Me espreguicei na minha cama de casal convenientemente localizada ao lado da minha mesa na sala compartilhada pelos outros colunistas, e notei alguns olhares curiosos sobre mim. Ou pelo menos, muito molestadores. Nunca sei dizer a diferença.
Dutra e Garcez me encaravam de suas mesas, como que me questionando. Ou insinuando um ménage. Optei pela segunda possibilidade e acariciei o colchão do meu lado, indicando que o lugar estava livre, assim como a minha pessoa, e fiz a cara mais sexualmente apelativa que pude. De uma maneira nada erótica, Garcez se abaixou e vomitou violentamente. Acho que ele não estava pronto para tamanha sedução.
- Sabe, Bruno... – começou Victória, esfreguando as têmporas.
- Peraí... BLAAARGH!!! – respondeu Bruno Garcez, em meio aos seus jatos.
- Não você, o Antonelli! – continuou – Queremos saber. Aonde você conheceu a nova... Colunista?
- Ah, nada incomum... – respondi.
- Uhum... – murmurou, esperando que eu continuasse.
- Foi num pubzinho subterrâneo... – prossegui lentamente.
- Aonde? – perguntou, enquanto Garcez regava o chão com seu café da manhã.
- Nos meus anos no Iraque.
- Ah... QUÊ?! – exaltou-se, quase fazendo cair as orelhas de gato que Biancardine havia colado nela antes de sair. Quase.
- YAAAAAARG!!! – prosseguia Garcez, sempre adicionando palavras e cheiros tão doces aos nossos diálogos.
- O quê você fazia no Iraque, afinal? – perguntou minha colega felina.
- Se eu dissesse, teria que te matar. – respondi, fechando o rosto e eliminando qualquer clima de humor previamente existente.
- A-aham... É... Então foi... Num pub... No Iraque...
- E isso é tudo que precisa saber. – disse, encerrando o assunto.
Tirando pelos acessos finais de Garcez, que era limpado em tempo real pelo prestativo zelador Foster que o batia com o rodo a cada novo jato, todos ficaram em silêncio. Até ela entrar.
- SOCORRO, LUNÁTICA! – entrou se jogando ao chão o Sr. Esferográfica, nosso querido assistente voluntário... Que comete o engano de achar que um dia será pago.
- Cala a boca. – agora sim, ela entrou na sala. Marina Rocha, a nova colunista que eu havia indicado, e fora prontamente aceita pelo Paulo sobre o forte e inflexível argumento do revólver dela. – Agora, vai me buscar minha vodka ou não, “Canetinha”? – ela apontava sua arma.
- Alguém segure essa louca! – exclamou Sr. Esferográfica, que se deparou com o repentino clima de “não queremos morrer, não nos envolva, imbecil” por parte das pessoas ali presentes.
- Vodka! – ameaçou Rocha.
- POLÍCIA! – gritou o pobre Sr. Esferográfica, sentenciado com um disparo na coxa, que o fez cair na hora.
- Ótimo. Agora sinta a dor que eu sinto por não ter minha bebida!
- Sabe... – gemeu Sr. Esferográfica – Mais do que à minha perna, sua bala feriu meus sentimentos. – e desmaiou.
Enquanto Dutra levava o nosso assistente para o hospital e Garcez estava limpando sua camiseta no tanque do cubículo do zelador, troquei alguns cumprimentos com minha velha companheira de guerra, e trocamos alguns explosivos e materiais inflamáveis também. Ah, que saudades das cavernas perigosamente cheias de gases tóxicos daquela época...
Mas agora eu era um novo homem, e tinha o Larry, minha fiel mascote, para me apoiar.
- Hey, Bruno... – disse Rocha, interrompendo meus devaneios pós-guerra.
- Uh? O que foi? – respondi, totalmente distraído.
- Viu o material explosivo que eu havia deixado ao lado do pacote de rações da sua alpaca?
- Do lado do quê?
Você percebe que acordou com o pé esquerdo quando se dá conta que tem uma animal de grande porte perigosamente instável caminhando pelo prédio aonde trabalha.
- Eu é que não limpo merda inflamável de lhama. – concluiu a garota de cabelos curtos e negros, pulando pela janela ao ouvir as sirenes da polícia. É, o Sr. Esferográfica devia ter prestado sua queixa. Peguei o esfregão no canto da sala e fui limpar alguns dejetos, quando ouvi um baque surdo de uma explosão seguido por um "que merda foi essa?" pelo Garcez, no final do corredor. É, "merda" era a palavra certa.








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