Me senti extremamente feliz naquela sexta-feira à tarde. Todos me olhavam como se eu fosse uma celebridade, alguns acenavam, outros riam. Outros ainda tiravam fotos. Um cara meio estranho pediu pra eu pegar o lápis no bolso do sobretudo dele para lhe dar um autógrafo. Eu recusei, é claro. Um cara sem mãos tem que saber se virar.
Continuei minha caminhada no meio da avenida, todos os carros desviavam de mim. Eu, literalmente, brilhava. O fato de eu estar usando uma armadura dourada e um capacete cheio de espelhos era irrelevante.
Alguns dias antes o Paulo nos deu uma idéia (ou foi obrigado a aceitar a minha, já que eu o ameaçava com uma pistola de pregos) de fazermos uma festa no Contos de Bar! Eu achei que o melhor jeito de conseguir reunir trabalho, bebida e garotas de programa seria uma festa. A idéia das garotas de programa foi rejeitada pelas duas garotas que, ao que parece, também escrevem no Contos de Bar. Eu desanimei depois disso, mas o Paulo falou que tudo bem fazer a festa, e que tudo bem em ter bebidas e drogas. O Fábio com seu duvidoso gosto, disse que uma festa a fantasia seria interessante. Biancardine apoiou dizendo que seria uma ótima oportunidade para colocar orelhas de gato nas garotas de novo. O Antonelli falou que seria uma lhama prima da sua alpaca Larry (o único membro do Contos de Bar que eu realmente decorei o nome).
Chegando no escritório, parei na portaria para fazer um miojo usando o sapato de um segurança como panela e a televisão da recepção como fogão. Joguei toda a água do miojo nas calças de um vendedor de tapioca que passava e subi o elevador, comendo, enquanto o vendedor de tapioca me perseguia.
Chegando no escritório do Contos de Bar vi que todos realmente aderiram à festa. Antonelli havia amarrado uma lhama adormecida em suas costas e ficava engatinhando enquanto imitava os sons do animal. Fábio estava... na falta de termos melhores, vai uma imagem:
Biancardine estava tentando se vestir de super-herói, mas Larry ficava insistentemente tentando comer sua capa. E o fato dele estar SÓ de capa não era algo bonito de se ver.
A tal da Losina (que diz ser colunista) estava com um pingüim na cabeça e vestida de branco. Segundo ela, estava vestida de geladeira.
Já a Dutra (que de fato parece ser uma colunista) estava de biquíni. Imaginaram a cena? Esqueçam, é mentira, ela vestida de prata segurando uma enorme bola branca. Dizia que estava fantasiada de porta-ovos.
Eu? Eu estava com uma armadura dourada feita de chumbo e um capacete feito de espelhos. Sim, eu parecia um grande candelabro. Droga, devia ter dito que estava vestido de candelabro.
Quando todos notaram minha presença, já que eu joguei uma tigela de miojo na cabeça do webdesigner, eu fui dar um passo à frente para cumprimentá-los. Mas ao tentar mexer minha perna direita, ela travou no chão e eu caí.
- Mas que porra é essa? – Gritei, virando para ver o que era.
-Rá! Te peguei, cabra da peste! – Disse um pequeno ser que estava segurando um maçarico enquanto soldava minha bota de chumbo à uma caixa de metal. Recuperando minha dignidade de um cavaleiro de armadura de ouro de um signo qualquer, provavelmente Lhama, eu retruquei:
- E quem sois vós para utilizar de tal tipo de malefício contra minha pessoa?
- Mas hein?
-Quem é você, caralho?
- Oxi, se não sou o hômi que tu jogou aquela água imunda logo ali? O das tapiocas! – Disse ele, com um sotaque nordestino carregado enquanto comia acarajé e soldava mais um pouco do meu pé.
- E onde você arrajou um maçarico?
- O sinhô que me deu.
-Ah, é. Pois então, me ajude a tirar minhas botas, sim?
-Mas vá pensando! Eu sou do Ceará, visse? E na minha terra, o homem pode muito bem tirar as botas. –
Disse ele, enquanto levantava, arrumava a camisa e entrava no escritório, puxando logo um assunto com aquele colombiano (ou boliviano? Sei lá) que morava no escritório. Me impressionei ao ver que o tal homem da tapioca falava em espanhol, e o boliviano (ou croata? Ah, tanto faz) respondia em português. Claro, depois de eu parar de olhar para ambos de cabeça para baixo, tudo se ajeitou.
Quando entrei no escritório, peguei uma cerveja de uma mochila cheia de gelo, joguei uns gelos no ventilador para ver eles se espatifarem, peguei um peixe frito que o zelador estava fazendo, retirei minhas calças folgadamente e aí senti a falta de alguém. Na verdade senti que estava sem dinheiro e isso me fez lembrar de alguém que deveria estar ali.
- Cadê o Paulo? – perguntei.
- Lá embaixo. Ia receber uma encomenda. – Disse a Dutra. Garota responsável e simpática. Um dia quero ter uma empregada igual a ela. Deve fazer ótimos sanduíches.
- Ah, certo.
Nessa hora, Paulo apareceu, bufando e babando. E com o rabo abanando. Na verdade era um cachorro. Eu acho.
Alguns minutos depois, Paulo subiu, com uns papéis em mãos. Alguns passos após sair do elevador, Paulo tropeçou na minha antiga bota que agora fazia parte de um bloco retorcido de metal.
- Mas que coisa é... – Paulo parou de falar. Petrificado, horrorizado, angustiado, avermelhado, dançando conga...ado. – QUEM fez isso com meu computador novo que custou MAIS DE OITO MIL REAIS?!- Ele gritou, com a veia da têmpora saltada.
- Foi ele – Disse eu, prontamente, para onde deveria estar o tal cara das tapiocas. Mas ele não estava mais lá.
- Ele quem, Garcez? ELE QUEM? – Paulo gritou, me acusando.
- Tinha um cara... ALI ELE! – Exclamei, apontando para a porta aberta de Paulo, onde o cara da tapioca havia entrado, pegado sua bicicleta nova e estava correndo em direção à janela. O cara se jogou, caiu em cima de cerca de vinte pessoas que estavam fazendo um protesto contra nós em frente ao prédio, levantou-se, pegou a bicicleta e saiu pedalando enquanto gritava “EU VOU VOLTAR PRO PARÁ, A MINHA TERRA!”
Paulo, olhou para nós, procurando um culpado, enquanto bufava. Sua situação piorou quando viu que usamos sua carpa de estimação como comida do churrasco. Após gritar conosco por cerca de três horas, dois minutos e dezoito segundos, Paulo entrou numa sala vazia, se colocou em posição fetal e começou a repetir a música da banheira do Gugu repetidamente. Ao que parece, isso o acalmaria.
Segundos depois de ignorarmos a insanidade do Paulo e voltarmos à nossa festa, Antonelli me fez uma pergunta:
- Garcez, aquele cara esquisito não tinha falado que era do Ceará?
- Bem pensado. – Respondi enquanto lhe dava um suave tapa na testa, com a mão melecada com a baba de sua alpaca. Mais um mistério do Contos de Bar.









Um comentário:
HAHAHAHAHHAHHAHAHAHA
"Suave tapa na testa" Matou a pau.
Nordestinos com crise de identidade vendedores de tapioca comedores de acarajé. Mistério nenhuma nisso.... XD
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