8 de outubro de 2010

Terapia durante um assalto acidental

Fechei meus olhos, soltando o ar dos meus pulmões e deixando-o sair pela boca. Eu quase excedera o prazo limite de entrega da coluna (não pude elaborar nada decente durante a noite passada graças à sinfonia felina que os gatos da minha vizinha fizeram das oito da noite às seis da manhã – e, por favor, não me pergunte como um bicho pode miar por mais de dez horas consecutivas sem efeito colateral aparente). Juro, tive vontade de pegar a raquete velha que tenho na dispensa do apartamento e fazer algo que mereceria a punição do IBAMA.
A infernal sinfonia felina
Com olheiras visíveis e o trabalho feito, deitei minha cabeça na mesa, cansada demais para fazer qualquer outra coisa. Ouvi sons de passos se aproximando, mas, mesmo assim, não me mexi. Uma mão ligeiramente calejada tocou meu ombro, delicadamente.

- Não...Eu só quero dar uma raquetada nos felinos...Só uma...- eu falei, sacudindo a mão direita.Percebi que estava de olhos fechados, e tratei de abri-los.
- Ah...Señora Dutra...- Ramon, nosso webdesigner paraguaio que se comunica através de monossílabos na maioria do tempo falou. Ele me olhava com um misto de humor e preocupação.
- Hum? Ah, sim, já terminei a coluna... – a frase foi seguida por um bocejo.
- Bien. – e colocou uma folha rabiscada na minha mesa.
- O que...? – eu, meio grogue? Questão de ponto de vista.
- Leia. – Ele estava com um sorriso no canto da boca enquanto saia do cubículo. Isso só pode ser mau sinal, porque da última vez que vi esse sorriso no rosto do Ramon descobrira que meu hamster de estimação havia morrido afogado na privada do banheiro público do quarto andar do prédio – Ramon me revelou que a provável causa para isso envolvia uma caçada a um fio dental que fora jogado na maldita privada. Fiquei de luto por um mês em respeito à memória do falecido Dentinho – Ah, como eu sinto falta de ver aquele dentinho proeminente da boca dele roendo um grão de girassol... Paulo – Meu Editor e chefe – E Ramon foram os únicos que compareceram no enterro de Dentinho. Ele foi um bom hamster. Até o último dia... Mas claramente já superei essa fase mórbida da minha vida. Agora ela é cheia de dias ensolarados e duzentos reais a mais na conta do banco no final do mês – Isso era só o que ele gastava em comida (esse valor ultrapassa ao que eu gasto em alimentação por mês). – “Meu chefe é...” – eu disse em voz alta. Na folha estavam rabiscados desde alguns elogios a insultos que eu nem sabiam que existiam em português, inglês, espanhol e algo parecido com aramaico. Imediatamente pus o papel dentro de um envelope pardo. Naquele estado, não conseguiria responder nem qual era meu próprio nome, muito mais dar um adjetivo ao meu chefe.

Momento de reflexão no escritório do Contos de Bar
-...Vou imprimir a coluna e entregá-la...- Rastejei meu corpo, pendendo levemente para frente em direção a impressora. Esperei uns dois minutos e voltei com alguns papéis nas mãos. Coloquei ambos envelopes pardos na primeira gaveta da mesinha. – Entrega para m... – Não tive tempo o suficiente para completar a frase. O sono me dominou por completo, no entanto, não o bastante para perceber que Ramon já se fora.

Preenchi a hora seguinte com sonhos envolvendo hamsters cantando, gatos saindo de privadas a uma velocidade incrível e meu chefe dançando tango acompanhado de Ramon.

- A entrega! – eu gritei, batendo com a mão fechada na mesa. Abri a gaveta, peguei o primeiro envelope que vi e sai correndo em direção a sala de Paulo. Entrei ofegante e depositei o envelope na escrivaninha dele. – Chefe...A coluna...Críticas, por favor...
- Tudo bem, pode deixar aí mesmo. – ele desviou o olhar da agenda de capa preta que tinha em mãos para me encarar. Levou a mão ao peito quase que de imediato. – Não sei o que você andou fazendo Dutra, – e sinceramente espero que não tenha relação com a montagem de estabelecimentos comerciais ilegalmente aqui dentro – mas é melhor parar. Sua expressão não está nada... – ele parecia estar em dúvida com o termo certo a ser empregado – Humana.
- Agradeço por me deixar descansar chefe, mas sabe... – Eu pus uma das mãos na cintura – Eu podia processá-lo por danos morais a minha pessoa, afinal, duvidar da minha sanidade é até considerado plausível para alguns, mas por em dúvida o meu caráter como empregada dedicada a este escritório... – funguei, na tentativa de encobrir uma lágrima inexistente.
- Tudo bem, vá logo, antes que eu me arrepen... – não permiti que ele completasse a frase, pois já me encontrava na metade do corredor.

Rumei para minha mesa, arrastando os pés e me acomodando na cadeira. Abri a última gaveta da escrivaninha e tirei uma pequena almofada verde de lá. Com alguma dificuldade, acomodei-a entre uma pilha de rascunhos a mão que fizera mês passado, meu teclado, uma luminária prateada e uma xícara enorme com os escritos “Faça sua parte para ajudar nosso planeta e adote um coala hoje”. Deitei minha cabeça naquele montinho fofo e adormeci.

Quatro horas se passaram até meus olhos se abrirem. Espreguicei-me e por uma fração de segundos não deixei a xícara ecologicamente correta encontrar o chão. Estava renovada e inspirada para realizar uma contribuição surpreendentemente positiva na folhinha repleta de adjetivos sobre o chefe. Peguei uma das minhas canetas pretas – pois eu só escrevo com caneta esferográfica preta, não azul, verde, vermelha e/ou incolor. Retirei o papel do envelope e arregacei as mangas,pronta para começar.

-Mas o que...? – cerrei meus olhos para ver melhor. Hora de marcar uma revisão com o oculista.

Levei oito segundos para perceber que o documento que estava segurando não continha resposta para a frase “Meu chefe é...”, vinte e sete segundos para largá-lo e revirar todas as minhas gavetas, pastas, sapatos (ocasionalmente eu colocava recados importantes dentro deles), cadernos e bloquinhos em busca da infeliz listinha e dois segundos para perceber que o pior havia acontecido.

Saí pisoteando inúmeras folhas que coloriam o chão numa espécie de tapete de branco e preto em direção a sala do Editor. Esmurrei a porta gritando o nome de Paulo. Virei-me para tentar enxergar algo pela janela da sala dele – e lá estava, intacta, a minha sentença de morte. Será que Paulo apelaria para tortura física ou mental...? Tenho a impressão de que é melhor começar a rezar ou acender uma vela.

Em desespero, apelei para todas as maneiras que conhecia de adentrar um local sem usar a chave ou a janela que dava para a rua – não se esqueça de que estamos no quarto andar do prédio. Isso incluiu: tomar impulso e me jogar contra a porta – o que ocasionou numa espécie de lesão no meu ombro esquerdo – a fim de arrombá-la, pegar um grampo de cabelo e metê-lo na maçaneta, usar meus cartões de crédito como chave e fazer promessas para todos os santos que conhecia e até ligar para uma mãe-de-santo e encomendar seus serviços.

- Que passa ?! – Ramon apareceu no final do corredor com algo que se assemelhava a um pedaço de camarão saindo da boca. Hoje ele está anormalmente falante, então, relevem.
- Ramon! Você precisa me ajudar! – e apontei para dentro do escritório do chefe. – A lista está lá! A lista! – agarrei-o pelos ombros e o sacudi com mais força do que o necessário.
- ...Dios! – ele conseguiu murmurar, ainda tonto.
- Não adianta tentar entrar, está trancado! – me sentei no chão e afundei o rosto nas mãos.
- Hum...- Ramon olhava da porta para mim. Fez um gesto para que eu me levantasse. – Soluciòn.

Sem esperanças, acreditar em um paraguaio de precário sotaque espanhol era o que me restava. Ele propôs nos encontrarmos à noite no escritório – Ramon traria consigo algo para quebrar a janelinha que nos permitia observar o que acontecia na sala de Paulo – e pegaríamos o envelope. Arriscado? Absurdo? Motivo de prisão? Entretanto, foi o que me convenceu.

Eram onze da noite quando Ramon apareceu no escritório com uma picareta. Tive de me conter para não gritar e perguntar a procedência da ferramenta. Percebi que ele estava encapuzado, então resolvi tirar uma touca de natação fosforescente do bolso da calça e colocar sobre o rosto também. Silenciosamente nos dirigimos à sala de Paulo.

Encontramos a porta aberta – graças as minhas promessas. Entramos e eu acabara de me inclinar sobre a escrivaninha do chefe quando ouvimos o derradeiro:

- Quem está aí? – era Paulo. Mesmo com a parca iluminação, pude ver que ele segurava um envelope nas mãos.

Eu tinha que pensar rápido caso não quisesse assinar meu pedido de demissão no dia seguinte. Tateei no escuro e achei um grampeador. Encostei-o nas costas do chefe e murmurei, incerta:

- Passe o envelope e você não sai machucado. – tossi, mudando o tom de voz para o grave. – Sim, caso não tenha percebido, isso é um assalto. – infelizmente, minha voz não soou tão assustadora quanto o planejado.
- P-por favor, leve o que quiser ou o quanto quiser só não me mate. – senti ele se retrair violentamente. Talvez estivesse enganada quanto aos efeitos de minha voz assustadora de improviso.
- Não quero o dinheiro, só o envelope. – e estendi uma das mãos.
- Sim, mas... – Paulo não largava o maldito documento. - Sabe, Senhor Assaltante, desde um assalto que sofri aos meus seis anos de idade...

A madrugada inteira decorreu enquanto ouvíamos a comovente história de nosso Editor, repleta de episódios que continham desde fobias escolares, passando por incontinência urinária, regimes nada saudáveis para combater uma obesidade mórbida e sessões de psicoterapia para curar uma síndrome do pânico. Ramon se debulhou em lágrimas e eu me emocionei de tal modo que não consegui ameaçar o chefe para que me desse o envelope. Seria muito mais do que pura insensibilidade minha aproveitar esse momento de fragilidade dele para resgatar o documento.

Quando o primeiro raio de sol escapou pelas frestas da persiana, conseguimos ir embora. A missão havia falhado. Seriamos demitidos e provavelmente demoraríamos muito tempo para conseguir um emprego decente. Fui rapidamente para o meu apartamento trocar de roupa e comer uma torrada, sem fome alguma. Entrei no escritório, e avistei todos os poucos funcionários do Contos de Bar ao redor do Editor. Ótimo, testemunhas para minha demissão.

- Ah, Dutra! – ele veio ao meu encontro, visivelmente agitado e estendeu o envelope. – Eu já tinha lido a cópia de segurança da sua coluna, a que você me enviou pelo início da manhã passada, lembra? – ele sorriu. – Não precisa se preocupar, está boa. – deu um tapinha no meu ombro.

Atônita, encarei-o. O que ele acabara de falar era verdade; mas como eu estava morrendo de sono nem me lembrara do ocorrido. Isso significava que eu fiquei quarenta e oito horas sem dormir e por um milagre não perdera meu emprego por causa de gatos problemáticos e um chefe com trauma de infância?! Despejei todos os insultos que eu conhecia em árabe – certamente devo ter me esquecido de mencionar que tenho ascendência árabe – contra ele.

- Ahn...Dutra? Você está falando português ou qualquer idioma que possa ser compreendido por terrestres?
- Pelo bem da sua mãe, chefe, é melhor não traduzir o que eu acabei de dizer. – saí corredor afora, rasgando o envelope e seu conteúdo em milhares de pedaços.

4 comentários:

Unknown disse...

xD Eu ri muito!

Hm...Dutra, me mostra uma foto sua?

elithin disse...

EEEEEEEEEEEIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!
òó espero explicações JÁ!
como é que eu fico sabendo dessas coisas por terceiros???? hein? HEIN? ¬¬
não curti nem um pouquinho essa história. só porque eu não estou mais por perto esses minis acham que já podem fazer as coisas sem falar nada...
A juventude está perdida --'

Bem, o texto está ótimo, (as always), e muuuito engraçado ^^. Gostei de ver que tu está indo pra esse lado. Já está aceitando encomendas? XD
To com saudades tuas mini.... Precisamos conversar mais!
Vou te mandar um email por dia se tu não me responder. E tu nem quer me ver sendo chata com alguém :K
Nos falamos por aí! Te adooooro.
Kiss kiss




P.S. Ao autor do comentário anterior:
"Tira a mão que ela não é pro teu bico!!!!!! "
Humpf... õ.ó



Já, né? =^^=

Unknown disse...

Parabéns! Gostei muito do teu conto. Adorei o Dentinho e lamentei seu trágico destino. Quanto aos gatos, sei bem como é ter uma sinfonia felina!

Contos de Bar!

Espero que vocês resgatem a arte de escrever em uma linguagem simples e saudável, que nos traga alegria e boas risadas.

bibliotecária disse...

Imaginação e talento são o que não te faltam. Gostei muito do texto. Quando sai outro?

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