9 de dezembro de 2010

A Noite em que o Apocalipse Zumbi Quase Começou

Era para ser apenas uma noite comum, quando tudo começou... Perdão, eu disse comum? Eu quis dizer “era para ser apenas mais uma noite envolvendo lhamas, incêndios, mesas quebradas e malucos pelados no escritório do Contos de Bar”.

Dutra e Losina haviam acabado de sair para voltarem para suas respectivas casas, e o dia se dava por encerrado. Garcez e sua fuinha falante já haviam ido dormir no escritório do nosso editor, Rocha estava próxima à janela em sua penumbra aproveitando uma garrafa de vodka, e eu estava colocando Larry para dormir na cama de casal posicionada ao lado da minha mesa, aonde eu dormia.

Foi então que tudo começou.

- Gente! Gente! Ai meu Deus!! – Losina entrou desesperada quase derrubando a porta do escritório, pouco depois de ter se despedido de todos e saído junto com a Dutra – Socorro!! Eu... Nós... A Victória... Ai meu Deus!!

Todos nos levantamos assustados, até Larry se levantou, mas sendo uma alpaca que não entende nossa língua ele parecia alheio ao desespero da garota loira de cabelo chanél e mais preocupado com suas necessidades fisiológicas.

- Por Jah, guria. Quantos pirulitos de êxtase você chupou dessa vez? – disse Rocha, irritada por ter se assustado e derrubado vodka na sua mesa.
- Três. – respondeu - Mas isso não vem ao caso! O que acontece é que algo estranho e terrivelmente improvável acabou de acontecer! E agora eu não sei o quê aconteceu com a Dutra!! – ela começou a chorar.

Certo, a Losina pode ser uma garota extremamente instável, principalmente quando sob efeito de êxtase, mas ela parecia realmente encrencada e ainda por cima estava chorando, claro que eu não podia ignorar isso...

- Deixa a gente dormir, porra. – vociferei. Não se esqueçam que acima de qualquer pessoa, eu valorizo o meu sono. Fico ignorante e alheio a qualquer coisa ou pessoa quando quero dormir.
- M-m-mas... Isso é sério! Gente!! Por favor! – ela ficava mais desesperada a cada segundo. É, parecia que minha noite de sono estava perdida.
- Eu acho que todos aqui devemos mostrar um pouco de caridade, ouvir o que a nossa colega açucarada tem a dizer, e tentar ajudá-la da melhor forma que pudermos como os seres inteligentes e sociáveis que somos, sem medir esforços. – disse ninguém menos que Azeite de Oliva, a fuinha de estimação do Garcez.

Quando um grupo de pessoas recebe uma lição de moral de uma fuinha vestida como o Napoleão, a tendência é todos ficarem em silêncio e refletirem sobre si mesmos. O caso é que eu queria resolver logo tudo isso e deitar debaixo da minha mesa, então quebrei o silêncio:
- A fuinha tá certa. O que aconteceu, Júlia?
- E-eu nem sei como dizer, mas... Mas... – ela tomou fôlego, enxugou as lágrimas e terminou a frase, seriamente – Eu acho que estamos presenciando o começo do Apocalipse Zumbi.

Silêncio.

- Apocalipse Zumbi? Como assim, minha filha? Você andou fumando a folhinha também? – perguntou Rocha, cética.
- Eu falo sério, gente! Estávamos descendo as escadas, já que a Victória tem medo de ficar presa no elevador uma terceira vez... Quando chegamos ao 4º andar... Foi terrível! O Carlito, aquele gordo mexicano ou sei lá de onde ele é, veio andando em nossa direção... Ele estava esquisito e achamos que ele estava brincando, até que ele disparou em nossa direção fazendo sons estranhos e... e... e... Eu corri, subi as escadas de novo enquanto a Dutra correu pelo corredor, e acho que ele foi atrás dela! Ele babava e parecia querer nos morder! Foi assustador!!!
- Calminha aí. – disse Rocha – Você não pode estar insinuando que isso possa ser realmente o começo de um...
- Apocalipse Zumbi. – disse Garcez, abrindo a porta da sala do nosso editor onde ele estava, surgindo na conversa – Eu sempre soube que esse dia chegaria. Temos que agir rapidamente, enquanto são poucos. Cada minuto perdido tornará nossa fuga mais difícil.
- Fuga? – exaltou-se Losina – Temos que resgatar a Victória antes! Não saio do prédio sem ela!
- Resgates em filmes de terror são uma péssima idéia... – observei.
- Você não está acreditando que realmente tem um zumbi no prédio, está? – perguntou Rocha, ainda incrédula.
- Marina, minha cara... – disse, calmamente – Se esqueceu da primeira regra de sobrevivência que aprendemos no Iraque?
- Agir de acordo com a pior situação possível, assumindo que não se deve subestimar nenhuma possibilidade...
- Exatamente. É isso que estou fazendo aqui.
- Que bom que estão todos felizes e flurbulhantes! – comentou a fuinha, sem fazer o menor sentido.

As ruas de uma cidade ficam rapidamente infestadas.

Garcez se dirigiu até o armário de bebidas, começando a tirar todas as garrafas de dentro dele. Após esvaziar todas as prateleiras, retirou-as também, deixando o armário completamente vazio. Então, posicionando as mãos sobre o fundo do armário, retirou-o também: um fundo falso.

- O que você guarda aí dentro? – perguntou a Losina, assustada.
- Eu não durmo em um lugar sem antes prepará-lo para uma situação dessas. – ele começou a retirar equipamentos de um buraco na parede, provavelmente feito sem que o nosso editor tivesse conhecimento disso. Retirou algumas lanternas, uma pá, um taco de baseball com um prego enferrujado na ponta e o mais impressionante: um fuzil automático AK-47.
- Wow...! Posso ficar com a pá? – perguntei.
- Toma. Agora, cada um fique com uma lanterna. Eu não me incomodo de ficar com taco, me dou bem com ele. Quanto ao fuzil... A Rocha já tem o revólver dela, então vou deixar com a Losina.
- Espera aí! – disse ela – E-eu não sei atirar com uma coisa dessas...!
- Ótimo! – disse a fuinha, pulando em direção ao Garcez – Nesse caso, é mais sábio que eu fique com o fuzil, uma vez que já fiz aulas de tiro e sou fluente em 7 idiomas!
- Espera aí! – repetiu Losina – A fuinha está dizendo que é mais adequada do que eu para carregar um fuzil?
- Quem você está chamando de “fuinha”? – disse a fuinha vestida de Napoleão, pegando o rifle, carregando o cofre à frente do guarda-mato, puxando o ferrolho e destravando a arma com um estalo – É General Azeite de Oliva, para a senhorita.
- Ok... O que sobrou aí pra mim? – disse Losina, derrotada.
- Você pode carregar nossas coisas. – ofereceu o animal.
- Quem sou eu para discutir com uma fuinha.
- Caham.
- Digo... Sim senhor, General!

Gen. Azeite de Oliva, em seu habitat natural.

Estávamos armados e preparados. Eu montado no Larry, empunhando minha pá como um imponente cavaleiro medieval, o Garcez com seu taco de baseball logo a minha frente, Marina ao fundo com o revólver e a lanterna apontados para frente, Losina carregando nossas mochilas e salgadinhos, e nos liderando estava o destemido Azeite de Oliva. Garcez ia abrir a porta para começarmos nossa aventura quando Dutra irrompeu pela mesma, assustando a todos e fazendo com que nós apontássemos as armas uns para os outros.

- Pessoal? O que é tudo isso? – perguntou ela, estranhando os armamentos.
- Victória! – Losina tinha lágrimas nos olhos, não de emoção, mas pelo susto da porta se abrindo – Você está viva!! - ela ia se dirigir à sua amiga, mas Garcez colocou o taco na frente impedindo-a que passasse.
- Esperem. Ela pode ter sido mordida. – silêncio e suspeitas tomaram conta do local.
- "Mordida"? "Estou viva"? O quê está acontecendo, gente? – Dutra parecia confusa, mas isso podia ser a febre zumbi começando a atacar.
- Voto por atirarmos nela antes que se transforme. – sugeriu Rocha.
- QUÊ?? – berrou Dutra.
- Nós fazemos as perguntas aqui, mocinha! – disse a fuinha, apontando a AK-47 para ela – Você foi mordida, sim ou não!?
- M-mordida?? Do quê diabos essa fuinha está falando?
- Dos zumbis, mas é claro! – disse a Losina, chorando pela possibilidade de sua amiga ser um “deles” – Agora responda, por favor, Victória!
- Hola. – Carlito apareceu logo atrás da Dutra, com uma baguete em mãos.
- AAAHH! – gritamos em uníssono, nos posicionando na defensiva novamente. Rocha deu alguns tiros, mas sua mira desprivilegiada só destruiu o batente da porta.
- En nombre de Nuestra Señora Madre de Jesús! ¿Qué esto? – disse o mexicano, após ter se jogado no chão e se urinado.
- Os zumbis são inteligentes e falam? Impossível! – disse Garcez.
- Temos uma fuinha inteligente que fala, e você me diz que isso é impossível? Atirem nesse zumbi de merda! – berrou Rocha.
- Se ele é um zumbi então isso é uma baguete de carne humana?! Isso é terrível! – eu disse, horrorizado.
- Da onde vocês tiraram toda essa estória de zumbis, afinal de contas? – berrou Dutra.
- Nós vimos, Victória! – disse Losina – O Carlito veio correndo em nossa direção, tentando nos morder!
- Você quer dizer, ele veio cambaleando desnutrido em nossa direção, depois que o Antonelli esqueceu de alimentá-lo! – respondeu Dutra, nervosa.
- Esqueci? – perguntei.
- Mas ele tentava nos morder e então nós corremos e...! – Losina tentou justificar.
- Você quer dizer: VOCÊ correu. Eu te chamei de volta para me ajudar a ajudá-lo, mas tudo que você fazia era correr e gritar “Zumbis! Zumbis!”.
- Mas esse louco quase me mordeu! – protestou.
- Lo siento, señorita. Fico fuera de mí cuando tengo hambre. – desculpou-se Carlito.
- “Hambre”? – nos entreolhamos.
- Fome. – respondeu a fuinha.
- Então... É isso? – perguntei, decepcionado.
- Parece que sim. – disse o Garcez, encarando culposamente a Losina.
- Bem, caso encerrado. – anunciou Rocha – Agora vamos ficar bêbados.
- Essa foi a melhor idéia que eu ouvi a noite toda. - concordei.
- Podemos jogar Strip Poker! - sugeriu a fuinha.


Tudo acaba bem quando se tem vodka: Sem lembranças, sem ressentimentos.

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