24 de dezembro de 2010

Os (Quase) Presentes de Natal

Levantei anormalmente bem disposta naquela manhã. Eu suspeito que tal comportamento foi motivado pelo estranho aviso que todos os colunistas receberam de “Não aparecer no escritório durante a véspera de Natal ou o próprio feriado”, logo, eu tinha a liberdade de trabalhar em casa. Como mandava o meu ritual matutino, tomei um breve café da manhã e arranquei uma folha do calendário pregado na parede da cozinha. Quando sentei para ligar o computador, sentia que havia esquecido algo. Voltei à cozinha e encarei o número vermelho no calendário.

24 de Dezembro. Soquei a parede com força, quase quebrando a mão direita e agonizando em seguida. Era véspera de Natal e eu não comprara presente algum para meus colegas. Corri até o quarto, abrindo a porta do guarda-roupa com tal violência que ela fora arrancada. Mas aquela não era a melhor hora para pensar em como repor a porta. Peguei um jeans qualquer, a bolsa e saí correndo para o estacionamento.

Girei a chave do New Beetle e tentei manobrá-lo para fora da vaga, até perceber que, mesmo pisando no acelerador meu carro não se movia. Encarei o painel do carro, confusa. Estava sem gasolina. Apertei o volante com força, cravando as unhas nele. Guarde essa energia vinda da irritação para fugir dos policiais que seguem seus colegas de trabalho, eu repeti para mim mesma cinco vezes.

Caminhei, um pouco sonolenta, a um ponto de táxi, entrando no primeiro táxi que apareceu sem dizer endereço qualquer. O homem – que parecia estranhamente familiar – me cumprimentou com a cabeça, fazendo o charuto sob seus lábios se mover juntamente.

- Para onde? – ele perguntou com um forte sotaque italiano.
- Para o shopping mais próximo, por favor.

Ele acenou positivamente com a cabeça, apagando o charuto. Encostei a cabeça contra o banco, fechando os olhos com força, ao mesmo tempo que uma sensação desagradável tomava conta do meu corpo. De repente eu me sentia flácida e cansada, além de respirar com dificuldade, até um pretensioso raio de luz incidir em direção ao meu rosto. Ah, calor infernal.

- Senhor?
- Sim?
- Por que não estamos nos mexendo?
- Engarrafamento.
- O senhor não tem ar condicionado estalado no seu veículo, não é?
- Não, não. – ele disse, enquanto estivava o pescoço para fora do veículo, a fim de ver até aonde o engarrafamento se estendia. – Mas tenho isso. – e ele tirou um pequeno ventilador portátil do porta-luvas, que cabia na minha mão, e o estendeu na minha direção.
- Obrigada. – eu agradeci, a suave e precária brisa refrescando o meu rosto. Tal alívio do calor durou exatos dois minutos e trinta e quatro segundos, pois o ventilador portátil funcionava a pilha, artigo sem estoque prévio no táxi do italiano não tão desconhecido.
- Senhora? – esse chamamento me fez parecer ter o triplo da minha idade e carregar uma bolsinha de crochê.
- Sim? – eu respondi fracamente, enxugando o suor da testa e me abanando com a palma da mão.

Ele parecia sem jeito de falar, então retirou do porta-luvas um leque e me entregou.

- Oh, obrigada.
- Na verdade, não era isso. – ele se remexeu desconfortavelmente no acento do motorista. – É a sua blusa.
- O que tem ela?
- Tem ursinhos carinhosos nela. – ele disse, após uma gesticulação exagerada e palavras em italiano que eu não fazia a mínima idéia do que significavam.

Olhei para o meu pijama, derrotada. Pela primeira vez na vida, eu tive vontade de me transformar em um animal naquele exato instante. Um avestruz ou uma joaninha, para ser mais exata. Caso fosse o primeiro, poderia enfiar a minha cabeça e parte do pijama no porta-luvas e esquecer o exterior opressor e terrivelmente quente. Já o segundo eu apenas bateria as asas vigorosamente em direção a um galho qualquer, desfrutando da sombra e do vento.

Percebendo que demoraria muito a chegar no local abarrotado de gente, paguei a breve corrida e fiz o resto to trajeto a pé, ignorando crianças que apontavam para mim acusadoramente. Foi só quando sentei em um banco, aproveitando ao máximo o ar condicionado local, que me dei conta de que não tinha uma listinha de presentes. Meti a mão no bolso da calça de jeans, pegando um bloquinho de anotações e uma caneta esferográfica. Para Júlia um caminhão daquelas bengalinhas de alcaçuz (que também estavam sendo vendidas na versão sabor chocolate). Para a Marina uma Glock 18, afinal, quem não gosta de mais uma arma na coleção? Para o Garcez uma garrafa de azeite de oliva italiano, porque ironia nunca é demais. Para o Antonelli, um pôster de três metros quadrados do Larry. Para o Biancardine um vale de “molho inglês de graça” por um ano.

Duas horas depois estava dentro do mesmo veículo de antes, abarrotada de sacolas (como eu consegui a arma dentro do shopping, bem, isso é história para outro conto). O italiano acendera outro cigarro e cantarolou alegremente durante a viagem de volta enquanto eu sofria desidratação. Paguei a corrida e sai em disparada para fora daquele maldito forno que se fantasiara de táxi. Subi as escadas – péssima hora para relembrar o trauma de elevador adquirido no trabalho – me sentindo muito mais leve do que o esperado. Limpei os pés no tapete de entrada e quando olhei para baixo senti meu estômago revirar. Não havia sacola alguma em minhas mãos. Desci as escadas e quase fui parar no meio da calçada tentando procurar o táxi do viciado em charutos supostamente cubanos, onde os presentes repousavam, inocentemente.

Telefonei para a empresa de táxi do italiano, mas o máximo que consegui foi “Por favor, ouça esse recado até o final, pois sua ligação é importante para nós” seguido de uma musiquinha irritante que lembrava uma versão distorcida do primeiro movimento de Eine Kleine Nachtmusik. Derrotada, voltei para casa e mandei uma mensagem aos meus colegas colunistas “Presentes de Natal só na próxima semana, com sorte. Mas se avistarem um taxista italiano fumando um charuto cubano, ataquem. P.S: Façam o que quiserem durante o feriado, só não tragam vodka para o meu apartamento e/ou não causem a explosão da minha cozinha. Novamente” .




Os presentes e uma tentativa de árvore de Natal

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Design by Contos de Bar | Modified by 1UP