- Tudo bem! Mas não digam que eu não avisei! – proclamei, irritado.
- Avisou? – os três pararam, confusos – Você avisou o quê?
- Há! Agora é tarde demais. Vocês foram avisados. – saí andando de lado, encarando-os até chegar à esquina, enquanto eles ficaram parados me encarando de volta provavelmente me achando completamente louco. Chegando na esquina, saí correndo, afinal, ainda estava sem calças.
Quando dei por mim, estava num beco escuro aonde chovia bastante. “Estranho pra cacete” pensei, afinal, o dia estava claro na cena anterior, e não me lembro de ter bebido alguma coisa entre esses dois quadros. Mas bem, não lembrar pode ser só uma prova maior de que eu tenha de fato bebido algo. Caminhei sob a chuva fria procurando a saída daquele beco, mas não dava pra enxergar muito à frente devido a cortina de fumaça que o vento produzia chocando a chuva contra os edifícios, e quando percebi, tropecei numa tampa de aço de alguma lata de lixo.
- Inferno! – praguejei enquanto me levantava, não havia caído de fato, mas me apoiei com as mãos numa poça de sujeira e água. Ao erguer o rosto, dei de cara com uma lixeira aberta, de onde um gato siamês me encarava com um sorrisinho que parecia demonstrar alguma satisfação com a minha praga. – Ah, olá bichano. – disse, apenas por educação.
- Olá! Pra variar, alguém com educação para me cumprimentar. – ele respondeu, depois de cuspir o esqueleto da sardinha que mastigava.
- Ah, mais um bicho falante. Conhece o Azeite de Oliva? – perguntei, entediado.
- O tempero? – perguntou o gato, confuso.
- Deixa pra lá. Não sabe informar em que canto da cidade eu estou, sabe?
- E eu tenho cara de guia? Você deveria estar com outras preocupações na cabeça!
- Tipo o quê? Se é dinheiro, saiba que já estou tentando arranjar um segundo emprego! Não sei por que, mas meu editor recusa todos meus pedidos e ameaças de aumento.
- Ninguém mais se assusta com um gato falante hoje em dia? – resmungou o felino, que possuía alguns pelos abaixo da boca que se assemelhavam a uma barbicha.
- Depois da fuinha fluente em 7 idiomas que o puto do Garcez levou pro escritório, você teria que saber sapatear enquanto canta em húngaro para chamar alguma atenção.
- Que se dane. Está aqui por um motivo, Antonelli. – afirmou o felino, bem sério. Digo, sério para o rosto de um gatinho siamês encharcado com a chuva, ou seja, bem fofo.
- Estou, é? Então me diga, que estou tentando descobrir desde o começo da cena.
- Está aqui porque você deseja algo. Tem ambições e desejos ocultos no podre de sua alma... E é exatamente ela que venho negociar!
- Está querendo comprar a minha alma?? – perguntei, surpreso.
- Exatamente... Acho que você deve ter compreendido com quem fala.
- Espera aí... Um gato... Num beco chuvoso... De barbicha... Querendo comprar a minha alma... Não pode ser!
- Exatamente.
- Você é o Papai Noel!!!
- O quê??? – disse o felino, quase caindo dentro de sua lata de lixo.
- Ah, sabe como é, estamos perto do Natal e essa deve ser uma crônica natalina.
- Não, seu idiota! Eu sou o Diabo!
- De “Santa” pra “Satan”, só muda a posição de uma letra, meu coleguinha cuspidor de bolas de pêlos. – afirmei convicto – Minha teoria é que o Papai Noel se disfarça de Diabo pra sair por aí coletando almas pra então usá-las como energia mágica pra enfeitiçar suas renas e conseguir entregar todos os presentes em uma noite. Reflita.
- Não sou a porra de um velhinho gordo e barbudo. Ah, inferno! Peguei a mania de falar esse palavrão com a última escritora com quem esbarrei.
- Ah, conheço alguém assim, Sr. Sinos Felpudos... – uma coluna de fogo, sofrimento e almas agonizantes se levantou da lata de lixo atrás do dito-cujo antes que eu pudesse terminar a frase.
- Não me dê apelidos ridículos! Você deve me temer, mortal!!!
- Posso ver uma certa raiva reprimida aí. Quer falar sobre isso?
- Ah, sabe como é. – a labareda de lamúrias se apagou – A última pessoa que passou por aqui quis me chamar de Sr. Enxofre, e eu pensei que não poderia ser pior com mais ninguém...
- Não desconte sua frustração alheia em seus novos clientes, assim prejudica seu trabalho. – bronqueei.
- CALADO MORTAL! – e lá veio a coluna de efeitos especiais, que já estava ficando clichê – Agora... Diga-me o que anseia... Qualquer coisa neste mundo, e a terá em troca de tua alma!
- Eu sei, já entendi o esquema! Estou pensando.
- Pois então...? Dinheiro? Fama? Um harém?
- Não me apresse! Uh, são tantas opções, sou péssimo com escolhas! Já me enrolo com apenas duas coisas em jogo, e você vem me oferecer QUALQUER coisa do mundo! Me dê um tempinho...
- Certo, certo... Decida-se. – disse o gato, balançando sua cauda.
- Estou esperando. – disse a forma felina de belzebu.
- O quê? – perguntei, distraído.
- Sua decisão! O que quer em troca de sua alma???
- Ah! Era pra eu decidir isso agora? Pensei que poderia voltar outro dia...
- Claro que é pra agora!!! O quê estava fazendo aí parado nos últimos 15 minutos???
- Ah, sabe como é... Tava pensando se havia me drogado ou bebido algo hoje, mas não lembro de nada.
- Argh! Chega. Eu poderia lhe dar qualquer coisa que quisesse, mas vejo que não está interessado...
- Own. – respondi, emocionado.
- É o quê? – ele parou, levantando uma sobrancelha.
- Você aí, todo fofinho, tentando psicologia inversa... E ainda diz que me daria qualquer coisa desse mundo, só querendo minha alma em troca... Seria quase romântico, se você não fosse um animal de outra espécie e também o Diabo.
- ...Não é nada disso.
- Mas desculpe, eu já tenho uma alpaca pela qual tenho muito carinho e afeto.
- Não, sério. Você me entendeu errado.
- Estou brincando, Mr. Jinglebells.
- Chega!!! – eu ri - Está me fazendo passar por ridículo! Pare de rir! Pare! – eu gargalhava.
- Gostei de você, bichano. Se daria bem no escritório aonde eu trabalho.
- Eu não gostei nem um pouco de você, Antonelli. – disse o Satã.
- Já decidi o que eu mais quero no momento!
- Finalmente! - entusiasmou-se o gatinho infernal - Diga-me e será seu!
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa!
- Mesmo?
- Sim!
- ...Mesmo mesmo?
- Sim! Sim!
- Certo. Você me prometeu.
- Pois diga logo!!
- Eu quero que você seja meu novo melhor-amigo!!! – disse com um sorriso do tamanho da minha cara enquanto abria meus braços e o abraçava.
- ...Você definitivamente vai pro inferno de um jeito ou de outro, rapaz. – disse ele, desistindo e se livrando de meu abraço, sumindo dentro da lata de lixo em seguida.

- Ah... É sempre assim que eles vão embora. Foi a mesma coisa com meu primeiro peixinho dourado.
Logo em seguida parou de chover, e achei facilmente o caminho para fora daquele beco. Naquela tarde, voltei abalado para o escritório aonde trabalho (e durmo). Sentia-me sozinho, rejeitado, ensopado por uma tosca chuva mágica e sem calças.
- Feliz quase-Natal, Bruno! – disse a animada colunista Dutra, enquanto colocava luzinhas na Árvore de Natal que montara no canto de nossa sala.
- Ao inferno com o Natal. – disse, me jogando na minha cama ao lado de minha mesa e dormindo logo em seguida.
Pela janela, em outro prédio, um gato siamês observava toda a cena, satisfeito.
- Às vezes amizades podem te magoar, caro Antonelli... Dois a menos, faltam quatro. – e começou a rir, enquanto sumia na escuridão – HO HO HO!








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