22 de outubro de 2010

Homens e Cera Quente

- Você não pode estar falando sério, né? – eu perguntei, sem tirar os olhos da frente do computador e erguendo uma das sobrancelhas, em protesto.
- Não estou dizendo que as mulheres têm menos resistência a dor física, só que os homens sabem lidar melhor com ela. – falou o Garcez, com o pelo multicolorido da ovelha desenhada em sua camiseta cintilando.
- Isso porque a espécie feminina foi sufocada, desde tempos imemoriáveis, a uma sociedade dominada por regramentos machistas. – completei, rangendo os dentes e tentando não espumar pela boca. Tenho uma veia psedo-feminista, como deve ter observado.
- Há controvérsias. – o Antonelli falou baixinho. Fuzilei-o com o olhar, recebendo apenas sorrisos e alguns risinhos debochados de meus colegas. Meu ataque intimidador se revelara ineficaz. De novo. Talvez eu devesse ameaçá-lo com uma Glock 17, para elucidar meu ponto de vista.
- Calma, meu bem. – Júlia, que intermediava nossa conversa, estava encostada na parede segurando um chocalho verde com algo parecido com um sapo desenhado na ponta (provavelmente deve ter sido afanado de mais uma criança vítima de seus “assaltos de sacarose”) como martelo.

- Mas o que você sugere, então? – foi a vez do Biancardine se pronunciar. Ele se ergueu do chão e se encostou contra uma mesa. – Se você está tão obstinada a provar essa igualdade, tem que ter argumentos válidos. - ele tinha razão...estranhamente.

Me levantei da cadeira, e comecei a andar em círculos pelo escritório pensando em alguma solução para aquele dilema, ao mesmo tempo em que desviava de cadeiras quebradas, pacotes de ração para gatos, vidros de molhos inglês, garrafas de vinho tinto e pelos de algum animal. Só fui perturbada durante o raciocínio por um grito vindo do Oliveira, que dormia estirado em sua escrivaninha:

- EU SEM QUERER...- ouviu-se um barulho alto, parecido com o som de uma sirene de ambulância. - ...O MALDITO BATMAN... – outro ruído, parecido com o de uma zebra sendo perseguida por filhotes de babuíno, se fez ouvir. - ELE E EU SOMOS FEITOS PROFISSIONALMENTE. – não tente enxergar qualquer/algum tipo de lógica nesta frase.

Depois da breve interrupção, ergui o queixo e encarei meus colegas, triunfante. Minha mente parcialmente distorcida pelo trabalho na Contos de Bar jamais falharia.

- Resolveremos essa questão com uma aposta. – minha fala foi seguida de alguns “Oh!”. Eu podia ver os olhos da minha amiga maníaca por açúcar no sangue brilhando de curiosidade...ou fome. –Um homem deverá passar por uma situação típica para mulheres envolvendo dor física, sem demonstrar nenhum abalo.

- Quer dizer que vamos ter que simular uma gravidez masculina...? – o Antonelli perguntou, se remexendo ligeiramente na cadeira e fazendo um silêncio desagradável reinar por menos de três minutos no recinto.

- Não. – minha voz destoou um pouco. – Pensem em outra experiência tipicamente feminina, que, atualmente, muitos homens começaram a praticar.

Júlia deixou o chocalho-martelo cair e todos os rapazes do escritório levantaram (e, no caso do Oliveira, acordar e levantar) de onde estavam sentados. Expressões indignadas, risos, gestos de descaso, palavras de baixo calão e o novo jingle do café perto do escritório preencheram o local.

- Você está dizendo que vamos ter que nos depilar!? – eles disseram em uníssono.
- Não todos vocês. – esclareci. – Podem escolher um representante entre vocês ou incluir outra pessoa.
- Mas você não acha que faremos – ou submeteremos alguém a fazer isso – só para provar uma igualdade, não é?
- Eu tinha cogitado essa ideia. Se não conseguirem passar por essa experiência sem gritos de pavor ou estado de pânico o “depilado” deverá fazer o que eu quiser durante um mês.
- E se nós ganharmos?
- Bem...- não queria admitir que não tinha pensado naquilo.
- Você terá que trabalhar durante um mês usando isso – Biancardine relevou um par de orelhas e pantufas de gato.

Engoli em seco.

- Aceito sua proposta. – falei, dando meia volta e sumindo em direção as escadas.
- E eu declaro a primeira aposta oficial dentro dos limites do escritório da Contos de Bar aberta! – Júlia bateu com muito entusiasmo o chocalho-martelo na cabeça do Oliveira, emitindo um som agudo.

- O que vamos fazer?! – o Garcez repetia, sacudindo Larry e deixando o pobre animal tonto.
- Parar de sacudir alpacas alheias seria um bom começo. – Antonelli se postou ao lado de seu bichinho de estimação, protegendo-o.
- Só há um tipo de solução racional e madura para esse caso. – Biancardine falou de um jeito pomposo, ajeitando os óculos escuros.
- Jô-ken-po?
- Não.
- Discordar?
- No, sir.
- “Minha mãe mandou?”
- Passo.
- Tirar no palitinho?
- Não! – ele parecia ofendido. – Vamos cruzar os braços e acomodar nossos quartos traseiros em almofadas macias, enquanto esperamos um cara – que não seja nenhum de nós e/ou o Paulo – para realizar essa missão.
- Não seria melhor chamar o Foster e acabar com tudo isso de uma vez por todas? – Oliveira sugeriu, em meio a um bocejo.
- Ele não tem nenhum dos dedos da mão direita, é calvo e ainda por cima zelador desse prédio. Quer piorar a vida dele ainda mais? – Garcez se compadeceu do pobre Foster.
- Tem razão...- Antonelli concordou, balançado a cabeça com pesar.

Menos de um minuto de olhares esperançosos para o elevador se passou até que a figura alta e esguia de Ramon aparecera saindo da sala de Paulo, segurando seu inseparável Cup Noodles, dessa vez, sabor frango com requeijão. Ele não pronunciou uma palavra sequer, apenas sorriu gentilmente e cumprimentou com a cabeça.

- Oi Ramon. – foi o que eles conseguiram pronunciar.

Eles precisaram de vinte segundos para encaixar Ramon na categoria “Homem apto a depilação por meio de ameaças”.

- Ramon, amigo! – todos abordaram o paraguaio, desacostumado com tanta atenção.
- Si? – ele se afastou de leve. Afinal, ele podia se comunicar apenas através de monossílabos, mas sabia com quem estava lidando.
- Temos uma proposta a lhe fazer.- o Oliveira se levantou, ainda sonolento, e mostrou um taco de baseball e uma foto. – Se você não quiser que isso apareça no site da Contos de Bar, vai precisar nos ajudar. – ele mostrou na foto um Ramon aparentemente bêbado, vestido de drag queen (com direito a uma longa pashmina rosa).
- Como...?! – Ramon estava atordoado demais para pensar em recusar a proposta.

Com menos dificuldade – dada a foto comprometedora e constantes ameaças com o taco de baseball – Ramon foi convencido a ser o eleito para a depilação. No dia seguinte, ele foi trazido – amordaçado, devo dizer – ao escritório para o “grande dia”. Os colunistas o levaram até uma sala improvisada com lençóis brancos separando-a do resto do escritório. Júlia os saudou muito formalmente, indicando a “entrada” com a mão. Ramon esperneava e sons abafados saíam de sua boca, porém os colunistas conseguiram colocá-lo dentro da sala improvisada e saíram o mais rápido que podiam, o suficiente para ouvirem o que acontecia dentro do ambiente.

Ao ver o modo deplorável em que Ramon se encontrava, não pude deixar um sorriso irônico – e um pouco cruel – aparecer em meus lábios.Empurrei Ramon delicadamente, para que ele se acomodasse na cadeira branca reclinável. Apontei para um potinho que estava ligado a tomada.

- Não se preocupe. –disse, tentando tranquilizá-lo. – Mas não posso pedir que não tenha um ataque. – é, eu estava sendo cruel.
- Má! –ele apontou para mim, acusadoramente, enquanto se livrava das amarras. Pelo tom de voz do paraguaio, pude pressentir que uma daquelas situações em que ele ficava anormalmente falante se aproximava. – Mui má! Traidora! Cruel Mujer!
- Ei! Isso pode ser de um jeito fácil ou difícil, Ramon. Qual você escolhe?! – bati com a mão aberta no estofamento da cadeira, fazendo Ramon dar um pulo.

No lado de fora da sala, meus colegas estavam divididos entre a compaixão e o riso.

- Coitado. É melhor ficarmos aqui e aguardar a volt...- a fala do Biancardine foi interrompida por um grito de terror. – Mas o quê...?

Outro grito de completo pavor se espalhou pelo escritório, assim como os dezenove seguintes a esse. Muitos dos berros continham ofensas, um “Exijo para detener a esta mujer!” e outro “Lo he hecho para merecer esto?”.

- A não ser que a Dutra esteja arrancando os dois rins dele sem anestesia, acho que precisa de ajuda. – Garcez disse, olhando de esguelha para a placa que o Antonelli pendurara precariamente no local da depilação com os escritos “Sala de Tortura”.
- Mas isso é simples. – o Oliveira falou. - É só distrairmos ela e tirarmos o webdesigner de lá.
- Como?

Essa última pergunta foi respondida quando o quarteto invadiu minha sala improvisada com uma bandeira – e essa parte me causa um mal estar só de lembrar – rosa-claro com os escritos “Panic And Run Like Hell” bordados pela gentil costureira do segundo andar em rosa-choque. Ramon fez o que a bandeira indicava e saiu com uma perna depilada e a outra não, ao mesmo tempo em que caí inconsciente no chão.

Acordei algumas horas mais tarde, com um pouco de pena do Ramon, mas feliz o bastante por não ter de usar orelhas e pantufas de gato. Fui cobrar minha aposta e quase tive de injetar um tranquilizante de dose cavalar no paraguaio. O que ele não sabia era que meus planos iam muito além do que meramente um acerto de dívidas. Expliquei sobre o que ele me ajudaria a fazer durante o mês. Ele empertigou-se de um jeito nada paraguaio - não que eu saiba como um paraguaio se empertiga, de qualquer maneira – e olhou por trás dos ombros, ao redor do pequeno cubículo onde eu terminava de digitar as últimas linhas da próxima coluna de sexta-feira.

Ele balançou a cabeça de maneira a concordar em parte com o que eu havia dito. Levantei da cadeira e passei um dos braços sobre os ombros dele.

- Não tem como dar errado, Ramon.
- Pero...
- Eu sei que da última vez nosso restaurante japonês não deu certo, mas dessa vez eu tenho isso! – e mostrei a ele um papel. – É um certificado dizendo que o nosso próximo estabelecimento não é ilegal. E lembre-se: você é paraguaio; eu tenho ascendência árabe. Quando se trata de questões monetárias, nós temos uma vantagem significativa sobre os outros, se unirmos forças então...!
- Si, pero...
- Eu sei que você está ansioso para começar esse segundo emprego, então vista isso. – eu dei a ele um avental bege, luvas e um potinho com cera quente. Nos vemos amanhã.

Na manhã seguinte, Paulo sentou-se confortavelmente em sua cadeira, tomou um gole de cappuccino e acessou o site da Contos de Bar, com a intenção de reler minha coluna. Entretanto, ao invés de encontrar meu texto, meu Editor encontrou um anuncio em vermelho que dizia:

Quer uma pele lisinha? Cansado daqueles pelos extras? A solução para a sua angústia está aqui!
O mais novo salão de depilação do prédio, no quarto andar.
Homens e Cera Quente – Uma Combinação (in)desejável!


E em letras miúdas, no rodapé da página: “Falar com Ramon e/ou V.Dutra.”

- Dutra, você poderia me dizer o quê... – Paulo escancarou a porta, se deparando com uma pequena fila indiana formada ao redor do meu cubículo. Ele apertou o copinho plástico em que bebia o cappuccino, derramando um pouco na própria mão.
- Me desculpe chefe, pegaram todos os horários disponíveis na semana. Mas não se preocupe, já agendei uma sessão para você na próxima sexta.


A bandeira de guerra

Um comentário:

ally disse...

waaah muito bom cara *-*
adoreii! Pode deixar que eu vou ler todas as outras tudo e comentar em todiiinhas <3
parabéns viquee, tu escreve mto bem *-*
bjoos

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