- E foi assim que tudo aconteceu. – conclui tragicamente, secando uma lágrima solitária. – Entendeu, Sra. Zebra? – ela não me respondeu. Continuou a me fitar idiotamente com seus dois olhos grandes e negros. Dei de ombros e me afastei.
Havia faltado luz em casa. Sem computador ou videogame, eu havia resolvido sair de casa e vim parar no zoológico de um jeito muito estranho. Talvez tivesse algo a ver com andar no teto de carros. Mas o caso era que eu estava ali.Parei na frente de uma jaula que continha um urso. Ele estava simplesmente ali, deitado no chão, seu cesto de frutas intocado. Bem parecido comigo em casa, sem luz. Senti pena do urso.
- Ei, garoto – chamei-o. Ele levantou os olhos, seguindo o som da minha voz. – Tudo bem aí? – ele sacudiu a cabeça, como se dissesse não. Levantei minha sobrancelha. – Você me entende? – ele acenou, dando a entender que sim. Arregalei meus olhos. – Oh. Nossa. – ele pareceu sorrir e se aproximou bamboleando da grade. – Você quer sair daí?
- Sim – ele rosnou. Pulei para trás. Não esperava que falasse também. E o pior era que a voz me parecia conhecida. Mas eu nunca havia falado com um urso. – Me liberte, humana! – humana. Estranho ser classificada assim.
- Calma, meu bem. Para onde você vai se eu soltá-lo? Sabe, estamos no meio de uma cidade grande. A natureza não o aguarda lá fora. – cruzei meus braços, encarando-o. Ele bufou. – Tudo bem, tudo bem, calma. Vamos ver. Você não consegue arrebentar as grades?
- Eu nunca tentei, na verdade – ele falou, após uma leve hesitação.
- Ótimo. Fuja.
- Eu posso não conseguir – ele disse lentamente. Dei de ombros.
- Mas pode tentar. Vamos, ande logo. Confio em você. – ele me olhou de canto, desconfiado. Sorri. – Não me olhe assim. O que posso fazer contra um urso tão grande e forte? – ri de leve. Meu olhar foi atraído para um ponto atrás do urso. Demorei um tempo para entender. Cambaleei e fui dois passos para trás. E o urso me olhando.
- O que houve? – ele perguntou.
- Oh. – suspirei. – Você não é um urso!
Existem certos momentos na vida onde nada mais importa. São momentos raros, se você tiver uma vida comum, mas para os colunista do Contos de Bar, eram praticamente todos. Então, considerei o fato “ser perseguida por um urso enlouquecido falante num zoológico vazio” como sendo um altamente comum para mim, logo, um momento onde nada mais importa.
Por isso saí correndo aos berros.
Agora imagina ele te seguindo
Ela se abriu tão facilmente que caí e saí rolando. Gritei de susto e me levantei rapidamente, a adrenalina me impulsionando. Derrubei uma lixeira, e um som surdo me indicou que o urso, estúpido urso, havia tropeçado nela. Uma risada histérica subiu pela minha garganta e escapou antes que eu pudesse me conter.
E então eu caí. Não havia tropeçado nem nada, e nem foram minhas pernas que desistiram de se mover. Fui empurrada delicadamente para frente e simplesmente caí. Me estiquei no chão, sem forças nem para soluçar.
E então ouvi uma risada. Um animal pequeno andava nas minhas costas, com uma lentidão agonizante.
- Você tinha que ter visto a sua cara! – disse a voz do urso, e eu subitamente me lembrei de onde tinha ouvido-a. Respirei fundo duas vezes, reunindo forças. E então me virei e agarrei o gato pelo pescoço.
- PORRA, MIKE – berrei, e joguei-o contra uma parede, onde ele bateu pateticamente e se levantou sibilando. – Gato do inferno. – ele me olhou, parecendo pasmo, e então começou a rir. – Volte para lá, maldito.
- Não posso. – ele suspirou, se sentando e lambendo uma das patinhas fofas. – Estou preso aqui agora. Graças a vocês. Preciso esperar suas almas.
- Que merda hein. – falei, respirando lentamente. Ele pareceu dar de ombros, mas era difícil dizer daquela distância e no escuro.
- Ah. Se eu fosse você, iria embora agora. A polícia está entrando no zoológico agora.
- MERDA – gritei, me levantando e caindo em seguida. Agora sim minhas pernas falhavam. – Por que não me avisou antes? – ele se afastou sem me responder, rindo baixinho. – Ei, volte aqui! Seu gato sacana!
E foi assim que eu fui presa por invasão de propriedade pública. Na ida para a prisão, vi a minha casa do carro. E a luz tinha voltado, e Mike estava sentado nos degraus, me encarando com seus olhos amarelos de gato.









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