Dutra e Losina haviam acabado de sair para voltarem para suas respectivas casas, e o dia se dava por encerrado. Garcez e sua fuinha falante já haviam ido dormir no escritório do nosso editor, Rocha estava próxima à janela em sua penumbra aproveitando uma garrafa de vodka, e eu estava colocando Larry para dormir na cama de casal posicionada ao lado da minha mesa, aonde eu dormia.
Foi então que tudo começou.
- Gente! Gente! Ai meu Deus!! – Losina entrou desesperada quase derrubando a porta do escritório, pouco depois de ter se despedido de todos e saído junto com a Dutra – Socorro!! Eu... Nós... A Victória... Ai meu Deus!!
Todos nos levantamos assustados, até Larry se levantou, mas sendo uma alpaca que não entende nossa língua ele parecia alheio ao desespero da garota loira de cabelo chanél e mais preocupado com suas necessidades fisiológicas.
- Por Jah, guria. Quantos pirulitos de êxtase você chupou dessa vez? – disse Rocha, irritada por ter se assustado e derrubado vodka na sua mesa.
- Três. – respondeu - Mas isso não vem ao caso! O que acontece é que algo estranho e terrivelmente improvável acabou de acontecer! E agora eu não sei o quê aconteceu com a Dutra!! – ela começou a chorar.
Certo, a Losina pode ser uma garota extremamente instável, principalmente quando sob efeito de êxtase, mas ela parecia realmente encrencada e ainda por cima estava chorando, claro que eu não podia ignorar isso...
- Deixa a gente dormir, porra. – vociferei. Não se esqueçam que acima de qualquer pessoa, eu valorizo o meu sono. Fico ignorante e alheio a qualquer coisa ou pessoa quando quero dormir.
- M-m-mas... Isso é sério! Gente!! Por favor! – ela ficava mais desesperada a cada segundo. É, parecia que minha noite de sono estava perdida.
- Eu acho que todos aqui devemos mostrar um pouco de caridade, ouvir o que a nossa colega açucarada tem a dizer, e tentar ajudá-la da melhor forma que pudermos como os seres inteligentes e sociáveis que somos, sem medir esforços. – disse ninguém menos que Azeite de Oliva, a fuinha de estimação do Garcez.
Quando um grupo de pessoas recebe uma lição de moral de uma fuinha vestida como o Napoleão, a tendência é todos ficarem em silêncio e refletirem sobre si mesmos. O caso é que eu queria resolver logo tudo isso e deitar debaixo da minha mesa, então quebrei o silêncio:
- A fuinha tá certa. O que aconteceu, Júlia?
- E-eu nem sei como dizer, mas... Mas... – ela tomou fôlego, enxugou as lágrimas e terminou a frase, seriamente – Eu acho que estamos presenciando o começo do Apocalipse Zumbi.
Silêncio.
- Apocalipse Zumbi? Como assim, minha filha? Você andou fumando a folhinha também? – perguntou Rocha, cética.
- Eu falo sério, gente! Estávamos descendo as escadas, já que a Victória tem medo de ficar presa no elevador uma terceira vez... Quando chegamos ao 4º andar... Foi terrível! O Carlito, aquele gordo mexicano ou sei lá de onde ele é, veio andando em nossa direção... Ele estava esquisito e achamos que ele estava brincando, até que ele disparou em nossa direção fazendo sons estranhos e... e... e... Eu corri, subi as escadas de novo enquanto a Dutra correu pelo corredor, e acho que ele foi atrás dela! Ele babava e parecia querer nos morder! Foi assustador!!!
- Calminha aí. – disse Rocha – Você não pode estar insinuando que isso possa ser realmente o começo de um...
- Apocalipse Zumbi. – disse Garcez, abrindo a porta da sala do nosso editor onde ele estava, surgindo na conversa – Eu sempre soube que esse dia chegaria. Temos que agir rapidamente, enquanto são poucos. Cada minuto perdido tornará nossa fuga mais difícil.
- Fuga? – exaltou-se Losina – Temos que resgatar a Victória antes! Não saio do prédio sem ela!
- Resgates em filmes de terror são uma péssima idéia... – observei.
- Você não está acreditando que realmente tem um zumbi no prédio, está? – perguntou Rocha, ainda incrédula.
- Marina, minha cara... – disse, calmamente – Se esqueceu da primeira regra de sobrevivência que aprendemos no Iraque?
- Agir de acordo com a pior situação possível, assumindo que não se deve subestimar nenhuma possibilidade...
- Exatamente. É isso que estou fazendo aqui.
- Que bom que estão todos felizes e flurbulhantes! – comentou a fuinha, sem fazer o menor sentido.
Garcez se dirigiu até o armário de bebidas, começando a tirar todas as garrafas de dentro dele. Após esvaziar todas as prateleiras, retirou-as também, deixando o armário completamente vazio. Então, posicionando as mãos sobre o fundo do armário, retirou-o também: um fundo falso.
- O que você guarda aí dentro? – perguntou a Losina, assustada.
- Eu não durmo em um lugar sem antes prepará-lo para uma situação dessas. – ele começou a retirar equipamentos de um buraco na parede, provavelmente feito sem que o nosso editor tivesse conhecimento disso. Retirou algumas lanternas, uma pá, um taco de baseball com um prego enferrujado na ponta e o mais impressionante: um fuzil automático AK-47.
- Wow...! Posso ficar com a pá? – perguntei.
- Toma. Agora, cada um fique com uma lanterna. Eu não me incomodo de ficar com taco, me dou bem com ele. Quanto ao fuzil... A Rocha já tem o revólver dela, então vou deixar com a Losina.
- Espera aí! – disse ela – E-eu não sei atirar com uma coisa dessas...!
- Ótimo! – disse a fuinha, pulando em direção ao Garcez – Nesse caso, é mais sábio que eu fique com o fuzil, uma vez que já fiz aulas de tiro e sou fluente em 7 idiomas!
- Espera aí! – repetiu Losina – A fuinha está dizendo que é mais adequada do que eu para carregar um fuzil?
- Quem você está chamando de “fuinha”? – disse a fuinha vestida de Napoleão, pegando o rifle, carregando o cofre à frente do guarda-mato, puxando o ferrolho e destravando a arma com um estalo – É General Azeite de Oliva, para a senhorita.
- Ok... O que sobrou aí pra mim? – disse Losina, derrotada.
- Você pode carregar nossas coisas. – ofereceu o animal.
- Quem sou eu para discutir com uma fuinha.
- Caham.
- Digo... Sim senhor, General!
Estávamos armados e preparados. Eu montado no Larry, empunhando minha pá como um imponente cavaleiro medieval, o Garcez com seu taco de baseball logo a minha frente, Marina ao fundo com o revólver e a lanterna apontados para frente, Losina carregando nossas mochilas e salgadinhos, e nos liderando estava o destemido Azeite de Oliva. Garcez ia abrir a porta para começarmos nossa aventura quando Dutra irrompeu pela mesma, assustando a todos e fazendo com que nós apontássemos as armas uns para os outros.
- Pessoal? O que é tudo isso? – perguntou ela, estranhando os armamentos.
- Victória! – Losina tinha lágrimas nos olhos, não de emoção, mas pelo susto da porta se abrindo – Você está viva!! - ela ia se dirigir à sua amiga, mas Garcez colocou o taco na frente impedindo-a que passasse.
- Esperem. Ela pode ter sido mordida. – silêncio e suspeitas tomaram conta do local.
- "Mordida"? "Estou viva"? O quê está acontecendo, gente? – Dutra parecia confusa, mas isso podia ser a febre zumbi começando a atacar.
- Voto por atirarmos nela antes que se transforme. – sugeriu Rocha.
- QUÊ?? – berrou Dutra.
- Nós fazemos as perguntas aqui, mocinha! – disse a fuinha, apontando a AK-47 para ela – Você foi mordida, sim ou não!?
- M-mordida?? Do quê diabos essa fuinha está falando?
- Dos zumbis, mas é claro! – disse a Losina, chorando pela possibilidade de sua amiga ser um “deles” – Agora responda, por favor, Victória!
- Hola. – Carlito apareceu logo atrás da Dutra, com uma baguete em mãos.
- AAAHH! – gritamos em uníssono, nos posicionando na defensiva novamente. Rocha deu alguns tiros, mas sua mira desprivilegiada só destruiu o batente da porta.
- En nombre de Nuestra Señora Madre de Jesús! ¿Qué esto? – disse o mexicano, após ter se jogado no chão e se urinado.
- Os zumbis são inteligentes e falam? Impossível! – disse Garcez.
- Temos uma fuinha inteligente que fala, e você me diz que isso é impossível? Atirem nesse zumbi de merda! – berrou Rocha.
- Se ele é um zumbi então isso é uma baguete de carne humana?! Isso é terrível! – eu disse, horrorizado.
- Da onde vocês tiraram toda essa estória de zumbis, afinal de contas? – berrou Dutra.
- Nós vimos, Victória! – disse Losina – O Carlito veio correndo em nossa direção, tentando nos morder!
- Você quer dizer, ele veio cambaleando desnutrido em nossa direção, depois que o Antonelli esqueceu de alimentá-lo! – respondeu Dutra, nervosa.
- Esqueci? – perguntei.
- Mas ele tentava nos morder e então nós corremos e...! – Losina tentou justificar.
- Você quer dizer: VOCÊ correu. Eu te chamei de volta para me ajudar a ajudá-lo, mas tudo que você fazia era correr e gritar “Zumbis! Zumbis!”.
- Mas esse louco quase me mordeu! – protestou.
- Lo siento, señorita. Fico fuera de mí cuando tengo hambre. – desculpou-se Carlito.
- “Hambre”? – nos entreolhamos.
- Fome. – respondeu a fuinha.
- Então... É isso? – perguntei, decepcionado.
- Parece que sim. – disse o Garcez, encarando culposamente a Losina.
- Bem, caso encerrado. – anunciou Rocha – Agora vamos ficar bêbados.
- Essa foi a melhor idéia que eu ouvi a noite toda. - concordei.
- Podemos jogar Strip Poker! - sugeriu a fuinha.









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