Ignorei o chamado e rolei na grama. Me cobri com a pele quentinha de um simpático urso que havia passado ali mais cedo e se oferecido para o abate.
- Rocha! – Um sapo coaxou na beira da lagoa que havia há poucos metros de onde eu dormia, pulando mais pra perto. Bati em sua cabeça, ainda sonolenta, enquanto ele se programava no modo “soneca”.
- Rocha, caralho! Acorda, filha da puta! – Um veado grande e carrancudo me deu um coice, vindo da mata, fumando a porra de um cigarro. Rolei violentamente pelo chão e bati a cabeça numa pedra.
- Você tá viva, criatura? – O veado se aproximou e me cutucou com uma vareta. Inalei o mais puro cheiro de nicotina, e lembrei do meu gato, Mike. Que na verdade era o próprio diabo no corpo de um siamês, que havia comprado minha alma em troca de cigarros.
Esfreguei os olhos e percebi que eu na verdade estava sentada. E o que me encarava não era o veado animal, e sim outro tipo de veado. Era o Biancardine, um de meus colegas de serviço. E o coice, percebi alguns segundos de dor depois, fora na verdade, um tiro em minha perna.
- QUE PORRA É ESSA?! – Acordei num pulo e caí drasticamente no chão, sentindo uma dor desgraçada em minha perna esquerda, enquanto manchava o assoalho de vermelho.
- Você estava na minha mesa. – O Bianca, que era como eu gostava de chamar aquele puto carinhosamente, sentou-se na cadeira onde eu me encontrava antes de me estatelar, botou os pés para cima e acendeu um cigarro.
- Vá tomar no meio do seu cú, veado de merda! – Gritei pra ele, procurando meu revólver no bolso de meu sobretudo, para revidar, mas tudo o que eu tinha em mãos era um par de calças. Respirei fundo. Aquilo não podia ser nada bom.
- Você está na MINHA mesa, Biancardine! – O Paulo, nosso editor, se pronunciou, amarrado num canto da sala, sem a porra das calças.
- Calada, vadia! Ninguém interrompe meu exercício matinal. – O veado fumante respondeu.
- Que droga de exercício?! Levantamento de pênis?! – Paulo se exaltou. Ele tinha razão. Ele estava sem calças, sabem? Eu tinha levado um tiro na perna, mas pelo menos estava vestida.
- Não, seu tolinho. Eu tenho viagra para isso. Meu exercício de tortura matinal. Já posso riscar atirar em alguém e despir meu editor da minha lista de coisas a fazer hoje. – Ele correu o dedo num papel, deu algumas risadas amareladas e o riscou.
- Isso é a porra de um papel higiênico, seu estúpido. – Eu o amaldiçoei, tentando me apoiar na mesa para levantar.
- Hei, esse é o MEU papel higiênico!! – O Garcez, outro colega colunista que trabalha comigo, apareceu. Nu, deixe-me dizer. – E essa é a minha casa!!
- É o MEU escritório, seus maníacos! – O editor gritou no canto, tentando se libertar das cordas.
- Calem todos a boca, é uma ordem! – Uma fuinha falante saiu do bolso das calças que eu segurava, vestida de Napoleão. – Vocês são todos MEUS escravos agora!
Isto, meus amigos evoluídos dos primatas com polegares opositores que sabem ler (entenda-se: leitores), é a pausa e a deixa perfeita para o típico e embaraçante... Silêncio constrangedor.
- Mas que merda está acontecendo aqui?! – As garotas que trabalham conosco, Júlia Losina e Victória Dutra encostaram-se na porta, espantadas.
- Eu estou cercada de idiotas filhos da puta!! – Respondi, desistindo de me levantar e me arrastando até a porta, deixando um rastro de sangue atrás de mim.
- Ei, não fale assim com seu chefe! – Paulo, o editor semi nu gritou do canto, ainda amarrado.
- Nem com o cara bêbado e armado que atirou em você. – Biancardine deu mais uma tragada.
- Não grita comigo, eu tenho uma fuinha! – O Garcez choramingou, nu.
- Mostre mais respeito com seu superior e escravizador, mulher! – A fuinha levantou um palito de dente no ar, ameaçadora.
- Vão todos tomar em seus respectivos cús, bando de escrotos! – Consegui chegar até a porta, enquanto a Dutra me ajudava a levantar, e a Losina fazia um curativo provisório em meu ferimento.
- Justo. – O Garcez anunciou, chamando toda a atenção da sala para ele. O que foi extremamente inadequado e nojento, por que o infeliz estava nu. E segurava uma britadeira.
- Paulo, vire-se. – O Biancardine levantou-se.
- Me tirem daqui, por favor!! – Implorei para as garotas, que me ajudaram a descer as escadas tão rápido quanto um gordinho entupido de laxante, curry e feijoada precisando evacuar.
- Nããããããoooooo!!!! – Paulo, o pobre e vitimado editor, gritou tragicamente. As cenas seguintes do possível estupro por uma fuinha, um bêbado e um cara nu com uma britadeira são tão intensas, que sinto-me prestes a ir para a cadeia por violação de integridade alheia só de tocar no assunto. Ou com vontade de atirar na minha própria cabeça.
As garotas levaram-me ao hospital, fui operada, retiraram a bala de minha perna, colocaram uma pequena prótese em minha coxa, e me costuraram de volta. Fiz tudo isso sem a porra de uma anestesia. Mas eu só fiquei sabendo disso horas depois. É que eu havia enchido a cara no caminho, e apaguei de medo assim que o enfermeiro me colocou no soro. Eu posso enfrentar o puto do diabo, levar uma droga de um tiro na perna, matar policiais a sangue frio e tocar fogo sem remorso... Mas eu tremo de medo de agulhas. É. Vão se foder vocês que um dia me denunciaram por achar que eu injetava, otários.
Naquela noite, acordei em meu trailer com uma ressaca do caralho. Como sempre.
Senti uma pequena pressão em minha perna ferida e gemi baixinho de dor. Com gemer baixinho entenda-se atirar aleatoriamente amaldiçoando minha péssima pontaria, enquanto eu fazia mais alguns buracos no teto de meu trailer. Antonelli, outro de meus colegas de serviço, levantou-se detrás do banco de motorista.
- QUE DIABO DEU EM VOCÊ?!
- Hei, não me envolvam nessa palhaçada. – Meu gato saiu de cima de minha perna, aliviando a leve e diabólica pressão que estava exercendo.
- Porra, Mike! Isso dói! – Reclamei, me sentando na cama.
- Sabe o que dói? Estar preso a vocês, seus vermes, até que morram. – Ele pronunciou amorosamente, nos fritando com o calor do inferno em seu olhar.
- Me vê meu maço de cigarros e vai pra sua caminha, gato malvado. – Tirei um sarro da cara do capeta, que me deu meus cigarros e cuspiu ácido sulfúrico no chão, todo bravinho. Uma gracinha de demônio, esse meu gato.
- Ainda está doendo? – Antonelli se aproximou, preocupado.
- Nah, o desprezo dessa bicha infernal já não fere mais meus sentimentos. – E olhei com escárnio pro bichano, levando um cigarro à boca e puxando uma garrafa de vodka pra perto.
- Eu quis dizer o tiro, Marina.
- Ah, isso. Não sei, me pergunte quando o efeito do álcool passar. – E virei um novo e refrescante gole de vodka, começando a voltar para meus campos de flores e animaizinhos novamente.
- Ou seja, nunca. – Ele revirou os olhos e sentou-se ao meu lado, passando uma de suas mãos por minhas costas e apoiando a mão em meu ombro, impedindo que eu me jogasse pra algum canto, batesse a cabeça e começasse a espumar num ataque epilético. Tão romântico, ele.
- Sabe, estou cansada dessa merda toda. – Suspirei, virando outro gole.
- Então pare de beber, oras.
- QUÊ?! Não! Não estava falando do álcool, seu maluco sem noção! Caralho, me senti até ofendida agora. Eu estava falando do veado do Biancardine, do nu do Garcez e daquela porra daquela fuinha falante. E daquela sua alpaca também.
- Hei! Pensei que você já gostava do Larry!
- É a porra de uma lhama estranha que defeca no meu trailer, come minhas coisas e lambe meu vômito!
- Mas ele te ama como a pessoa que você é.
- Eu tenho a minha mãe pra isso. Não preciso de uma alpaca com problemas intestinais!
- Você deveria parar de beber tanto assim. Vai acabar ferindo os sentimentos de um pobre quadrúpede fiel e inocente.
- Aquela alpaca tenta comer o Paulo todo dia. E é óbvio que estou falando no sentido orgástico da coisa! – Completei, quando ele me olhou torto. – E não é disso que estou falando! Quero sair daqui. Tenho um trailer Hippie, cigarros e vodka suficiente pra ficar muito louca o ano inteiro e ainda rodar pelo país! Vou viver a vida que tenho! Ver a natureza, viver do que eu plantar, da luz do sol, dos acordes do meu violão e da minha eterna ressaca sem a porra de uma sirene atrás de mim a cada esquina que eu virar dirigindo alcoolizada!
- É bom se apressar pra viver essa sua “vida” – Meu gato me olhou com desprezo e riu de um modo maligno. Depois voltou a lamber sua bola direita.
- Viu? Até o Mike topou meu rolê!
- QUÊ?! – Ele miou estridentemente, e eu o mandei para o volante, usando o argumento de que se eu bebesse e fumasse como eu planejava fazer nessa viagem, morreria mais rápido e ele teria minha alma de uma vez. Diabinho mais bobo, esse meu gato.
- Para o infinito e além, meu querido felino belzebu! – E eu pulei para a cabine, tropeçando durante o percurso e batendo violentamente a cabeça no vidro da frente. Todos ficaram em silêncio. E então eu dei risada.
Quando se está alcoolizado, a dor é uma sensação física que funciona em delay. Viva ao santo e sagrado álcool, provido de alguma divindade que sabe bem como tocar o puteiro. Ou de alguma destilaria, foda-se.
Mike fez o acelerador baixar e engatou a marcha. Os pneus cantaram e meu trailer, a Máquina do Mistério, zarpou noite adentro, numa maravilhosa e desconhecida aventura ao inexplorado mundo das rodovias mapeadas por satélites multimilionários. Eu me sentiria feliz como a porra do Jack Kerouac, não fosse a repentina dor de cabeça que me fez cambalear e cair em cima do meu gato. O carro invadiu a pista contrária na rodovia, e eu escutei um grito histérico atrás de mim, antes de apagar completamente.
- EU ESTOU TRANCADO NESSA PORRA, DEIXEM-ME SAIR! – Antonelli se debatia, enquanto meu gato tentava retomar o controle do volante.
Mas era tudo tarde demais pra tudo. A aventura já tinha começado, os carros já vinham ao encontro do vidro e eu já curtia meu primeiro desmaio alcoolizada. O que vinha era lucro.
Desde que não fosse a porra de um caminhão, claro.

Ai ai, eu falei... Que puta dor de cabeça! Maldito delay.








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