acontecido, ele começou a gargalhar como um garoto de sete anos que aprende a fazer som de peido pela axila.
- Hahahahaha! Agora você sabe o que é ter tudo queimado! Haha, eu não aguento! E então (hahaha) como você está?
- Ah, eu estou bem – Retruquei, calmo. – Não havia muito lá dentro, e minha casa tinha seguro. O que não tinha seguro era o seu computador novo de doze mil reais que você pediu para eu guardar para sua mulher não ver. Ah, não. Esse foi totalmente queimado. Não sobrou nem um pedaço. E você abriu mão da garantia por um desconto de duzentos reais né? É, isso é irônico. – Eu disse, com um sorriso simpático. Paulo começou a chorar compulsivamente. Ele demorou alguns minutos para que recobrasse a postura.
- Por acaso, eu e minha fuinha vamos viver um tempo no escritório. E eu vou usar sua sala como quarto, já que o Antonelli tem uma lhama e um mexicano, ele precisa de espaço.
Nesse momento, Paulo se jogou no chão e começou a bater a cabeça na calçada, enquanto chorava mais e amaldiçoava sua vida. Alguns minutos depois ele desmaiou e eu roubei sua carteira. Era melhor eu começar a mudar meu quarto para a sala do Paulo.









2 comentários:
Fuinha filha da puta
Gostei dela.
Azeite de Oliva é tão linda. *-*~
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