21 de outubro de 2010

Caralhos Andinos

Tem coisas que você pode e que você não pode fazer com um triturador de papéis. A maioria das coisas que você não pode fazer com um triturador de papéis envolvem sua genitália.

Alguns sabem disso por puro bom senso... Outros aprendem da maneira mais dolorosa. O fato é que eu jamais esquecerei aquela fatídica quinta-feira, que em nenhum momento teve algo a ver com um triturador de papéis, mas talvez tenha envolvido algumas genitálias silvestres.

- Antonelli, me traga a crônica pronta até amanhã de manhã ou estará demitido! – começou com a frase recorrente das quartas-feiras por parte de meu editor, Paulo.
- Filho da puta. – respondi.
- O quê?
- Estará pronto a tempo, chefinho.

Levantei, mas como estava embaixo da minha mesa, levantei ela junto, derrubando o computador, que começou a pegar fogo e a incendiar o carpete. Paulo correu até o extintor de incêndio que fica perto do elevador, mas eu fui mais rápido e até ele chegar eu já havia usado seu aquário. De novo.

Saí correndo antes que o Paulo decidisse jogar o extintor contra mim, e por um golpe de sorte o elevador estava abrindo e não tive que ouvir os berros de sempre. Porém, entrando no elevador, quando ia suspirar aliviado, repentinamente senti que o meu golpe de sorte havia passado.

- Bom dia, Biancardine.
Victor Biancardine, de acordo com o próprio
- Bom dia, Antonelli. – Ele me apontava um revólver - Me diga por que está aqui e, dependendo de sua resposta, eu te mato.
- Estou fugindo do nosso editor. – apontava de volta com um pente que tirei de improviso do meu bolso, agindo de forma igualmente ameaçadora.
- Vocês dois sabem que são oito horas da noite, não sabem? – Disse Dutra, ela também estava no elevador.
- Muito bem. – Biancardine guardou sua arma, e eu me penteei, aliviado – Você escapou dessa, Antonelli, mas se eu fosse você verificaria sua casa antes de dormir.
- Eu moro no escritório. – Disse.
- Então verifique sua beliche.
- Troquei por uma cama de casal semana passada.
- Então verifique sua cama.
- Eu durmo embaixo da mesa.
- Diabos! – Ele me apontou a arma de novo, eu rapidamente tentei apontar meu pente de volta, mas este acabou ficando enrolado no meu cabelo, então continuei tentando parecer intimidador segurando o pente apontado para ele acima de minha cabeça. Você pode se distrair por um segundo no Iraque, mas não tem esse luxo com este colunista.
- Relaxem, vocês dois! E Antonelli, é um revólver d’água. – Disse a Dutra, bem quando a música do elevador havia mudado convenientemente para Ghost Riders in the Sky.
- Sempre estragando minhas cenas. – disse Biancardine, guardando o revólver.

A porta finalmente abriu, mas para provar que aquele golpe de sorte realmente havia acabado, ela abriu para uma parede. Vendo que aquilo ia demorar eu me sentei no chão do elevador, Biancardine ficou encarando a parede, ou os peitos da Dutra, não sei, ele está sempre de óculos escuros. Esta por sua vez entrou em pânico.

- Não acredito!!! Segunda vez que fico presa nesta merda essa semana! O quê vamos fazer?? – Gritava.
- Eu trouxe um baralho. – Ofereci.
- Eu trouxe camisinha. – Ofereceu Biancardine.
- Eu tenho um canivete! – Respondeu Dutra.

Alguns minutos recheados de ofensas e gritos de “Alguém está nos ouvindo?” por parte de Dutra, ouvimos um som, vinha do outro lado da parede.

- Silêncio! O quê foi isso?

Novamente, dessa vez pude reconhecer.

- LARRY! – Gritei animado. Era meu mascote.
- Ah, ótimo! Aquela lhama! – Respondeu Dutra, sarcástica.
- Creio que seja um guanaco... – Comentou Biancardine.
- É uma alpaca, seus insensíveis sem coração! – Me apoiei contra a parede – Larry? Está me ouvindo, amigão?
- Peraí. – interrompeu Dutra – A... O Larry é macho?
- O quê?
- O Larry. Acabou de chamá-lo de “amigão”... Sempre pensei que ela fosse fêmea!
- Chamei? Quer dizer... Também não sei. Estranho...

Sabe quando você sente como se tivesse passado pelo estômago de uma cachalote com péssimos hábitos de fast-food, e defecado numa tarde de hemorróida junto com sangue e picles? Só quis compartilhar esse pensamento, voltemos ao texto.

- Larry! – chamei novamente – Desculpe perguntar assim, sem discrição, mas é que o assunto surgiu e... Você é macho ou fêmea?
- Meh. – respondeu.
- Bom, bom. – disse, satisfeito.
- Você entendeu? Ah, deixa pra lá, peça ajuda! – Após Dutra dizer isso, Biancardine riu. - O que foi, seu degenerado? – Ela perguntou, furiosa.
- Achei engraçado. Foi um ótimo dia pra roubar seus celulares. – Respondeu.
- ENTÃO FOI VOCÊ! – Berrou Dutra.
- Admito que tive ajuda do Antonelli.
- High-five! – Estendi minha mão, batemos.
- Seus loucos...! Me devolvam ele agora! – Exaltou-se Dutra.
- Não dá.
- POR QUÊ?
- Demos pro Larry comer. – Nesse momento, ouvimos um toque do lado de fora, alguma música japonesa de voz sintetizada, seguido de uma onomatopéia de incômodo por parte de Larry.
- Ótimo! Meu celular está no estômago de um camelídeo sul-americano! Me entreguem o de vocês, então! Temos que sair daqui!
- Não dá.
- POR QUÊÊ?
- Demos todos os celulares pro Larry comer.
- ATÉ OS SEUS?
- ... Parecia uma boa idéia no momento. – Biancardine e eu dissemos em uníssono
- Meh. – Completou Larry, do outro lado da parede.

O tempo passou. Olhei meu relógio de pulso, e ele dizia como um carrasco impiedoso que vai alargar seu reto quando a lua estiver no topo do céu: “Meia noite”. Bem, na verdade era apenas um desenho que fiz no meu pulso: um relógio com formato de pênis indicando meia noite, para minha piada de “é hora do sexo”. Já devia ter passado metade da madrugada, quando repentinamente, para nosso susto, ouvimos um toque. Era o clássico Layla, curiosamente.

- Alô? – Respondeu Biancardine, pegando seu celular e se levantando.
- QUÊ?? – Gritou Dutra, se levantando.
- Shh! – Biancardine virou de costas, e continuou – Ah, agora? Estou a caminho. – Desligou.
- VOCÊ ESTAVA COM SEU CELULAR? – Surtou.
- É o do Paulo. Enfim, tenho um compromisso, e devo me retirar heroicamente.
- Hah! Está preso aqui com a gente! Vai, liga logo pra emergência e...
- Cadê seu senso de humor? Isso não tem a menor graça. – Biancardine puxou o suposto revólver d’água, apontou-o para cima, disparou 6 tiros e o elevador despencou.

Por sorte estávamos presos apenas entre o 1º andar e o térreo, o quê significa que quando a poeira abaixou Biancardine já havia sumido, e a liberdade gritava. Ou então essa era a Dutra, xingando e jurando-o de morte. Não lembro, só sei que corri, tinha 3 horas para entregar meu texto, isso ou voltar para minha vida no Oriente Médio. O quê por um momento pareceu calmo e sem graça demais perto de trabalhar aqui.

2 comentários:

Contriller disse...

ROFL. Putz grilo, Antonelli, agora eu ri.

Anônimo disse...

Great text!!
Eu ainda estaria rindo se meu último comentário estivesse postado, rs...
anyway...
de longe este é o melhor conto teu que já li :D
A cena da alpaca/lhama/camelosemcorcovas com um celular no estômago é no mínimo, cômica. rs
Really great!

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