21 de janeiro de 2011

Sobre anagramas, canos e cassinos

Era cedo, não mais do que dez horas da manhã. Eu estava sentada confortavelmente no meu sofá da sala, tomando um chá gelado e encarado um envelope que meu chefe enviara de última hora para mim. Temendo ser mais um corte salarial ou uma indenização que Paulo insistia que eu pagasse (alegando alguma coisa a respeito de “depredação do local de trabalho”), continuei fitando o envelope sem abri-lo. Larguei o copo na mesinha de centro e rasguei o lacre. Um panfleto caiu no meu colo, juntamente de um bilhete com a caligrafia dele.

Nele dizia claramente que eu deveria me matricular num curso de aperfeiçoamento da escrita para jornalistas, que fora altamente recomendado por um conhecido do Editor. “Era uma experiência válida e construtiva”, alegava Paulo no bilhete, “além do mais, você foi a única com um endereço fixo do escritório que eu consegui contatar. Biancardine está muito ocupado saqueando um estoque de Jack Daniels e Losina está viajando. Antonelli foi com a alpaca para um spa em uma ilha semi-deserta e quando eu liguei para Rocha um tal de Mike atendeu e disse ser engano. Eu falei com a fuinha do Garcez, mas aparentemente ela está mais interessada em realizar uma campanha contra a Rússia do que escrever” e finalizava com o terrível “Arque o curso com suas próprias finanças. Caso se recuse a fazê-lo e/ou pagar por ele, será significativamente descontada em seu salário ”.

Pus o bilhete de lado e me concentrei no panfleto, incapaz de acreditar que estava sendo coagida por meu frágil chefe. O valor era extravagante para algo que teria menos de uma semana de duração, com uma hora e meia por dia. Sem muita escolha, peguei a bolsa e depositei a quantia necessária no banco mais próximo a minha casa. Após isso, fui até a garagem do prédio, entrei no New Beetle e dirigi até a suposta livraria que extorquia dinheiro alheio, na qual o curso ocorreria.

Definitivamente “livraria” não era o melhor jeito de descrever o prédio de dois andares de um branco encardido e com algumas pichações na base. Adentrei empurrando uma porta de ferro para longe com uma das mãos. A outra tapava o meu nariz que protestava contra o cheiro forte e enjoativo de álcool e incenso presentes ali. Visivelmente indisposta, encaminhei-me para uma mesa de madeira lustrosa, com o fundo de feltro verde e um atendente sorridente e calvo, que embaralhava um maço de cartas. Supondo que aquilo fosse um balcão de informações, perguntei aonde era a “aula” ao que o homem me respondeu “no porão, perto da mesa de bilhar”, me oferecendo um banquinho para que me juntasse as outras pessoas que precisavam de informações e se entretiam segurando cartas também. Agradeci e desci uma escada em formato de caracol, ponto a mão na cabeça e pausando logo que meus pés encontraram o chão mais uma vez.


O prédio suspeito

Perto da mesa de bilhar ficavam seis homens vestidos de preto, com longos sobretudos, chapéus, óculos e luvas negras se divertiam ouvindo música alta e jogando. Um deles andou até mim e me ofereceu um taco e uma garrafa de cerveja. Recuando e recusando, perscrutei, buscando algo parecido com um professor de literatura, português ou até um jornalista. Ao redor só encontrei umas trinta máquinas caça-níqueis organizadas em fileiras.

Cartas. Máquinas caça-níqueis. Bebida. Gente estranha. Um calvo sorridente. Sim, ali era um cassino clandestino, não restava dúvidas. Calcular a quantidade de dinheiro sendo perdida por todas aquelas pessoas nos três andares do prédio fez meu corpo arrepiar-se inteiro. Com um mau pressentimento, resolvi abandonar o local o mais rápido que podia. Quando coloquei o segundo pé no degrau da escada, pude ouvir a porta caída de entrada sendo chutada para mais longe, seguida de gritos e uma correria intensa.

Maldita hora de seguir as ordens de um chefe que se intimidava facilmente. Abaixando a cabeça e tomando fôlego, tirei a única arma que dispunha no momento para lutar: um cano de meio metro. Cinco homens abatidos, quatro quadras percorridas, três horas gastas, dois policiais desviados e uma ligação perdida depois, eu estava no corredor, do lado de fora do meu apartamento, contemplando a figura deturpada e ligeiramente anêmica de meu chefe.


- Dutra! Eu liguei para saber como foi a primeira aula e... – ele se calou e soltou um gritinho muito agudo quando eu mostrei um cano enferrujado e ensanguentado.
- Você...! – eu larguei o cano, agarrei a gola da camisa social de Paulo e joguei-o contra a porta da vizinha. – Você me fez perder dim-dim, bufunfa, trocado, verdinha, money! Em suma, dinheiro! Muito dinheiro! Tem idéia do quanto eu corri para chegar aqui viva?! Se eu não tivesse isso – indiquei meu instrumento de ataque no carpete. – Certamente você estaria procurando por uma nova colunista para as sextas-feiras.
- Mas o que? – Paulo olhava confuso para mim, o cano e a porta da vizinha.

Nos minutos que vieram, expliquei a situação resumidamente. Paulo era um bom ouvinte, devo dizer. Não falou nada durante a história, com exceção de pequenas exclamações, e esperou pacientemente até o final. Ele balançou a cabeça afirmativamente, pondo-se de pé e segurando o queixo.

- No entanto – eu resolvi acrescentar, afinal, um bom comerciante reconhecer uma boa oportunidade. – Não relatarei nada disso para a polícia. Ninguém vai saber de nada, tranquilize-se. Só quero que me restitua o dinheiro perdido, além de me dar um extra no salário desse mês.
- Ah, que seja. – o Editor disse, encolhendo os ombros e lançando um olhar receoso para o cano largado.
- Ótimo. – fiquei mexendo no molho de chaves um tempo, escolhendo a certa. – Ah, e antes que eu me esqueça, esse “curso” foi recomendação de um conhecido seu, não chefe?
- Sim, sim. Não consigo acreditar que Davi faria isso comigo.
- Há quanto tempo o conhece?
- Quase meio ano. Nos correspondemos por e-mail, sabe. Ele é um crítico literário na Holanda, e tem colegas de trabalho quase tão insanos quanto os seus. – ele se permitiu que um sorriso triste tomasse conta do rosto.
- Qual é o nome dele?
- Davi N. Roccane. – ele disse, me estendendo um cartão com o nome grafado.
- Nome completo, por favor.
- Davi Nibrit Roccane.
- Davi Nibrit Roccane. – repeti em voz baixa.

“Roccane” não se parecia em nada com sobrenome holandês. Girei a chave na maçaneta, entrando no apartamento e remexendo a bolsa. Tirei dela uma caneta esferográfica, me largando no sofá e riscando algumas letras no cartão. Peguei um bloquinho de anotações na mesinha de centro e transcrevi o nome do infeliz que me fizera gastar dinheiro à toa. Reescrevi detrás para frente, procurando um sinal. Troquei as iniciais, o nome e os sobrenomes de posição, sem sucesso. Virando uma página do bloquinho, escrevi os nomes dos meus colegas de trabalho e de pessoas que possivelmente gostariam de me ver arrancar os cabelos e comê-los com ketchup.Estreitei os olhos, fixando o nome de um colega e o do falso holandês.

Trinquei os dentes com força, voltando ao corredor e apanhando o cano. Paulo me fitava aflito, receando ser a próxima vítima da minha fúria monetária. Apanhei o cano e um par de luvas de bolinha na cozinha, jogando a chave de casa para o Editor.

- Seja um bom chefinho, feche a porta e ponha as chaves na minha caixa de correio, está bem?
- Espere um momento, Dutra. Nem vai me dizer o que está acontecendo?
- Simples: descobri a real identidade do seu amiguinho. – e estendi o bloquinho para ele. – “Davi Nibrit Roccane” é um anagrama para “Victor Biancardine”. Agora, se me der licença, vou demonstrar ao meu caro colega de trabalho o que acontece com as pessoas que me levam a desperdiçar uma quantia considerável de dinheiro. – falei, o corpo se sacudindo de leve enquanto abri um sorriso doentio de orelha a orelha.

Um comentário:

Escritório Literário disse...

Gostei muito do conto!
Gostaria de firmar uma parceria com vc. Vou colocar seu link no meu blog! Vc pode colocar o meu no seu blog?!?:

O link está na página inicial dele:
http://escritorioliterario.blogspot.com/

Grato,
Adriano Portela
escritorioliterario@gmail.com

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