Nele dizia claramente que eu deveria me matricular num curso de aperfeiçoamento da escrita para jornalistas, que fora altamente recomendado por um conhecido do Editor. “Era uma experiência válida e construtiva”, alegava Paulo no bilhete, “além do mais, você foi a única com um endereço fixo do escritório que eu consegui contatar. Biancardine está muito ocupado saqueando um estoque de Jack Daniels e Losina está viajando. Antonelli foi com a alpaca para um spa em uma ilha semi-deserta e quando eu liguei para Rocha um tal de Mike atendeu e disse ser engano. Eu falei com a fuinha do Garcez, mas aparentemente ela está mais interessada em realizar uma campanha contra a Rússia do que escrever” e finalizava com o terrível “Arque o curso com suas próprias finanças. Caso se recuse a fazê-lo e/ou pagar por ele, será significativamente descontada em seu salário ”.
Pus o bilhete de lado e me concentrei no panfleto, incapaz de acreditar que estava sendo coagida por meu frágil chefe. O valor era extravagante para algo que teria menos de uma semana de duração, com uma hora e meia por dia. Sem muita escolha, peguei a bolsa e depositei a quantia necessária no banco mais próximo a minha casa. Após isso, fui até a garagem do prédio, entrei no New Beetle e dirigi até a suposta livraria que extorquia dinheiro alheio, na qual o curso ocorreria.
Definitivamente “livraria” não era o melhor jeito de descrever o prédio de dois andares de um branco encardido e com algumas pichações na base. Adentrei empurrando uma porta de ferro para longe com uma das mãos. A outra tapava o meu nariz que protestava contra o cheiro forte e enjoativo de álcool e incenso presentes ali. Visivelmente indisposta, encaminhei-me para uma mesa de madeira lustrosa, com o fundo de feltro verde e um atendente sorridente e calvo, que embaralhava um maço de cartas. Supondo que aquilo fosse um balcão de informações, perguntei aonde era a “aula” ao que o homem me respondeu “no porão, perto da mesa de bilhar”, me oferecendo um banquinho para que me juntasse as outras pessoas que precisavam de informações e se entretiam segurando cartas também. Agradeci e desci uma escada em formato de caracol, ponto a mão na cabeça e pausando logo que meus pés encontraram o chão mais uma vez.

O prédio suspeito
Perto da mesa de bilhar ficavam seis homens vestidos de preto, com longos sobretudos, chapéus, óculos e luvas negras se divertiam ouvindo música alta e jogando. Um deles andou até mim e me ofereceu um taco e uma garrafa de cerveja. Recuando e recusando, perscrutei, buscando algo parecido com um professor de literatura, português ou até um jornalista. Ao redor só encontrei umas trinta máquinas caça-níqueis organizadas em fileiras.
Cartas. Máquinas caça-níqueis. Bebida. Gente estranha. Um calvo sorridente. Sim, ali era um cassino clandestino, não restava dúvidas. Calcular a quantidade de dinheiro sendo perdida por todas aquelas pessoas nos três andares do prédio fez meu corpo arrepiar-se inteiro. Com um mau pressentimento, resolvi abandonar o local o mais rápido que podia. Quando coloquei o segundo pé no degrau da escada, pude ouvir a porta caída de entrada sendo chutada para mais longe, seguida de gritos e uma correria intensa.
Maldita hora de seguir as ordens de um chefe que se intimidava facilmente. Abaixando a cabeça e tomando fôlego, tirei a única arma que dispunha no momento para lutar: um cano de meio metro. Cinco homens abatidos, quatro quadras percorridas, três horas gastas, dois policiais desviados e uma ligação perdida depois, eu estava no corredor, do lado de fora do meu apartamento, contemplando a figura deturpada e ligeiramente anêmica de meu chefe.
- Dutra! Eu liguei para saber como foi a primeira aula e... – ele se calou e soltou um gritinho muito agudo quando eu mostrei um cano enferrujado e ensanguentado.
- Você...! – eu larguei o cano, agarrei a gola da camisa social de Paulo e joguei-o contra a porta da vizinha. – Você me fez perder dim-dim, bufunfa, trocado, verdinha, money! Em suma, dinheiro! Muito dinheiro! Tem idéia do quanto eu corri para chegar aqui viva?! Se eu não tivesse isso – indiquei meu instrumento de ataque no carpete. – Certamente você estaria procurando por uma nova colunista para as sextas-feiras.
- Mas o que? – Paulo olhava confuso para mim, o cano e a porta da vizinha.
Nos minutos que vieram, expliquei a situação resumidamente. Paulo era um bom ouvinte, devo dizer. Não falou nada durante a história, com exceção de pequenas exclamações, e esperou pacientemente até o final. Ele balançou a cabeça afirmativamente, pondo-se de pé e segurando o queixo.
- No entanto – eu resolvi acrescentar, afinal, um bom comerciante reconhecer uma boa oportunidade. – Não relatarei nada disso para a polícia. Ninguém vai saber de nada, tranquilize-se. Só quero que me restitua o dinheiro perdido, além de me dar um extra no salário desse mês.
- Ah, que seja. – o Editor disse, encolhendo os ombros e lançando um olhar receoso para o cano largado.
- Ótimo. – fiquei mexendo no molho de chaves um tempo, escolhendo a certa. – Ah, e antes que eu me esqueça, esse “curso” foi recomendação de um conhecido seu, não chefe?
- Sim, sim. Não consigo acreditar que Davi faria isso comigo.
- Há quanto tempo o conhece?
- Quase meio ano. Nos correspondemos por e-mail, sabe. Ele é um crítico literário na Holanda, e tem colegas de trabalho quase tão insanos quanto os seus. – ele se permitiu que um sorriso triste tomasse conta do rosto.
- Qual é o nome dele?
- Davi N. Roccane. – ele disse, me estendendo um cartão com o nome grafado.
- Nome completo, por favor.
- Davi Nibrit Roccane.
- Davi Nibrit Roccane. – repeti em voz baixa.
“Roccane” não se parecia em nada com sobrenome holandês. Girei a chave na maçaneta, entrando no apartamento e remexendo a bolsa. Tirei dela uma caneta esferográfica, me largando no sofá e riscando algumas letras no cartão. Peguei um bloquinho de anotações na mesinha de centro e transcrevi o nome do infeliz que me fizera gastar dinheiro à toa. Reescrevi detrás para frente, procurando um sinal. Troquei as iniciais, o nome e os sobrenomes de posição, sem sucesso. Virando uma página do bloquinho, escrevi os nomes dos meus colegas de trabalho e de pessoas que possivelmente gostariam de me ver arrancar os cabelos e comê-los com ketchup.Estreitei os olhos, fixando o nome de um colega e o do falso holandês.
Trinquei os dentes com força, voltando ao corredor e apanhando o cano. Paulo me fitava aflito, receando ser a próxima vítima da minha fúria monetária. Apanhei o cano e um par de luvas de bolinha na cozinha, jogando a chave de casa para o Editor.
- Seja um bom chefinho, feche a porta e ponha as chaves na minha caixa de correio, está bem?
- Espere um momento, Dutra. Nem vai me dizer o que está acontecendo?
- Simples: descobri a real identidade do seu amiguinho. – e estendi o bloquinho para ele. – “Davi Nibrit Roccane” é um anagrama para “Victor Biancardine”. Agora, se me der licença, vou demonstrar ao meu caro colega de trabalho o que acontece com as pessoas que me levam a desperdiçar uma quantia considerável de dinheiro. – falei, o corpo se sacudindo de leve enquanto abri um sorriso doentio de orelha a orelha.








Um comentário:
Gostei muito do conto!
Gostaria de firmar uma parceria com vc. Vou colocar seu link no meu blog! Vc pode colocar o meu no seu blog?!?:
O link está na página inicial dele:
http://escritorioliterario.blogspot.com/
Grato,
Adriano Portela
escritorioliterario@gmail.com
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