- Sério. – disse o porteiro que se apressou e segurou o elevador - Vou ter que chamar a polícia?
- Não será necessário. – respondi amigavelmente.
- Então saia do elevador! – exigiu.
- Mas eu já estou fora. – respondi convincentemente, tão convincentemente que ele apenas continuou me encarando enquanto a porta do elevador se fechava e deixava-o ali, estupefato.
De volta ao 8º andar após tanto tempo, e ele ainda estava como havíamos deixado. A reforma ia começar apenas amanhã, portanto os buracos de bala nos batentes ainda eram bem visíveis, e o lugar ainda cheirava a Larry.
Ah, Larry... Minha alpaca de estimação. Foi deportado para o Chile por posse de maconha. E ele nem é natural de lá.
E agora eu estava ali, sozinho, perdido em lembranças. A primeira mesa pela qual passei, primeiramente achei que já havia sido trocada ou reformada, pois estava limpa e inteira demais para ser do nosso antigo escritório. Mas então me lembrei que aquela era a mesa da Victória Dutra.
- Mas é claro, o elemento sensato. – ri falando comigo mesmo – Não teria dado certo sem você.
Continuei deslizando meus dedos autistamente pelas mesas, e logo à esquerda em frente a mesa da Dutra estava uma mesa realmente muito, muito suja. Marcas e manchas de todos os tipos e cores eram visíveis em sua superfície que um dia parecia ter sido feita de madeira. O cheiro de fast-food e nudismo declarava: A mesa de meu colega e irmão de nome Bruno Garcez. Rapidamente tirei meus dedos dela e procurei um pano para limpar as mãos.
Ao lado, também do lado esquerdo do escritório, estava provavelmente a única mesa não contagiada pelo cheiro predominante do local que se resumia em uma mistura intoxicante de pêlos de alpaca e álcool. Essa mesa cheirava a chocolate, assim como tudo o que Júlia Losina tocava. Aquela maníaca ainda mais autista que eu sempre foi a única que me superava no quesito “despreparo para uma comunicação social normal e saudável”. Todo vez que seu estoque de doces acabava parecia uma simulação do fim do mundo.
Sentei-me à beirada daquela mesa e olhei novamente para o lado direito da sala... Ali estava, bem a frente, a minha mesa. E minha cama de casal, aonde eu dormia e vivia, junto com o Larry. Poucos passos e estava me sentando ali, aonde costumava ficar meu computador, que eu nunca usava para trabalhar. O cheiro de pêlos de alpaca era inebriante, e me fazia sentir como se Larry ainda estivesse por ali. Eu precisava de uma bebida.
Levantei e caminhei até o armário de bebidas na esperança de que alguém tivesse esquecido algo ali, mas obviamente a última coisa que alguém daquele escritório esqueceria seria um pouco de álcool. Estava vazio. Na verdade nem as prateleiras estavam ali, eu mesmo as havia retirado muito antes da Contos de Bar acabar, para que coubessem duas pessoas ali dentro. É, agora eu definitivamente precisava de uma bebida, e forte.
Caminhei até a única mesa que podia ainda ter alguma coisa guardada, logo ao lado do armário, a mesa de Victor Biancardine. E eu estava certo: Abrindo a gaveta encontrei um Ballantine’s.
- Perfeito, whisky. – sorri comigo mesmo – Tsc, essa merda não tá querendo abrir... Será que tem algum tipo de abridor por aqui? – abri mais uma gaveta e encontrei um revólver – É, isso vai ter que servir. – mas quando abri o revólver, notei que estava sem balas – Inferno. – pude ouvir a risada maligna de Biancardine em minha mente.
Após algum esforço e um pouco de sangue consegui abrir a garrafa, e então me coloquei a observar a janela. O movimento em frente ao prédio parecia não ter mudado, como se todo o resto do mundo não tivesse sentido nossa falta. E de fato, era óbvio que apenas nós mesmos éramos afetados com tudo isso, somos todos irrelevantes perto da cidade em geral.
- Foda-se, tô começando a pensar que nem a merda de um deprimido. – dei um longo e profundo gole do whisky, e senti meu corpo queimar em deleite. Podia estar o pior inverno lá fora, mas ninguém está sozinho quando se tem uma boa bebida para te esquentar.
Tirando a Dutra e a Rocha, ninguém mais tinha seu próprio veículo naquele lugar. Quer dizer, uma vez eu tive uma moto, mas ela foi roubada, então não conta, certo? Enfim. Pude notar a única diferença na rua lá embaixo enquanto os carros passavam: Sem o New Beetle azul e o trailer psicodélico estacionados ali na frente, a rua tinha muito mais circulação. Me pergunto se as pessoas davam falta dos veículos que ficaram tanto tempo estacionados ali.
A última mesa, no fundo da sala no canto escuro próximo à janela, pertencera a dois colunistas. Inicialmente ao nosso querido peso-de-papel e sempre sonolento Fábio Oliveira, que agora deve estar em algum lugar da cidade bancando o Batman. Depois, quando ele teve que sair por causa de todo esse lance de super-herói e mutações genéticas, eu tive que procurar alguém para substituí-lo. Quem eu achei foi uma velha parceira de guerra, Marina Rocha. Sua mira desprivilegiada havia garantido a parte mais cara da reforma: Todos aqueles buracos de bala no teto, chão, paredes e batentes. E o andar já havia tido incêndios culposos o suficiente com a minha presença incendiária, quando ela chegou então, poucas coisas sobraram sem que tivessem acabado carbonizadas.
Pensei no quê cada um estaria fazendo naquele momento, enquanto eu bebia em nosso velho escritório. Garcez deveria estar nu em sua casa comendo algo com bastante queijo, certeza. Imaginei que Dutra deveria estar correndo atrás de alguma ligação urgentemente desesperada da Losina, fazendo algum escândalo por nada. Rocha e aquele gato siamês demoníaco para o qual eu vendi minha alma poderiam estar em qualquer lugar, aonde quer que a estrada os tenha levado... E Biancardine, pelo amor de deus, eu não quero nem saber. Fico enjoado só de pensar no que aquele cara poderia estar fazendo agora. Imagino que fim deu aquela história com a Roxeanne, sobrinha do nosso editor.
Sei que Carlito, o ex-guarda de trânsito mexicano que eu havia conhecido em meus primeiros dias de trabalho, agora estava preso. Creio que por minha causa. Um de nossos assistentes, o estrangeiro Ramón, estava desaparecido depois de alguns problemas com a imigração, e o bom e velho Sr. Esferográfica estava internado em algum tipo de hospício, talvez por minha culpa também. Mas por mais que eu tente me lembrar o quê acontecia todos os dias aqui no nosso escritório, eu não consigo me lembrar com precisão. Tudo passou, deixando apenas um passado dourado e idílico, enevoado por toda aquela vodka.
Antes de sair, abri uma das gavetas da minha mesa e encontrei o quê havia deixado ainda exatamente ali. Uma foto. A única foto daquela época. Fechei a porta, me agachei e encostei levemente a foto ali, aonde ela devia ficar. Não podia levar ela para casa, pois ela pertencia a este edifício, pertencia a nossa sala. Deixei a garrafa de Ballantine’s vazia ao seu lado, rindo imaginando o quanto Biancardine ficaria puto se soubesse que roubei sua bebida. Fiquei ali no chão perdido em lembranças e flashbacks, até ser subitamente puxado de volta para a realidade por uma voz familiar:
- Antonelli, o porteiro chamou a polícia. – me virei e vi Foster, o zelador. Ele segurava sua inseparável vassoura, a Leucádia, a qual eu costumava sequestrar para suborná-lo eventualmente.
- Oh. Parece que não o confundi o suficiente... Obrigado, Foster. – levantei-me procurando uma saída alternativa.
- A janela do banheiro está aberta. – apontou.
- Oh! Obrigado novamente, Foster. Acho que não nos veremos de novo. – agradeci, despedindo-me enquanto corria para o banheiro.
- Ei, Antonelli! – chamou o zelador.
- Uhm? – respondi, apressado.
- O quê você vai fazer agora que tudo acabou?
- Ora, o mesmo que eu fazia todas as noites, Foster... Tentar dominar o mundo!!! – pisquei e então pulei pela janela.
Novamente havia esquecido que estávamos no 8º andar.








4 comentários:
Que triste,caramba ;3;
(Risos), Puxa o Victor tá bem parecido com as histórias dele, e ao que parece, com a realidade dele, mas eu acho que ainda estão postando, espero que o site volte!
Espero q nao tenha deixado o ballantines ants d pular a janela ein cara!
Não se preocupe, já havia acabado com a garrafa antes de pular.
"Deixei a garrafa de Ballantine’s vazia ao seu lado, rindo imaginando o quanto Biancardine ficaria puto se soubesse que roubei sua bebida."
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