4 de novembro de 2010

A Saída de Oliveira, o Estequiométrico Homem HCl!

- Saiam da frente! – entrei no escritório do Contos de Bar montado em minha alpaca, derrubando a porta do corredor, usando uma faixa de papel higiênico enrolada em minha cabeça que balançava ao vento. Ninguém se surpreendeu.

Não que os outros colunistas já tivessem acostumados com as minhas inovadoras entradas nas quintas-feiras, mas sim porque Fábio Oliveira era o único presente na sala. E como sempre, ele estava dormindo.

Desmontei o Larry, e caminhei até a mesa de meu sempre sonolento colega.

- Olá, Dr. Fábio.

Nada. Precisava ser mais objetivo. Disparei o jato do extintor contra ele por alguns segundos.

- O quê diabos...? – ele acordou, ótimo.
- Olá, Dr. Fábio. – repeti.

Bastou um olhar dele para que eu notasse que seu humor estava equivalente ao de um texugo que foi colocado dentro de uma máquina centrífuga e depois colocado para secar num varal rotatório. Ou seja: um humor sem manchas, cheirando a lavanda e perigosamente assassino.

- Por que está cheirando a lavanda? – perguntei.
- Devo ter usado o spray do banheiro no lugar do desodorante antes de sair de casa. – respondeu, cansado.
- Ah sim, me lembrei! Não usou errado não, eu e o Biancardine que invadimos seu apartamento e trocamos o conteúdo dos dois! Hehehe, hilário... – enxuguei minhas lágrimas de risos, mas não ouve resposta.
- Antonelli... – finalmente disse, lentamente – Não sei se agüento tudo isso.
- A idéia foi mais do Biancardine, eu queria trocar o desodorante por tônico capilar, mas ele insistia que lavanda é o cheiro da humilhação.
- Falo desse emprego.
- Mas ora! Não acho que façamos algo de muito difícil por aqui, digo... Só temos que usar nossos dons naturais como escritores, não é pra qualquer um, mas são praticamente 6 dias de folga por semana, já que sempre escrevo tudo no último dia.
- Estou levando uma vida dupla, isso que quero dizer.
- Você finalmente conseguiu se clonar??? – exaltei-me.
- Que? Não!
- Isso porque você é o típico fracassado que cheira a lavanda! Precisa mudar de perfume, cara.
- Eu sei que esperar ter uma conversa que faça sentido, com você, é inútil. Mas...
- Então por que está tentando isso? Ou melhor, por que está cheio de espuma de extintor em cima de você? Sério, você deveria parar com essas suas manias estranhas.
- Mas o que eu estou tentando dizer... É...
- Hehehe, você cheirando a lavanda é mesmo engraçado.
- ESCUTA! – fiquei em silêncio – Eu sou o Homem HCl!
- QUÊ? – entrei em choque – Você? O Estequiométrico Homem HCl?
- O mesmo. Com o poder de 1 mol por litro. – animou-se Oliveira - É difícil de explicar, mas formulei 5 métodos para que você acredite em mim.
- Não precisa, eu acredito.
- Que? Assim, fácil?
- É, por que não?
- Não quer nem ver algumas das coisas que eu preparei? Uma delas é bem legal...
- Nah. – disse.
- Certo... – ele pareceu desapontado – Nenhuma mesmo? Trouxe aqui este tubo de ensaio pra...
- Já disse que é desnecessário.
- Mas eu já tinha até instalado o bico de Bunsen e...
- Não me interesso, chega.
- Certo... Sabe, seria bem mais legal se eu tivesse revelado isso pra uma das garotas.
- Provavelmente. Mas enfim, o que quis dizer com “não saber se aguenta tudo isso”?
- Como você deve imaginar... Ser um super-herói requer bastante do meu tempo. O crime nunca descansa! Pra onde quer que você olhe, os fracos e necessitados estão sempre sendo injustiçados pela maldade que aguarda entre os becos da cidade! Alguém precisa impedir que esses malfeitores e portadores de bigodes tenham êxito em sua marcha em direção ao caos, enquanto cometem crimes, comem uvas de supermercado e desenham pênis em vidros sujos de carros! E esse alguém... – concluiu, se levantando e apoiando o pé direito em sua mesa – Sou eu!
- Bacana. – disse.
- “Bacana”...?
- É, legal.
- Certo... Então... Eu estou me demitindo.
- Isso é com o Paulo, não comigo.
- Não, colega Antonelli. – agora ele havia subido com os dois pés na mesa, colocando as mãos heroicamente na cintura, o que me deixava desconfortável – Não quero mais lágrimas nesta sala! Você será o único de quem me despedirei!
- Eu não estou chorando. – observei.
- Sabe, de fato teria sido bem mais legal se quem tivesse aparecido fosse uma das garotas.
- Agradeça que não foi o Garcez ou o Biancardine.
- Tem razão. – desceu da mesa num pulo – Então, é aqui aonde nos despedimos, amigo cidadão!
- Okay. Tchau.
- Só isso que tem a dizer?
- É. Boa sorte com o lance das uvas e tudo mais.
- Certo... Adeus. – então ele caminhou em direção ao corredor, chamando epicamente o elevador, aguardando heroicamente ele chegar por 2 minutos, entrando estequiometricamente quando a porta se abriu, e se retirando do Contos de Bar de uma forma avassaladoramente... Normal.

Sentei à minha mesa e soltei meu peso, permitindo minha testa se estatelar contra o teclado, curiosamente, mas apenas por acaso, escrevendo na tela do computador: “hcl”.

Algum tempo depois, Paulo, nosso editor, entrou no escritório.

- Vejo que terminou sua crônica a tempo Antonelli, que bom. – disse ele, satisfeito.
- Uhum. – respondi, distraído.
- E cadê o Oliveira? Pensei que ele estaria aqui hoje.
- Ah, ele se demitiu. – disse casualmente.
- Bem, escrevendo a coluna dele, não é problema meu... QUÊ? ELE SE DEMITIU??
- Pois é. – me espreguicei. – Hmm...
- Como assim? O que ele disse!?
- Que tinha que cuidar de bigodes de supermercado e portadores de carros com pênis sujos, ou algo do tipo.
- Ah. – respondeu Paulo, atônito.
- Bem, é a vida, não é?
- Mas esse não é o caso! – exaltou-se – Como vou achar alguém pra substituir ele até a semana que vem!?

De repente, uma luz me veio à cabeça. Levantei-me, peguei uma folha e uma caneta, e disse, com os olhos brilhando de convicção:

- Deixa comigo!
- Que? – respondeu, assustado – Não! Deixe que eu mesmo...
- Você vai achar alguém realmente bom?
- Eu...
- Ou prefere que o Biancardine procure alguém? Sabe quais são os métodos dele, e os processos que eles lhe trazem. Ou quem sabe a Losina possa...
- Antonelli. – interrompeu Paulo, derrotado – Traga alguém bom, e que não exija muita coisa. Por favor, só... Facilite a minha vida.
- E alguma vez eu compliquei as coisas pra você?
- Eu preciso terminar de coletar os pedaços chamuscados da quinta mesa que me queimou essa semana, e depois trocar a água do aquário em que você urinou. Só saia daqui e me traga um colunista para a quarta que vem.
- Considere a missão concluída. – peguei uma de minhas bombas de fumaça, e joguei-a no centro da sala ao lado de Paulo, para a minha saída ninja.

Infelizmente, eu me enganei. A que eu joguei era uma de minhas bombas explosivas. Acho que eu deveria começar a etiquetar essas coisas.

- Larry, corra! Corra e ache esta pessoa! – disse, entregando um papel escrito à minha alpaca, que o abocanhou e saiu correndo desembestado. Também saí logo em seguida; eu ficaria para levar o Paulo até o hospital mais próximo, mas era meu horário de almoço.

A crônica de hoje foi patrocinada pela química das substâncias de baixo pH.

Um comentário:

Fábio Oliveira disse...

Adorei Antonelli! Menos a parte dos pênis sujos....

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