Não que os outros colunistas já tivessem acostumados com as minhas inovadoras entradas nas quintas-feiras, mas sim porque Fábio Oliveira era o único presente na sala. E como sempre, ele estava dormindo.
Desmontei o Larry, e caminhei até a mesa de meu sempre sonolento colega.
- Olá, Dr. Fábio.
Nada. Precisava ser mais objetivo. Disparei o jato do extintor contra ele por alguns segundos.
- O quê diabos...? – ele acordou, ótimo.
- Olá, Dr. Fábio. – repeti.
Bastou um olhar dele para que eu notasse que seu humor estava equivalente ao de um texugo que foi colocado dentro de uma máquina centrífuga e depois colocado para secar num varal rotatório. Ou seja: um humor sem manchas, cheirando a lavanda e perigosamente assassino.
- Por que está cheirando a lavanda? – perguntei.
- Devo ter usado o spray do banheiro no lugar do desodorante antes de sair de casa. – respondeu, cansado.
- Ah sim, me lembrei! Não usou errado não, eu e o Biancardine que invadimos seu apartamento e trocamos o conteúdo dos dois! Hehehe, hilário... – enxuguei minhas lágrimas de risos, mas não ouve resposta.
- Antonelli... – finalmente disse, lentamente – Não sei se agüento tudo isso.
- A idéia foi mais do Biancardine, eu queria trocar o desodorante por tônico capilar, mas ele insistia que lavanda é o cheiro da humilhação.
- Falo desse emprego.
- Mas ora! Não acho que façamos algo de muito difícil por aqui, digo... Só temos que usar nossos dons naturais como escritores, não é pra qualquer um, mas são praticamente 6 dias de folga por semana, já que sempre escrevo tudo no último dia.
- Estou levando uma vida dupla, isso que quero dizer.
- Você finalmente conseguiu se clonar??? – exaltei-me.
- Que? Não!
- Isso porque você é o típico fracassado que cheira a lavanda! Precisa mudar de perfume, cara.
- Eu sei que esperar ter uma conversa que faça sentido, com você, é inútil. Mas...
- Então por que está tentando isso? Ou melhor, por que está cheio de espuma de extintor em cima de você? Sério, você deveria parar com essas suas manias estranhas.
- Mas o que eu estou tentando dizer... É...
- Hehehe, você cheirando a lavanda é mesmo engraçado.
- ESCUTA! – fiquei em silêncio – Eu sou o Homem HCl!
- QUÊ? – entrei em choque – Você? O Estequiométrico Homem HCl?
- O mesmo. Com o poder de 1 mol por litro. – animou-se Oliveira - É difícil de explicar, mas formulei 5 métodos para que você acredite em mim.
- Não precisa, eu acredito.
- Que? Assim, fácil?
- É, por que não?
- Não quer nem ver algumas das coisas que eu preparei? Uma delas é bem legal...
- Nah. – disse.
- Certo... – ele pareceu desapontado – Nenhuma mesmo? Trouxe aqui este tubo de ensaio pra...
- Já disse que é desnecessário.
- Mas eu já tinha até instalado o bico de Bunsen e...
- Não me interesso, chega.
- Certo... Sabe, seria bem mais legal se eu tivesse revelado isso pra uma das garotas.
- Provavelmente. Mas enfim, o que quis dizer com “não saber se aguenta tudo isso”?
- Como você deve imaginar... Ser um super-herói requer bastante do meu tempo. O crime nunca descansa! Pra onde quer que você olhe, os fracos e necessitados estão sempre sendo injustiçados pela maldade que aguarda entre os becos da cidade! Alguém precisa impedir que esses malfeitores e portadores de bigodes tenham êxito em sua marcha em direção ao caos, enquanto cometem crimes, comem uvas de supermercado e desenham pênis em vidros sujos de carros! E esse alguém... – concluiu, se levantando e apoiando o pé direito em sua mesa – Sou eu!
- Bacana. – disse.
- “Bacana”...?
- É, legal.
- Certo... Então... Eu estou me demitindo.
- Isso é com o Paulo, não comigo.
- Não, colega Antonelli. – agora ele havia subido com os dois pés na mesa, colocando as mãos heroicamente na cintura, o que me deixava desconfortável – Não quero mais lágrimas nesta sala! Você será o único de quem me despedirei!
- Eu não estou chorando. – observei.
- Sabe, de fato teria sido bem mais legal se quem tivesse aparecido fosse uma das garotas.
- Agradeça que não foi o Garcez ou o Biancardine.
- Tem razão. – desceu da mesa num pulo – Então, é aqui aonde nos despedimos, amigo cidadão!
- Okay. Tchau.
- Só isso que tem a dizer?
- É. Boa sorte com o lance das uvas e tudo mais.
- Certo... Adeus. – então ele caminhou em direção ao corredor, chamando epicamente o elevador, aguardando heroicamente ele chegar por 2 minutos, entrando estequiometricamente quando a porta se abriu, e se retirando do Contos de Bar de uma forma avassaladoramente... Normal.
Sentei à minha mesa e soltei meu peso, permitindo minha testa se estatelar contra o teclado, curiosamente, mas apenas por acaso, escrevendo na tela do computador: “hcl”.
Algum tempo depois, Paulo, nosso editor, entrou no escritório.
- Vejo que terminou sua crônica a tempo Antonelli, que bom. – disse ele, satisfeito.
- Uhum. – respondi, distraído.
- E cadê o Oliveira? Pensei que ele estaria aqui hoje.
- Ah, ele se demitiu. – disse casualmente.
- Bem, escrevendo a coluna dele, não é problema meu... QUÊ? ELE SE DEMITIU??
- Pois é. – me espreguicei. – Hmm...
- Como assim? O que ele disse!?
- Que tinha que cuidar de bigodes de supermercado e portadores de carros com pênis sujos, ou algo do tipo.
- Ah. – respondeu Paulo, atônito.
- Bem, é a vida, não é?
- Mas esse não é o caso! – exaltou-se – Como vou achar alguém pra substituir ele até a semana que vem!?
De repente, uma luz me veio à cabeça. Levantei-me, peguei uma folha e uma caneta, e disse, com os olhos brilhando de convicção:
- Deixa comigo!
- Que? – respondeu, assustado – Não! Deixe que eu mesmo...
- Você vai achar alguém realmente bom?
- Eu...
- Ou prefere que o Biancardine procure alguém? Sabe quais são os métodos dele, e os processos que eles lhe trazem. Ou quem sabe a Losina possa...
- Antonelli. – interrompeu Paulo, derrotado – Traga alguém bom, e que não exija muita coisa. Por favor, só... Facilite a minha vida.
- E alguma vez eu compliquei as coisas pra você?
- Eu preciso terminar de coletar os pedaços chamuscados da quinta mesa que me queimou essa semana, e depois trocar a água do aquário em que você urinou. Só saia daqui e me traga um colunista para a quarta que vem.
- Considere a missão concluída. – peguei uma de minhas bombas de fumaça, e joguei-a no centro da sala ao lado de Paulo, para a minha saída ninja.
Infelizmente, eu me enganei. A que eu joguei era uma de minhas bombas explosivas. Acho que eu deveria começar a etiquetar essas coisas.
- Larry, corra! Corra e ache esta pessoa! – disse, entregando um papel escrito à minha alpaca, que o abocanhou e saiu correndo desembestado. Também saí logo em seguida; eu ficaria para levar o Paulo até o hospital mais próximo, mas era meu horário de almoço.








Um comentário:
Adorei Antonelli! Menos a parte dos pênis sujos....
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