Minha mão esmagou o copo de plástico ruidosamente, enquanto minhas sobrancelhas se uniram, em total pavor. Uma calamidade se abatera no escritório. Tirei uma luva de plástico e um martelo da bolsa. Calcei a luva, arrancando o papel rabiscado e usei o martelo para quebrar um pequeno vidrinho na parede no qual deveria estar escrito algo sobre chamar os bombeiros em caso de incêndio.
Em menos de meio minuto, todo o corpo integrante do Contos de Bar fora trazido a uma sala às escuras, através de meios não-lícitos que não cabem aqui mencionar. Não por hora, pelo menos.
- Estou sonhando? – perguntou a Marina.
- Estou preso? – perguntou o Biancardine.
- Estou sendo seqüestrada? – perguntou a Júlia.
- Estou sendo...-começaram o Garcez e o Antonelli, em uníssono.
- Não! – respondi, em voz alta, ligando uma lanterna. – Estão sendo convocados para uma R.E.C.E.
- Uma “Revanche Estadual Contra Espartanos”? – Garcez tentou.
- Ou uma “Reavaliação de Entulhos em que Colocarmos Etanol”? – Antonelli arriscou.
- Não. – neguei pela segunda vez. – Uma “Reunião de Emergência em Casos Extraordinários”.
- E por que, exatamente, vocês precisam fazer isso na minha sala? – a voz de Paulo se manifestou, agradavelmente.
- Porque a sala do zelador é muito pequena para nós sete, chefinho. – respondi prontamente. – Enfim – iluminei o rosto de meus colegas com a lanterna, cegando alguns deles no processo. –Precisamos tomar uma medida para combater esse mal que se abateu em nosso local de trabalho, comprometendo as vidas e o teórico bem-estar mental dos habitantes do quarto, terceiro, segundo e oitavo andares desse prédio!
- No caso, o não funcionamento da máquina. – Júlia tentou abreviar meu discurso.
- Exato. – sussurrei, teatralmente. Só de pensar em suportar o dia a dia estressante sem cafeína, chás e derivados quentinhos me dava calafrios, tonturas e muita sede. – E para fazer a paz reinar novamente, traremos o café de volta a seu lar! - e ergui um punho no ar.
- Sabe Dutra, quem faz cenas supostamente heroicas aqui são eles. – Marina disse, meio receosa, apontando para o Biancardine e o Antonelli com a cabeça.
- Está bem, eu paro. – abaixei o punho e encolhi os ombros. – Sei que ninguém aqui vai pagar por uma máquina nova, e eu não estou disposta a arcar com esse tipo de custo sozinha. O que quero dizer é: têm alguma sugestão?
- Mandar o Sr. Esferográfica comprar café para nós?
- Não; ele teria que comprar diferentes tipos de café não apenas para nós, mas para quatro andares inteiros. Até o pobre diabo conseguir voltar com todos os pedidos em mãos, ninguém mais vai estar aqui. – disse, me afastando levemente em direção a porta. – Alguém aqui sabe fazer café? – vi que Paulo e Biancardine ergueram as mãos. – Isso não inclui Jack Daniels e...- olhei para meu chefe em solidariedade. – Seu café pode causar sérios efeitos colaterais, chefe. Meu falecido Dentinho provou um gole do seu café e não sei como não...- a frase morreu quando recebi um olhar ofendido do Editor. – Nós tínhamos que arranjar uma maneira de fazer café aqui...Sem uma máquina...- segurei meu queixo, pensativa.
Sentei no chão da sala, cruzei os braços e fechei os olhos, me concentrando. Pouco tempo passou e levantei rapidamente, pegando o celular. Dois minutos, incontáveis ofensas em árabe e algumas risadas depois eu tinha a solução para aquele dilema.
- Deixe-me ver se entendi. – Paulo estava razoavelmente curioso. – Você pretende trazer um fogão à lenha e uma cafeteira italiana para o escritório?
- Sim. – murmurei, orgulhosa do plano emergencial.
- E para trazer o fogão a lenha não pretende usar o meu carro? – foi a vez dele cruzar os braços.
- Não.
- Nem queimar qualquer objeto meu? – ele perguntou, muito desconfiado.
- Não...
- Por enquanto. – Garcez completou minha fala, com um sorriso levemente macabro.
- Só vai usar seus colegas e algum meio de transporte aleatório?
- Perfeitamente.
Paulo recuou alguns passos, erguendo as sobrancelhas. Pegando o esfregão que Foster – não tão acidentalmente assim – deixara na sala enxotou seus colunistas para fora.
- Me ajudam? – pedi, as mãos unidas. – Pela cafeína?
- Os alvos do meu revolver podem esperar. – Marina disse, batendo de leve nos bolsos do sobretudo, onde as armas estavam.
- Levo umas barras de chocolate suíço com recheio de laranja que ganhei para passar o tempo. – Júlia falou, descendo as escadas.
- O Larry pode vir também?
- Contanto que fique longe do meu cabelo....– murmurei, pesarosa. Juro que a baba daquela alpaca contem algum tipo de substância tóxica. – De qualquer modo não acho uma boa idéia trazer sua alpaca. Afinal – eu olhei para ele, do jeito mais crédulo que conseguia. – Larry pode se queimar.
Antonelli sabiamente desistiu de trazer seu companheiro para a nossa tarefa do dia. Descemos as escadas e nos deparamos com o transporte que nos levaria até minha casa, onde pegaria o antigo fogão à lenha que herdara (já que a moto do Antonelli não era uma opção, meu carro estava na oficina e de jeito algum eu permitiria que a Júlia roubasse um caro de tons rosáceos... novamente).

Isso era para ser um meio de transporte...Em uma galáxia não muito distante da nossa, obviamente
- Isso...funciona? – Júlia perguntou, rindo do nosso meio de transporte.
- Vai ter que funcionar. – respondi. - Já dei ao motorista o endereço, mas ele não conseguiu um ajudante, por isso, teremos que ir com ele pegar o fogão e voltar para cá.
Com alguns protestos, entramos no veículo caindo aos pedaços e com dificuldade. Fomos saudados pelo motorista grisalho, com um charuto no canto da boca, em um idioma parecido com o italiano. Ele indicou uma fileira com três acentos, o que fez com que tivéssemos que revezar entre ficar no banco ou sentado no chão do veículo. Atravessamos boa parte da cidade assim até chegar a minha casa. Enquanto o motorista gentilmente impedia meus colegas de invadirem meu lar, fui pegar a cafeteira. Quando voltei, o fogão alaranjado já estava – miraculosamente – dentro da Kombi, deixando um espaço reduzido para nos acomodarmos. Nos apertamos de tal forma que fomos à viagem inteira de volta ao escritório ocupando o banco de três acentos, contrariando toda e qualquer lei da física.
Chegando ao prédio, fizemos com que Ramon, Carlito, Sr. Esferográfica, o zelador Foster e o próprio Paulo nos ajudassem a levar o equipamento necessário para trazer fim as nossas angústias pela falta de cafeína no sangue. Como o fogão não cabia no elevador, tivemos de subir os quatro andares, com pausas freqüentes. Finalmente chegamos ao escritório, sendo surpreendidos por uma pequena aglomeração de pessoas do terceiro e oitavo andares do prédio, além da velha costureira do segundo andar que abanava um lencinho de renda branca entusiasticamente.
Posicionamos o fogão no local que a máquina de café ocupara. Peguei a cafeteira e a coloquei em um dos bicos do fogão. Caímos todos ao mesmo tempo no chão, ofegantes e delirantes. Permanecemos assim por quase uma hora até que a porta da sala de Paulo abriu-se, revelando a figura dele, com um sorriso nos lábios. Sorrimos para ele, afinal, havíamos triunfado. Ele encaminhou-se em nossa direção, o olhar mudando de um jeito perigoso. Ela parecia anormalmente satisfeito, e o sorriso agora não tinha um tom agradável.Ou talvez não.
- Vocês esqueceram do café. – ele murmurou, o sorriso sádico estampado no rosto em ver seus queridos funcionários em uma situação pseudo-calamitosa e sob um dos milhares de efeitos da falta de cafeína.








Nenhum comentário:
Postar um comentário