
Talvez fosse pelo fato de eu estar usando meus óculos escuros e redondos e estar me esgueirando pelas sombras de uma viela úmida que tudo parecia tenebroso demais. Meus passos ocos eram a única coisa que ressoava naquele beco, afora o barulho de algum gato roçando sua cauda fagueira no metal frio de uma lata de lixo, junto com um miado baixo e rouco. A chuva batia forte no chão quente de uma noite de tormenta de verão, o que fazia o asfalto resfriar-se rápido demais, levantando leves e rasteiras cortinas de fumaça.
Pé ante pé, calçada de meu leal par de all star preto, a barra de meu sobretudo brincava com o vapor daquela chuva incessante. Meu cabelos curtos e negros escorriam a água ácida da cidade corrosiva, mas meu batom rubro permanecia como sangue em minha boca. O cigarro apagado apoiado em meus lábios estava encharcado, mas eu ainda tentava de vez em vez acendê-lo com o tintilar metálico de meu isqueiro britânico.
Encostei-me ao lado da torta lata de lixo onde o tal gato esfregava-se, miando como se sussurrasse. Enquanto a chuva continuava a castigar aquela viela, o gato, com os pelos grudados em seu corpo esguio, preto e branco, subiu na tampa e sentou-se bem ali, como se me fizesse compania.
Seus olhos amarelados e inteligentes pareciam me encarar com interesse, enquanto nossas respirações juntavam-se com o vapor da noite. Lembrei que supersticiosos consideravam aquele animal como algum tipo de elo com o submundo, ou com o diabo. De repente, me senti amiga do bichano, que continuava me fitando.
Ele curvou sua cauda de forma rápida, e roçou-a em meu braço. Levantei uma sombrancelha, e senti como se aquele felino estivesse com segundas intenções. Tentei mais uma vez acender meu cigarro em vão, debaixo da tempestade, afastando meu braço do animal.
- Eu estava esperando você, sabe? Poderia ser mais educada e ao menos deixar-me lhe cumprimentar - O gato se pronunciou com uma voz arrastada e rouca, como se fosse a coisa mais normal do mundo um siamês numa viela escura falar. Arregalei os olhos e levantei os óculos escuros com o dedo contra o fluxo da chuva até o topo de minha cabeça.
- QUE PORRA É ESSA?! - E esse foi o meu típico cumprimento educado ao bichano, enquanto enfiei a mão no bolso do sobretudo procurando meu revólver.
- Argh, sempre tão cheia de classe. Podia me poupar dessas reações exageradas. - O gato revirou seus olhos amarelados, me fazendo soar incrivelmente estúpida. Ser humilhada por um gato falante definitivamente é um trauma a ser arquivado em minha mente prejudicada pela vodka.
- Perdão, mas preciso repetir... Afinal, que porra é essa? - Eu tentei evitar perguntas óbvias do tipo "Você é um gato que fala?" e enfatizar uma frase com um palavrão foi a saída mais aceitável pela minha personalidade.
- Bem, eu sou um gato que fala. - Ele explicou. E eu tentando evitar o óbvio.
- Ah, nossa, isso me deixa aliviada. - Cerrei os olhos, com um humor ácido, desconfiando que aquele siamês molhado estava tirando um sarro da minha cara. - E eu aqui pensando que você era o capeta.
-É, tem isso também. - O gato deu de ombros.
- QUE PORRA VOCÊ QUER DIZER?! - Exclamei, sacando o revólver, ficando um tanto estressada.
- Você só conhece esse palavrão? Isso cansa, sabe. - O gato bocejou, também parecendo irritado.
- Oh, bem, sabe como é. É o impacto da agressividade e toda essa baboseira. Mas enfim. Você é o diabo ou não é?
- Eu sou um gato que fala, tenebroso, numa viela escura e abandonada, em meio a uma tempestade. Junte os fatos. - Ele me encarou com impaciência e desistiu depois de 15 minutos de silêncio da minha parte, alguns goles de uma pequena garrafinha de vodka que encontrei em meu bolso e tentativas frustradas de acender meu cigarro. - É, inferno, eu sou o diabo.
- Teria me poupado da semi embriaguez se tivesse sido direto. Pensei que só Deus usasse essa história de mistério e falta de respostas. - Dei de ombros, trocando o cigarro em minha boca por outro do maço, que também estava encharcado.
- Vá tomar no seu cú. - O gato bufou. - Quer me deixar falar?
- Ah, claro, claro... Perdão a indelicadeza, mr. Enxofre. - E eu levantei minha pequena garrafinha em honra de meu acompanhante felino e diabólico e dei um outro gole.
- Que seja. Estou interessado em comprar sua alma. Sabia que estaria aqui esta noite. E estou interessado em ofertar o que você mais deseja. - Ele tentou prender minha atenção com o olhar, mas eu estava ocupada tentanto acender aquela bosta daquele cigarro.
- Oh, minha alma? Que grande merda, hein. Acho que chegou tarde demais, desculpe dizer. - Joguei meu isqueiro com raiva na parede contrária da viela, mas logo em seguida, arrependida, peguei-o do chão e o acariciei, murmurando desculpas melosas.
- Tarde demais? Mas eu não recordo-me de tê-la adicionado em minha cota de almas compradas.
- Não é isso. É que depois de tanto álcool e cigarros, eu não devo ter nada comprável aqui dentro. - Virei o restinho da vodka que havia sobrado da pequena garrafa e quebrei-a em seguida, jogando-a com força no chão. O diabo revirou os olhos.
- Isso estraga o pulmão e o fígado, sua imbecil. A alma não tem nada a ver.
- Pra alguém que tem que me adular, você é um demônio bem do folgado, sabia? - E eu tentei frustrantemente acender de novo a merda do cigarro.
- Então, o que quer em troca dela?
- Quero ser imortal. Não, não... isso seria chato demais. O poder de voar? Nah, voar é muito heróico pro meu gosto. Ah, que indecisão. Acho que não vou levar nada, senhor. - Eu entortei a cabeça, torcendo o rosto numa careta típica de rejeição a um vendedor de enciclopédias. Só que era o diabo.
- Ah, inferno! - O gato exclamou irritado, e eu dei risada. Vamos, tem que concordar comigo que o diabo clamando pelo inferno, numa noite de chuva, vestido de siamês, quando se está alcoolizado é no mínimo, cômico.
- Hey, não fique estressado. Tudo bem, me vê um maço de Black de menta, e estamos acertados. - Eu estalei meu isqueiro, que havia me frustrado a noite inteira.
- É isso? Cigarros? Vai me vender sua alma por um maço de cigarros? - Falou o diabo, tendo um surto de moral. Eu dei de ombros.
- É. Se bem que agora que você falou, a gente pode tornar isso interessante. Sim, eu vou aceitar a troca por um maço de cigarros... - O gato pareceu sorrir como o Gato de Alice no País das Maravilhas.
- Excelente. - Ele levantou-se, balançando a cauda molhada de chuva.
- Por um maço de cigarros sempre que eu precisar. - Eu concluí meu requisito.
- QUÊ?!
- É isso mesmo o que você escutou. - Me senti vitoriosa. Aquilo era como pedir ao gênio da lâmpada mais desejos.
- Isso vai durar sua vida inteira!! - O gato miou num gemido lastimante, rendido.
- Pense bem. Minha alma seria sua de qualquer jeito, depois que morresse. É um trato justo. - Eu apliquei a ele minha lógica aprendida com meu excelente psiquiatra pessoal. Espero que todos conheçam Tyler Durden.
- Pelo menos podemos sair dessa chuva? - O bichano desceu da lata de lixo, com uma carranca de mau humor impagável. Eu levantei a cabeça e ri maliciosamente, satisfeita com meu trato.
- Claro. É o diabo que manda. - E caminhamos lado a lado na chuva, eu com meu maço seco e minha alma vendida a prestações de nicotina, e o gato balançando a cauda molhada, com toda a sua pompa belzebuziana.
-Ah, cala a boca.








Um comentário:
Eu li com muita atenção e gostei da história a minha nota é mais do que mil meus parabébns que bela história
Postar um comentário