Eu estava em uma floresta. Uma bem estranha, na verdade. Quero dizer, florestas não costumam ser de cogumelos, certo? E, para deixar tudo um pouquinho mais assustador, fumando uma piteira do tamanho do meu antebraço, estava Marina. Claro, o problema não era isso, e sim que as pernas dela estavam fundidas e pintadas de verde e preto. Ah, e ela estava sentada em um dos cogumelos.
- Quem é você? – ela perguntou, baixando a piteira e soprando fumaça para cima. Ela desceu rapidamente, me envolvendo. Fedia. Tossi e espanei a fumaça com as mãos.
- Pombas. Sou eu. Losina. – passei as mãos pelo meu vestido, arrumando-o.
Espera aí. Vestido?
Era um bem bonitinho. Lilás, cheio de babados e outras coisas meigas, como laços. Junto com meias até o meio da canela e um par de sapatos de verniz, eu estava bem bonitinha. Tirando o fato que eu odiava vestidos, é claro. E eu não costumava ficar bem neles.
- Ah, de novo não. – murmurei, olhando em volta. Sim, definitivamente era uma floresta de cogumelos. E definitivamente as montanhas na verdade eram árvores. E eu era minúscula. Menor que uma lagarta. Que na verdade era Marina.
- Ei, eu perguntei quem era você. Me responda. – ela baixou a piteira na minha cabeça e eu soltei um resmungo de dor.
- Já falei. Sou sua colega de trabalho. Losina. – ela pareceu não ter me ouvido. Franzia a testa e me encarava com raiva. Suspirei. – Eu sou Alice.
- Ah. Então você tem que seguir o Paulo Branco. – ela apontou para trás de si. Reprimi uma risada. Paulo, nosso amado editor, estava com colete e casaca, e ficava checando um relógio de ouro enorme. Duas orelhas, obviamente de coelhos, se projetavam acima de sua cabeça, e eu tinha certeza de que se pudesse ver suas costas, teria um pequeno rabo felpudo saindo pela calça.
- Paulo Branco. Certo. Entendi. – comecei a correr. Assim que o, hm, Paulo Branco me viu, começou ele também a correr, gritando ‘É TARDE, É TARDE, É TARDE!’. Claro que até o momento, não era tarde. Eu estava pensando exatamente nisso quando comecei a crescer. Cheguei até o tamanho normal em poucos segundos, mas não parei. Estava acima das árvores, e não enxergava mais o maldito editor.
- Droga! – gritei, fazendo passarinhos saírem voando desesperadamente. – Pensamentos lógicos demais! – naquele momento, visualizei um unicórnio robô voando pelos céus, deixando um rastro de arco-íris atrás de si. Golfinhos brilhantes mergulhavam nas nuvens e pulavam ao seu lado. Fiquei admirando aquilo, até as copas das árvores me taparam e eu estar no meu tamanho normal.
Paulo Branco continuava correndo, e eu não tinha tempo a perder. Comecei a correr atrás dele, mas então ele sumiu, sendo substituído por uma mesa de dez lugares, mas só havia três pessoas nela.
Ou melhor, uma pessoa, uma alpaca e uma fuinha. Deixei minhas sobrancelhas sumirem entre minha franja enquanto absorvia a cena. Antonelli estava com uma cartola absurda na sua cabeça que quase tapava seus olhos, enquanto Larry tinha orelhas cinzentas de lebre ao invés das curtas de alpaca. Azeite de Oliva usava uma gravata-borboleta rosa no pescoço. E todos tomavam chá enquanto conversavam aos berros.
- Ah, não. – murmurei. Mas eu não tinha escolha. O fim estava distante ainda. Então me aproximei da mesa. Nenhum dos três pareceu notar minha presença. – Posso me sentar?
- Não! – todos gritaram. Até mesmo Larry, que costumava ser um animal mudo, juntou sua voz ao coro. E isso me fez crescer um centímetro. Sacudi a cabeça, livrando-me de pensamentos lógicos.
- Esse chá é para o quê? – mudei o rumo da conversa e vi o rosto do Chapeleiro Antonelli, Dorfuinha e Larry de Março se iluminarem.
- É um chá de desaniversário, é claro – eles falaram, soando extremamente lógicos. Acenei com a cabeça, concordando.
- É o meu desaniversário hoje – sorri levemente quando eles se mexeram, alvoroçados, e puxaram um bolo de sei-lá-aonde.
Alguns minutos depois, consegui fugir de lá. Consegui resistir bravamente ao bolo, com medo do que ele era feito e de onde tinha estado. Estava procurando o Paulo Branco quando parei, de chofre.
A vingança parecia ter chegado.
- Olá – disse Biancardine, sentado em um galho de uma árvore. Uma cauda sacudia-se embaixo dele, um sorriso malicioso encrespava seus lábios e havia um par de orelhas de gato saindo de entre seus cabelos. Contive a súbita vontade de rir. De novo.
- Preciso ver a Rainha Vermelha. – falei, ignorando as flores que começaram a cochichar ao meu lado. Eu não podia me demorar lá. E já estava demorando demais.
- Sim, é claro. Imaginei que fosse isso. – ele empurrou o cachecol listrado rosa-e-roxo que usava para cima do ombro e desapareceu, até restar somente o sorriso. E foi isso que segui até o final do bosque.
Flores fofoqueiras.
- É aquele gato novamente! Cortem-lhe a cabeça! – ouvi uma voz feminina bradar. Sim, era imaginável. Afastei um arbusto e finalmente encarei a cruel Rainha Vermelha, que no mundo real era conhecida simplesmente por Victória Dutra. Ergui meus olhos para ela, desafiadora.
- Eu matei o Dentinho. – declarei, olhando-a no fundo dos olhos. Vi-a levantar as sobrancelhas e cambalear para trás. Ela olhou para Garcez, ao seu lado, vestido de carta. Um valete. E o Paulo Branco estava ali também. Então, a Victória Vermelha apontou um dedo trêmulo na minha direção.
- Cortem-lhe a cabeça! – ela berrou. Garcez ergueu a pesada maça que segurava e girou-a na minha direção.
E eu acordei, é claro, respirando rapidamente.
- Maldito pesadelo recorrente. – murmurei, empurrando a versão especial de Alice no País das Maravilhas que eu ganhara anos atrás para o chão.









2 comentários:
Uhh,amei sua história *0* !!
Só queria entender o porque do comentário da criatura infeliz acima .3. ...
Ah, uau. Nosso primeiro Spammer justo na postagem da Losina. Finalmente, estamos famosos o suficiente para sermos Spammeados! Não me sinto muito limpo, mas ainda assim: Spammeados!
Postar um comentário