Tossi com força contra um lenço de papel branco, depositando-o em seguida na lixeira da cozinha que eu trouxera para o quarto. Levantei sentindo todo o meu quarto girar e caminhei, os pés frios calçando apenas meias, já que o ato de usar algum sapato implicava abrir meu guarda-roupa e rezar para que algo saltasse de lá ou procurar embaixo da cama. Era esforço demais.
Arrastando os pés, fui até a sala tateando – pois esquecera totalmente o fato de estar sem óculos – em busca de mais lencinhos. Apanhei umas cinco caixas e coloquei-as do modo mais organizado que uma pessoa com febre e dores pelo corpo pode, ao lado do computador. Retornei ao quarto e peguei um cobertor azul-claro, um par de luvas e protetores de ouvido peludos. Voltei, sentei-me e respirei fundo. Precisava trabalhar.
Antes disso, no entanto, precisava assoar o nariz, o que fiz nove vezes em menos de dois minutos. Ainda com certa dificuldade respiratória, liguei o computador e verifiquei meus e-mails. Havia, estranhamente, um de Paulo. Tratei logo de abri-lo. À medida que lia, senti algo dentro do mim – que não tinha relação alguma com o chiado proveniente do meu peito – se revirava de um jeito ameaçador, indicando revolta. Meus olhos excessivamente lacrimejantes se fixaram na tela do computador, incrédulos.
Sem desviar o olhar, tateei ao redor da mesa, procurando pelo meu celular. Disquei um número qualquer e rapidamente fui atendida:
- Alô? Sim, é a Victória. Estou bem, obrigada por perguntar. Azeite de Oliva, devolva o celular para a Júlia. – tentei manter uma conversa amigável e lógica com a fuinha. – Porque se você devolver o celular a ela, vai ganhar um uniforme com seu nome bordado! - houve uma pausa para a queixa da fuinha. – Ótimo, eu mando bordar “General” Azeite de Oliva. Agora, seja uma boa fuinha e dê o telefone à colunista. – esperei minha amiga receber o celular. – Júlia? – tossi. – Venha para o meu apartamento antes que eu entre em coma visual. – não dei a chance dela me perguntar o que era coma visual. – Já aviso que eu seria muito grata caso trouxesse umas três caixinhas de lenços. – e desliguei, deixando-a um pouco confusa.
Poucos minutos depois, minha amiga de cabelo chanel estava ao lado do meu computador, com uma lupa e óculos de proteção. Ela se aproximou levemente da tela do computador, mas assim que o fez, se afastou, como se recebesse um choque.
- Meus olhos! – ela berrava, cobrindo os óculos de proteção com as mãos e rolando pelo chão da sala.
- Agora você entende porque fui tão breve durante a ligação. – minha voz foi entrecortada pelo som típico de tosse. – Paulo enlouqueceu ou resolveu se vingar dos colunistas, um por vez.Não há outra explicação possível.
- Victória...- Júlia se acomodou no sofá cheio de lencinhos e medicamentos espalhados, evitando qualquer tipo de contato visual com a tela. – Já pensou no fato de ele realmente estar pedindo que escreva uma coluna a respeito disso? – ela pronunciou a última palavra como se estivesse presenciando Carlito comer um sanduíche particularmente gorduroso.
- Sinceramente? Não.
- Bem, considere. – ela se permitiu uma risadinha. – E melhoras. – ela deixou uma barra de chocolate e os lenços no sofá e saiu correndo porta afora, sem mais explicações.
Fechei a porta e voltei para meu posto, abrindo mais uma caixinha e limpando o nariz e os olhos. Maldita gripe. Reli sobre o tema que meu editor pedira que eu abordasse na próxima, coluna, chocada:
- “Grupo Restart anuncia filme para o ano de 2011”. – suspirei e fui novamente em direção a cozinha, pegando uma garrafinha de água, completando o meu kit de sobrevivência que se espalhava ao redor do local de trabalho improvisado.
Percorri quase todos os cômodos do apartamento, repetidas vezes, em busca de idéias. Não queria ser extremista a ponto de escrever algo que fizesse os fãs daquela banda tacarem fogo ou coisa pior no escritório. Assim Paulo, que tinha de lidar com muitas pessoas com tendências piromaníacas, teria mais um item para adicionar a sua lista de “Motivos Plausíveis Para a Demissão do Cargo de Editor do Contos de Bar”. E encontrar um novo chefe era uma tarefa simplesmente problemática.
Teria que, de algum jeito, agradar a gregos e troianos. Quando percebi isso estava no banheiro, encarando o espelho e sem um artifício de madeira em forma de equino. Me aproximei do espelho, vendo a deplorável figura pálida, com as maças do rosto avermelhadas pelo estado febril, o cabelo escuro em total desalinho. Segurei o queixo com uma das mãos, ainda encarando meu reflexo. Dar uma chance ao inimigo, ao contrário do que aconteceu com os troianos, não faria com que a minha cidade fosse incendiada ou tivesse boa parte do exército morto. Provavelmente por eu não ter um exército particular e morar em uma cidade que tem um corpo de bombeiros eficiente, ou ainda por não eu viver em uma civilização mediterrânea no ano 1200 a.C.
Eu teria que ser flexível. Com o nariz encostado contra o espelho e agarrando as laterais dele, continuei a encarar minha figura, franzindo as sobrancelhas.
- Ninguém precisa saber disso. – eu disse, lentamente, para o meu reflexo. – Ninguém precisa saber disso. – tentei me convencer do que estava prestes a fazer.
Corri até sala e digitei – com muito pesar – as palavras que poderiam ser a motivo suficiente para cometer sepukku. Durante a procura, peguei um outro número de celular e entrei em contato com quem precisava para fazer aquela matéria. Dizendo que era uma questão de alto sigilo, informei meu endereço a uma garota de voz esganiçada. Ainda não totalmente certa do que acabara de fazer fui preparar um pouco de chá e me acomodei no sofá, esperando pelas minhas visitas.
Pouco tempo se passou até ouvir uma batida leve na porta, seguida de risadinhas abafadas que soavam como zumbidos de mosquito aos meus ouvidos. Abri a porta e recuei, pois um brilho multicolorido havia danificado – ainda mais – a minha visão. Baixei as mãos devagar, permitindo que meus olhos se adaptassem ao novo cenário de cores vivas e intensas. Avaliei as três figuras paradas diante do batente da porta desde o cadarço dos all star de cano alto bicolores, as meias listradas de preto, branco, azul e rosa, as calças de tom neon as blusas com mensagens anormalmente alegres positivas até os cabelos meio espetados, as franjas penteadas para o lado.
- Entrem, por favor. – foi o que consegui dizer com a garganta seca. Elas assim o fizeram, com mais risadinhas, porque, aparentemente, ser recepcionado por uma pessoa gripada era algo engraçado. Indiquei o sofá, relutante. – Como as apresentações já foram feitas via telefone, vamos direto ao assunto. – eu encarava a xícara de chá ao invés delas.
As duas horas seguintes foram preenchidas por mais risadinhas, ataques histéricos ao ouvir o nome de uma certa banda, longas explicações de porque aquele trio gostava tanto da referida banda, com direito a trechos aleatórios das músicas – que eu infeliz e vergonhosamente fora obrigada a cantar – e dicas para manter o visual sempre atualizado. Após a saída das “coloridas” e de uma árdua esterilização no apartamento, voltei a sentar no sofá, fazendo a xícara de chá nas minhas mãos, agora gelado, tremer.
Minhas dúvidas sobre uma possível tortura por parte do editor desaparecerem após essa “entrevista”. A mente frágil e facilmente atingível de Paulo estava completamente dominada por um sentimento de vingança e eu fora seu primeiro alvo. Procurei por algum consolo e vi o que Júlia deixara mais cedo na mesa: a barra de chocolate. Não rasguei a embalagem, fitei-a por um longo momento, tossindo ocasionalmente.
Um sentimento diferente do pavor de observar um arco-íris humano tomou conta de mim. Algo que me fazia respirar com dificuldade, estreitar os olhos escuros e trincar os dentes. Revirei a barra de chocolate entre os dedos, fechando os olhos e ouvindo o som do plástico da embalagem sendo levemente amassado. Com um meio sorriso, sentei sem dizer uma palavra sequer diante do computador e, em menos de meia hora, minha coluna estava pronta. Reli o texto, aquele sentimento pérfido crescendo. Era apenas uma questão de tempo.
No dia seguinte também não fui trabalhar, dada a gripe. Peguei o jornal deixado ao lado de fora do meu apartamento e liguei o computador, para confirmar os efeitos da minha coluna. Quase todos os jornais da cidade estampavam a mesma manchete, com algumas variantes, da frase: “Escritório de jornalismo é invadido por fãs de Restart” e como subtítulo “Coluna que elogiava a banda atraiu multidões de garotas trajando roupas multicoloridas para um escritório de jornalismo, causando uma ameaça de ataque cardíaco no editor”.
Ainda com o jornal em mãos, sorvi um gole de chá quente, sorrindo, os olhos faiscando perigosamente por detrás dos óculos de aros escuros. Vingança, doce vingança.
Arrastando os pés, fui até a sala tateando – pois esquecera totalmente o fato de estar sem óculos – em busca de mais lencinhos. Apanhei umas cinco caixas e coloquei-as do modo mais organizado que uma pessoa com febre e dores pelo corpo pode, ao lado do computador. Retornei ao quarto e peguei um cobertor azul-claro, um par de luvas e protetores de ouvido peludos. Voltei, sentei-me e respirei fundo. Precisava trabalhar.
Antes disso, no entanto, precisava assoar o nariz, o que fiz nove vezes em menos de dois minutos. Ainda com certa dificuldade respiratória, liguei o computador e verifiquei meus e-mails. Havia, estranhamente, um de Paulo. Tratei logo de abri-lo. À medida que lia, senti algo dentro do mim – que não tinha relação alguma com o chiado proveniente do meu peito – se revirava de um jeito ameaçador, indicando revolta. Meus olhos excessivamente lacrimejantes se fixaram na tela do computador, incrédulos.
Sem desviar o olhar, tateei ao redor da mesa, procurando pelo meu celular. Disquei um número qualquer e rapidamente fui atendida:
- Alô? Sim, é a Victória. Estou bem, obrigada por perguntar. Azeite de Oliva, devolva o celular para a Júlia. – tentei manter uma conversa amigável e lógica com a fuinha. – Porque se você devolver o celular a ela, vai ganhar um uniforme com seu nome bordado! - houve uma pausa para a queixa da fuinha. – Ótimo, eu mando bordar “General” Azeite de Oliva. Agora, seja uma boa fuinha e dê o telefone à colunista. – esperei minha amiga receber o celular. – Júlia? – tossi. – Venha para o meu apartamento antes que eu entre em coma visual. – não dei a chance dela me perguntar o que era coma visual. – Já aviso que eu seria muito grata caso trouxesse umas três caixinhas de lenços. – e desliguei, deixando-a um pouco confusa.
Poucos minutos depois, minha amiga de cabelo chanel estava ao lado do meu computador, com uma lupa e óculos de proteção. Ela se aproximou levemente da tela do computador, mas assim que o fez, se afastou, como se recebesse um choque.
- Meus olhos! – ela berrava, cobrindo os óculos de proteção com as mãos e rolando pelo chão da sala.
- Agora você entende porque fui tão breve durante a ligação. – minha voz foi entrecortada pelo som típico de tosse. – Paulo enlouqueceu ou resolveu se vingar dos colunistas, um por vez.Não há outra explicação possível.
- Victória...- Júlia se acomodou no sofá cheio de lencinhos e medicamentos espalhados, evitando qualquer tipo de contato visual com a tela. – Já pensou no fato de ele realmente estar pedindo que escreva uma coluna a respeito disso? – ela pronunciou a última palavra como se estivesse presenciando Carlito comer um sanduíche particularmente gorduroso.
- Sinceramente? Não.
- Bem, considere. – ela se permitiu uma risadinha. – E melhoras. – ela deixou uma barra de chocolate e os lenços no sofá e saiu correndo porta afora, sem mais explicações.
Fechei a porta e voltei para meu posto, abrindo mais uma caixinha e limpando o nariz e os olhos. Maldita gripe. Reli sobre o tema que meu editor pedira que eu abordasse na próxima, coluna, chocada:
- “Grupo Restart anuncia filme para o ano de 2011”. – suspirei e fui novamente em direção a cozinha, pegando uma garrafinha de água, completando o meu kit de sobrevivência que se espalhava ao redor do local de trabalho improvisado.
Percorri quase todos os cômodos do apartamento, repetidas vezes, em busca de idéias. Não queria ser extremista a ponto de escrever algo que fizesse os fãs daquela banda tacarem fogo ou coisa pior no escritório. Assim Paulo, que tinha de lidar com muitas pessoas com tendências piromaníacas, teria mais um item para adicionar a sua lista de “Motivos Plausíveis Para a Demissão do Cargo de Editor do Contos de Bar”. E encontrar um novo chefe era uma tarefa simplesmente problemática.
Teria que, de algum jeito, agradar a gregos e troianos. Quando percebi isso estava no banheiro, encarando o espelho e sem um artifício de madeira em forma de equino. Me aproximei do espelho, vendo a deplorável figura pálida, com as maças do rosto avermelhadas pelo estado febril, o cabelo escuro em total desalinho. Segurei o queixo com uma das mãos, ainda encarando meu reflexo. Dar uma chance ao inimigo, ao contrário do que aconteceu com os troianos, não faria com que a minha cidade fosse incendiada ou tivesse boa parte do exército morto. Provavelmente por eu não ter um exército particular e morar em uma cidade que tem um corpo de bombeiros eficiente, ou ainda por não eu viver em uma civilização mediterrânea no ano 1200 a.C.
Eu teria que ser flexível. Com o nariz encostado contra o espelho e agarrando as laterais dele, continuei a encarar minha figura, franzindo as sobrancelhas.
- Ninguém precisa saber disso. – eu disse, lentamente, para o meu reflexo. – Ninguém precisa saber disso. – tentei me convencer do que estava prestes a fazer.
Corri até sala e digitei – com muito pesar – as palavras que poderiam ser a motivo suficiente para cometer sepukku. Durante a procura, peguei um outro número de celular e entrei em contato com quem precisava para fazer aquela matéria. Dizendo que era uma questão de alto sigilo, informei meu endereço a uma garota de voz esganiçada. Ainda não totalmente certa do que acabara de fazer fui preparar um pouco de chá e me acomodei no sofá, esperando pelas minhas visitas.
Pouco tempo se passou até ouvir uma batida leve na porta, seguida de risadinhas abafadas que soavam como zumbidos de mosquito aos meus ouvidos. Abri a porta e recuei, pois um brilho multicolorido havia danificado – ainda mais – a minha visão. Baixei as mãos devagar, permitindo que meus olhos se adaptassem ao novo cenário de cores vivas e intensas. Avaliei as três figuras paradas diante do batente da porta desde o cadarço dos all star de cano alto bicolores, as meias listradas de preto, branco, azul e rosa, as calças de tom neon as blusas com mensagens anormalmente alegres positivas até os cabelos meio espetados, as franjas penteadas para o lado.
- Entrem, por favor. – foi o que consegui dizer com a garganta seca. Elas assim o fizeram, com mais risadinhas, porque, aparentemente, ser recepcionado por uma pessoa gripada era algo engraçado. Indiquei o sofá, relutante. – Como as apresentações já foram feitas via telefone, vamos direto ao assunto. – eu encarava a xícara de chá ao invés delas.
As duas horas seguintes foram preenchidas por mais risadinhas, ataques histéricos ao ouvir o nome de uma certa banda, longas explicações de porque aquele trio gostava tanto da referida banda, com direito a trechos aleatórios das músicas – que eu infeliz e vergonhosamente fora obrigada a cantar – e dicas para manter o visual sempre atualizado. Após a saída das “coloridas” e de uma árdua esterilização no apartamento, voltei a sentar no sofá, fazendo a xícara de chá nas minhas mãos, agora gelado, tremer.
Minhas dúvidas sobre uma possível tortura por parte do editor desaparecerem após essa “entrevista”. A mente frágil e facilmente atingível de Paulo estava completamente dominada por um sentimento de vingança e eu fora seu primeiro alvo. Procurei por algum consolo e vi o que Júlia deixara mais cedo na mesa: a barra de chocolate. Não rasguei a embalagem, fitei-a por um longo momento, tossindo ocasionalmente.
Um sentimento diferente do pavor de observar um arco-íris humano tomou conta de mim. Algo que me fazia respirar com dificuldade, estreitar os olhos escuros e trincar os dentes. Revirei a barra de chocolate entre os dedos, fechando os olhos e ouvindo o som do plástico da embalagem sendo levemente amassado. Com um meio sorriso, sentei sem dizer uma palavra sequer diante do computador e, em menos de meia hora, minha coluna estava pronta. Reli o texto, aquele sentimento pérfido crescendo. Era apenas uma questão de tempo.
No dia seguinte também não fui trabalhar, dada a gripe. Peguei o jornal deixado ao lado de fora do meu apartamento e liguei o computador, para confirmar os efeitos da minha coluna. Quase todos os jornais da cidade estampavam a mesma manchete, com algumas variantes, da frase: “Escritório de jornalismo é invadido por fãs de Restart” e como subtítulo “Coluna que elogiava a banda atraiu multidões de garotas trajando roupas multicoloridas para um escritório de jornalismo, causando uma ameaça de ataque cardíaco no editor”.
Ainda com o jornal em mãos, sorvi um gole de chá quente, sorrindo, os olhos faiscando perigosamente por detrás dos óculos de aros escuros. Vingança, doce vingança.

O all star multicolorido








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