7 de outubro de 2010

Sem Idéias e Nem um Bom Chá Numa Daquelas Típicas Quinta-Feiras Sem um Bom Chá e Nem Idéias

O despertador proclamava o começo da guerra: Era hora de me levantar.

Não que fosse muito cedo, mas para mim, o dia só começa mesmo ao meio-dia, um horário ainda bem difícil de cumprir quando se foi dormir às 6 da manhã. Passara a madrugada anterior tentando descobrir o quê aquele pote de geléia não queria me revelar, havia usado todas as ameaças que eu conhecia pelos filmes que assisti e a experiência adquirida nos meus meses no Oriente Médio para fazê-lo falar, mas ele se manteve inflexível. Quer dizer, tão inflexível quanto um pote de geléia pode ser. Mas por fim ele cedeu, e seu conteúdo foi ingerido junto com uma fatia de pão francês.

- Não aguento mais esse despertador com som de... Que som é esse afinal? – pude ouvir enquanto lutava contra minha pálpebra direita para abri-la.
- Tenho quase certeza que é aquela alpaca que está fazendo esse som, não vejo nenhum despertador ali. – obtive sucesso em abrir minha pálpebra direita e agora lutava com a esquerda, que parecia querer se vingar pela derrota de sua companheira.
- Espera aí... Aquilo no beliche é mesmo um animal?

Que som faz uma alpaca nas drogas?

Um som típico de algo próximo a uma lhama me ajudou a derrotar a pálpebra esquerda, e pude acordar com sucesso. Levantei-me, batendo a cabeça duas ou três vezes, antes de me lembrar que estava na cama de baixo do beliche. Fiquei de pé e me espreguicei, o quê não foi uma boa idéia. Ainda não havia me acostumado com a idéia de ter fixado residência no escritório da Contos de Bar, e minha roupa de baixo não parecia agradar aos outros colunistas ali presentes. Enfim, ao som de gritos de nojo e repulsa, troquei de cueca e também vesti minha velha calça jeans rasgada. Era hora de trabalhar! Dei um passo e sentei na minha mesa e liguei meu computador, dizendo “bom dia” aos meus colegas de trabalho, que me responderam com educados e gentis “saia daqui”... Ah, adoro meu trabalho.

A tela estava em branco. Tinham me dado 4 dias para escrever algo para estrear minha coluna na revista e eu não tinha nada. "Heh!" Dei-me ao privilégio de rir, eu conseguiria, duas horas e teria tudo pronto. Nada de mais.

Duas horas depois eu havia fechado com todos os bônus um jogo em flash de destruição em massa que achei na internet, mas a tela do Word continuava em branco. Então vesti meu coturno, e decidi buscar inspiração mundo afora. Ao sair, subitamente esbarrei com meu editor, Paulo, na porta. Ele se contorceu num movimento de susto, medo e terror - uma reação bem exagerada, devo dizer.

- A-antonelli... Aonde vai? Já tem sua crônica pronta? – disse ele, ainda na defensiva, como se esperasse um golpe na barriga ou algo assim.
- Então... Não. – disse, mas prossegui para acalmá-lo – Só estou indo tomar um chá e comer alguma coisa para terminar o texto de barriga cheia, ele está ficando ótimo!
- Mas não tem tudo isso naquele mini-freezer que você trouxe pra cá junto com aquele beliche? Foi exatamente pra não ter que ficar saindo que me convenceu a deixar você trazer aqueles trambolhos aqui pra dentro!

Droga, Paulo era muito esperto. Esperto até demais. Talvez eu devesse apagá-lo.

- Calma, chefe... Volto em 5 minutos! – eu não estava mais no Oriente Médio, não precisava apagar ninguém.
- Cinco minutos, Antonelli... E em vinte quero tudo pronto!
- Você sabe que pode contar comigo, chefe. Não estou aqui pra complicar sua vida.
- Ótimo, tenha um bom... Almoço. – Já eram duas horas da tarde, mas ele parecia satisfeito consigo mesmo.

Agradeci e então me dirigi para o corredor e para fora do prédio, à procura de idéias e de um bom chá, mas não sem antes socá-lo na barriga. Ele havia abaixado a guarda. Não se pode abaixar a guarda no Iraque.

Entrei no pub próximo ao prédio e sentei na bancada do bar, ia pedir uma lata de chá gelado de limão, mas o taberneiro, como gostava de ser chamado, era um velho amigo meu, e logo me entregou o quê eu havia ido buscar antes que eu precisasse pedir.

- Deixe-me adivinhar: sem nada e em cima do prazo, de novo? – perguntou.
- Droga! Desde quando as pessoas são tão espertas? Sempre consegui evitar entrar em situações apertadas... Mas meu editor se lembra de cada palavra que eu já disse, como se esperasse que eu me contradissesse a qualquer momento para dar o bote!
- É um nível comum de inteligência, vindo de alguém que tem que saber lidar com pessoas como você. – ele me olhou, e então corrigiu – Não bem como você, ninguém saberia o melhor jeito de lidar com VOCÊ. Te conheço há mais de 10 anos e você ainda me assusta.

Nesse momento estava tentando abrir a lata com os dentes, enquanto tentava salvar o chá que vazava usando a mão esquerda como conchinha. Não entendi o por que dele dizer isso como que em resposta ao que eu fazia, mas por fim consegui abrir um buraco suficiente pra passar um canudo. Espetei o canudo no buraco lateral da latinha, peguei minha marmita diária, deixei em cima da bancada um pedaço de papel recortado e pintado com giz de cera verde aonde havia escrito “VINTE MANGOS” e saí correndo do pub ignorando as típicas ameaças de morte do meu amigo taberneiro, afinal, eu tinha um trabalho a fazer. E tinha só mais 15 minutos e pouco menos de 40 mangos.

Agora, imaginem vocês a expressão facial de meu editor quando entrei no escritório por volta das 10 horas da noite, com um abajur enfiado na cabeça e um guarda de trânsito mexicano desacordado debaixo do braço, enquanto lhe apresentava as folhas que havia escrito com a outra mão. Com certeza expressava mais surpresa e confusão que uma porta.

- Eu tenho muitas perguntas a lhe fazer, mas vou começar pelo básico. – disse Paulo, esfregando as têmporas num gesto cansado - Quem diabos é esse?
- “Quem diabos”, não! É um guarda de trânsito e merece respeito!
- Certo, desculpe, mas por que ele está desacordado?
- Ele foi picado por uma espécie muito rara de... Lipídeo.
- Tudo bem, mas o q... L-lipídeo?! – minha improvisação não havia sido convincente.
- Ele pode passar a noite aqui até ele melhorar? – eu precisava mudar de assunto pra ganhar essa.
- Aqui?! E aonde diabos ele ficaria?
- Ele pode ficar com o Larry!
- Aquela alpaca que você trouxe? Pois saiba que ele e seu beliche estão perto do elevador, esperando o zelador dar um jeito de colocá-los na rua!
- Você ia chutar o Larry para fora?! - Eu gritei - Você não tem coração?! Ele pode não ser uma lhama, mas também tem sentimentos!
- Admito que não gosto de jogar animais na rua, mas alguns funcionários começaram a reclamar que alguns grampeadores estavam sumindo, e quando examinamos suas fezes...
- Esse não é o ponto! E agora, aonde o Carlito vai ficar? Hein?
- Carlito?
- Guardas de trânsito são humanos e também tem direito a nomes, seu insensível.

Por sorte, meu editor estava cansado e confuso demais, e logo ficou sem argumentos para usar nessa situação, deixando que eu trouxesse meu beliche e Larry de volta. Felizmente o zelador tinha decidido cuidar dele, mas o beliche tinha ido pro saco.

Tudo bem, no final Paulo e o zelador me ajudaram a trazer pra dentro uma cama de casal que eu havia achado dentro da casa de alguém, aonde Larry e Carlito iriam ficar. Eu, como todo bom colunista, iria dormir debaixo da minha mesa.

4 comentários:

Anônimo disse...

Cara, mas que afair é esse com a Alpaca? rs
A crônica ficou muito boa! É tão nonsense que chega a ser completamente compreensível.
Tenha certeza que estarei aqui toda quinta :D
Leaving now...

Contriller disse...

Sempre um segredo envolvendo mexicanos... Alpacas, tudo bem, eu confio, agora mexicanos...

Muito bom, Sr. Antolnelli. hahaha Keep it up!

Fábio Oliveira disse...

A imagem da alpaca vai ser a primeira camisa do contos de bar!
FUCK YEAH

Anônimo disse...

MANO...AQUELA ALPACA É MÁGICA *---*
Ela tem um cara de idiota tão encantadora *-*

Ahh!! Larry e Carlito farão um casal yaoi?*---------------------* diz que sim *w* -puxando sua camiseta- :3

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