13 de novembro de 2010

A nova escritora usa calças

Era só mais uma terça-feira a noite comum. Exceto pelo fato de que era sexta, de tarde e eu estava sem calças. É, eu costumo não usar calças nas terças, então ignore essa última.

Nada era realmente importante ou urgente, mas eu achei que sair correndo sem as calças poderia tornar a coisa mais importante. Corri o quanto pude e consegui pular na caçamba de um caminhão de frutas. Peguei duas melancias e pulei na esquina do escritório. Joguei uma melancia no carro mais próximo e com a outra abri um buraco na porta de vidro do prédio. A recepcionista reclamou do fato de ser a quadragésima oitava vez que ela tinha que comprar um vidro novo. Naquela semana.

Ignorando isso, peguei o elevador para subir ao andar do escritório do Contos de Bar. No elevador, além de furtar carteiras, reparei que havia uma pessoa diferente. Ou melhor, um ovo. Não, era uma pessoa mesmo. Era uma garota estranha, com óculos escuros, uma arma e, incrivelmente, com calças. Achei estranho o fato de ela usar calças em véspera de final de semana. Quem usa?


Um final de semana comum. Apenas os fracos usam calças.

Contrariando todos os meus instintos, resolvi puxar assunto:

- Ei, quem é você? – falei, enquanto apertava seu nariz.
- Barina.
- Hein?
- Solta o beu dariz.
- Ah, claro. – Soltei o nariz dela e dei-lhe um tapa na testa. Ela reagiu atirando em mim, o que resultou num homem morto entre nós. Péssima pontaria.
- Merda.
- Relaxa, vão achar que fui eu. Quem é você, afinal?
- Marina Rocha é o meu nome.
- É nada.
- É sim.
- MENTIRA SUA! SEU NOME É MIRANDA!
- Ahm...
- Admita!
- Mas...
- Ok, não precisa admitir, Miranda. Esse será nosso segredinho.
- Posso por fogo em você? – Seus olhos brilharam.
- Que horas são?
- Três e doze da tarde.
- Só depois das seis.

Ao fim da discussão, saímos do elevador. Na saída, peguei um taco de beisebol e me dirigi a sala do Paulo. Chutei sua porta e bati com toda a força no seu aquário. A água vazou molhando meus pés e os do Paulo que estava sem reação olhando para a cena. Me abaixei e achei um pequeno peixe dourado se contorcendo. Peguei-o pela cauda e engoli. Almoço garantido.

- Garcez, você pode me explicar isso? – Ele perguntou olhando para o taco de beisebol.
- Estou caçando meu almoço. – Falei. A resposta era óbvia demais para eu me alongar.
- Sempre que você quebra meu aquário você tem problemas com a equipe. Da última vez foi por que o Antonelli comeu uma coxa de frango do seu almoço.
- Era coxa de gato.
- Argh. Tanto faz, qual é o problema agora?
- Nenhum, acredite. Eu só queria o meu almoço.

Falando isso, bati com o taco na cabeça dele e deixei-o desacordado. Saí de sua sala e a garota do elevador estava na mesa do Fábio.

- Ei, o que você está fazendo aqui? – Perguntei, deixando a alpaca lamber o sangue no taco de beisebol.
- Eu trabalho aqui. Garcez né? – Ela falou, com simplicidade.
- Não. Digo, é. Às vezes. – Deixei um ar de mistério na minha resposta.
- Sei.
- Então, Miranda, por que você está no lugar do Fábio?
- Ele saiu, ué.
- Interessante. E cadê todo mundo?
- Antonelli foi preso, Biancardine foi viajar, Losina foi roubar doces de crianças que ainda não comeram os do hallowen e a Dutra está no banheiro.

Saí correndo atrás da única pessoa que poderia me responder uma pergunta tão séria. Chutei a porta do banheiro, e a Dutra parou de se barbear na hora.

- Dutra! É verdade que o Fábio foi embora? – Perguntei enquanto jogava pasta de dente por todo o banheiro.
- É sim. Você estava lá.
- Estava nada.
- Verdade você estava em coma alcoólico.
- Pra variar. E essa nova garota aí?
- A Rocha? Parece ser boa no que faz.
- Que seria?
- Escrever, Garcez. – Ela já estava um pouco cansada da conversa.
- Escrever? Mulheres escrevendo? Ha, essa é boa.
- Garcez, eu sou mulher e eu escrevo.
- Você não é mulher. Você é um cara. Só que com seios. E nem tanto assim, né.
- Garcez! Olha o respeito!
- Você estava fazendo a barba quando eu entrei!
- Eu estava penteando o cabelo, Garcez! Por favor, o que é que você anda fumando?
- Não sei, mas é tão helicoidal.

Depois disso, a conversa perdeu totalmente o sentido. Resolvi então aceitar que agora as mulheres realmente escreviam e fui embora. Peguei o patinete do Paulo, que era o único veículo que lhe sobrara, e saí pelas ruas da cidade. Encontrei a Losina numa esquina comendo chocolate. Quando tentei me aproximar, ela atirou o cone que estava ao lado dela em mim. Percebi que era um sinal para deixá-la em paz. Corri pela cidade o resto do dia, até a hora em que vi que havia esquecido algo muito importante no escritório: as cuecas.

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