- Nosso salário só aumentou em cinco reais. – Júlia era pessimista demais quando se tratava de assuntos monetários.
- Mesmo assim é um aumento. – eu disse.
- Mercenária. – Biancardine falou de canto.
- Eu ouvi isso!
- Minha intenção era que você ouvisse. – ele completou, um sorrisinho cínico aparecendo no rosto.
- Ah, seu...Maníaco por tentáculos!
- Esse sou eu. – ele parecia orgulhoso com a minha ofensa.
- Ao menos o maníaco por tentáculos pode brindar com quem ele quer...- Antonelli olhou melancolicamente através da janela escura do bar em que estávamos, encarando Larry do lado de fora.
- Mas voltemos ao brinde, sim? – falou o Oliveira, erguendo seu copo de whiskey de qualidade duvidosa.
- Sim, ao brinde! – Garcez também levantou seu copo de Irish Mist, acompanhado pelo copo de vodka com suco de morango levantado por Júlia, o de Jack Daniels levantado por Biancardine e o milkshake alcoolizado levantado por Antonelli.
Eu, ao contrário de meus queridos companheiros, faço abstinência de bebidas alcoólicas e similares, logo, era a escalada para a carona pós-expediente rumo a quatro lares (já que o Antonelli vivia no escritório) anormalmente diferentes entre si. Isso incluía desde caixas de papelão, até residências povoadas apenas por um colchão duro, um protótipo da casa de João e Maria, com toda a sorte de doces espalhados pelas paredes e uma residência aparentemente normal.
- Ao homem HCl! – eu disse, erguendo minha xícara de chá gelado, completando o brinde.
Após vários copos e xícaras esvaziados e revelações chocantes feitas sobre empregos anteriores, decidi que era hora de levá-los para o meu New Beetle preto (leia-se: fiquei receosa de que os dois policiais presentes no bar resolvessem tirar satisfações sobre as ameaças que Biancardine proferia em alto e bom som contra eles). Arrastei – com minha nova força oculta recém descoberta – os cinco para o carro, acomodando o Oliveira no porta-malas, enquanto esse murmurava algo sobre “entregadores de pizza” e “espada Jedi”.
***
Eram três da manhã, quando acordei de meu maravilhoso sonho – no qual um abaixo-assinado contra a fabricação de objetos cor-de-rosa era aceito e entrara em vigor ao redor do planeta – por um som estridente de uma música japonesa. Era o meu celular.
- Hum...Oi. – murmurei com toda a habilidade de que uma pessoa que acorda subitamente as três da manhã tem.
- Ahn, Vi...- era a Júlia, com uma voz levemente baixa e surpreendentemente séria.
- Olha aqui, Júlia, você recebe salário, tem cartão de crédito e cheques – na maioria sem fundo -, mas que não deixam de ser cheques e tem uma loja de doces perto da tua casa. Pelo amor de tudo o que é mais sagrado, não me obrigue a levantar da minha cama quentinha para comprar maçã caramelada de novo. – minha voz era suplicante. Não tinha previsões de sobreviver à oitava abstinência de sacarose da semana.
- Não se preocupe, meu bem, já reabasteci meu estoque de doces para o próximo mês. – ela informou. – O assunto é mais delicado.
- Biancardine ateou fogo na cadeira do Paulo?
- Não! – ela se permitiu uma risadinha seca. Ouvi alguns soluços através do telefone.
- Pode ser só impressão minha, mas tem alguém chorando do outro lado da linha?
- É exatamente sobre isso que eu quero falar. – ela pigarreou. – Venha pro escritório agora. Antes que boa parte dos colunistas do Contos de Bar morra afogada em lágrimas.
Procurei meus óculos no bidê ao lado da cama, coloquei a primeira roupa que achei, peguei a bolsa, a chave do carro e dirigi até o escritório. Chegando lá, encontrei meus colegas imersos em um silêncio tão desagradável que parecia fúnebre. Eles consolavam Antonelli, que tinha os olhos vermelhos, o rosto molhado e uma quantidade assustadora de lencinhos de papel ao redor de si mesmo.
- Credo, quem morreu? – falei. Maldita língua.
Todos olharam ao mesmo tempo para mim, de um jeito reprovador.
- O que bocê balou ba ela? – Antonelli falou com uma voz chorosa, olhando para Júlia.
- Não me olhe assim, só pedi para ela vir aqui.
- Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
- Larry sumiu. – Garcez sentenciou, olhando pro chão.
Antonelli fungou alto nessa parte da conversa.
- Fomos e reviramos todos os possíveis lugares em que a lhama pudesse ter se metido, e nada. – Biancardine disse. – Isso inclui zoológicos, laboratórios de cientistas com tendências ligeiramente necrofilicas e banheiros públicos, além do próprio escritório.
- Esqueceu do “Disque Alpaca” – Oliveira o corrigiu. - “Disque 1# para se identificar, 2# para identificar se alpaca tem pelo escuro, 3# para identificar se sua alpaca tem pelo misto, 4# para identificar se sua alpaca tem pelos claros, 5# para identificar se sua alpaca é fêmea, 6# para identificar se sua alpaca é macho, 7# falar fazer uma denúncia formal, 8# para entrar em contato com o zoológico municipal ou aguarde nossa telefonista”. – ele imitou a voz da telefonista com uma perfeição incrível.
- Ah. – foi o que consegui dizer, me comovendo com a situação e imaginando o desespero do dono da alpaca desaparecida.
Antonelli se levantou, derrubando a cadeira atrás de si.
- Minha inocente albaca está bagando belas ruas imundas dessa cidade, correndo risco de se berder, machucar, de ser molestada! – ele gritou, puxando os cabelos com força, histérico. – Pregamos isso – e puxou uma folha do bolso da calça – em todos os bostes da rua! E a única ligação que recebemos foi “engano”!
Li a folha de “Procura-se” com uma foto de Larry com óculos escuros e uma manta multicolorida enrolada no pescoço. Nela dizia que o camelídeo sul-americano era dócil e respondia por “Larry”, “Berry-Berry” e “Coisa fofa do Tio Nelli”. Havia o número de celular do Antonelli e do escritório do Contos de Bar no final da página.
Sentei-me na primeira cadeira que encontrei e prendi melhor o cabelo, me concentrado.
- Você refez todos os passos do dia anterior à perda do Larry?
- Bim.- a voz anasalada soou.
- E quando viu Larry pela última vez?
- De noite, quando bomos ao bar brindar...- ele passou a mão pelo cabelo. – Depois disso bão me lembro de mais nada, envolvendo ou não a minha alpaca. – pobre Antonelli, parecia ainda mais histérico ao se dar conta desse fato.
- Foi por isso que te chamei. – Júlia disse. – Nenhum de nós lembra do que aconteceu ontem depois das onze. Você sabe, por conta da bebedeira.
- Claro, a bandida. – recriminando-os com o olhar, fiz mais uma pergunta. – Vocês realmente não se lembram de nada do que aconteceu ontem?
- Não. – todos disseram, em uníssono e expressões de sono.
Ri, agradecendo por não ter de explicar que fizera os cinco pagarem por minha conta no bar no dia anterior. Infelizmente, meu bom-humor se dissolveu rápido. Fechei os olhos, e tentei não me irritar.
– Se tivesse me dito isso desde o início, eu não teria perdido doze minutos preciosos de sono. – sai correndo pelas escadas sem dar explicações e ouvindo os gritos agudos do Antenelli preencherem o edifício.
Voltei dez minutos mais tarde, trazendo a dita alpaca em uma coleira de cachorro preta com os escritos “AC/DC” em amarelo-avermelhado e quatro pulseiras metálicas spike, uma em cada pata. Os olhos escuros da alpaca relampejavam alegremente. Entregando a coleira nas mãos do Antonelli, disse:
- Se quiser ir naquele bar novamente, é melhor pagar pelo estrago que essa coisa fofa – afaguei o pelo de Larry – fez ao bar que mais parece uma caixa de areia tamanho família agora. – caminhei em direção ao corredor. Enquanto descia os primeiros degraus da escada, disse, alto:
- E se beber novamente, não perca a sua alpaca!
- Meh. – Larry concordou, de maneira irônica, enquanto era sufocado pelos abraços de seu dono.








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