14 de janeiro de 2011

Leite morno e Exorcismo

Era quarta-feira à noite...ou seria quinta-feira pela manhã? Era difícil definir, especialmente quando as extremidades de seu corpo estão formigando e suas pálpebras não lhe obedecem, permanecendo fechadas boa parte do tempo. Eu apenas tinha certeza de dois fatos: o primeiro era de que acabara de sair da casa da Júlia. Ela me chamara às pressas para ajudá-la a fazer as malas para um daqueles locais tenebrosos em que o asfalto escuro é substituído por uma camada branca de fina areia, seguida de água semi-transparente e um Sol torturante. Uma praia. Argh. O segundo era que eu não subia os estreitos e intermináveis degraus rumo ao quarto andar do meu prédio sozinha. Minha companhia de pelos ruivos e leves tendências à dominação mundial, ronronava em desagrado nos meus calcanhares, dada a ausência da dona. Esbocei um sorriso para o felino que me fitou de um jeito superior, levantando o rabinho e tomando a dianteira.

Cansada demais para repreender Raphael com o olhar, tentei deixar de lado todos os sinais que o meu corpo emitia para que me deitasse no meio da escada, adormecesse e planejasse o próximo empreendimento ilegal que pretendia montar no escritório. Antonelli sugerira investir numa cantina italiana, especializada em pizzas e me garantiu que tal estabelecimento seria muito bem recebido pelos moradores do 12º andar, seja lá o que isso signifique.

Me apoiando contra uma das paredes, caminhei até avistar o meu apartamento. Estava pegando a chave para abrir a porta quando Raphael miou, batendo a pata esquerda exageradamente alto para uma criatura com pouco mais de trinta centímetros de comprimento. Debaixo dela havia um papel amarelo, típico de bilhetes. Estendi a mão, esperançosa de que o bichano estivesse disposto a me entregar aquilo que parecia tão distante de mim. Me amaldiçoei momentaneamente por passar uma noite inteira dobrando roupas de uma pessoa que tinha açúcar suficiente no sangue para causar diabetes a olho nu. Por alguns segundos, juro ter visto os dentes brancos e perfeitos do felino aparecerem de um jeito que lembrava um sorriso de escárnio.

Me agachei, virei o papel entre os dedos e deparei-me com uma caligrafia quase inteligível; as palavras, de tão unidas e minúsculas, não faziam sentido. Precisei cerrar os olhos e ler três vezes o bilhete para decifrar seu conteúdo: “Cara vizinha Viviane, estou embarcando em uma viagem para Budapeste nessa madrugada e não tive tempo de contatar ninguém para vigiar os meus adoráveis filhinhos (leia-se: felinos cruéis que desenvolveram um prazer sádico em deteriorar minha audição e sono). Faça esse favor para mim, sim? Quanto a ração, é só pedir informações para a tendente do Petshop da esquina com um sotaque que eu desconfio ser polonês. Estarei retornando na próxima quinta.”

Encarei o bilhete antes de destruí-lo em vários pedaços, bufando de raiva. Além de alguém que encontro diariamente não saber o meu próprio nome – eu morava ali há mais de três anos! – eu teria de cuidar e alimentar aqueles seres que me causaram muito mais do que insônia, chegando a pesadelos a agonia do falecido Dentinho. Piada de mau gosto era pouco para descrever o que essa situação me pareceu no momento. Algo pequeno e metálico brilhava no capacho. Apanhei a chave e, a muito contra gosto, e seis gatos totalmente diferentes um do outro surgiram. Fechei o apartamento da vizinha mal-informada e deixei a porta de meu lar aberta para os felinos entrarem.

- Provem que minha sanidade mental se extinguiu e sejam bons gatinhos até eu voltar com a comida de vocês, ok? – eu disse em tom lamurioso. Verifiquei no relógio de pulso se já era manhã, ao que o mostrador respondeu serem quase sete horas de quinta-feira. Passaria no Petshop e voltaria o mais rápido que pudesse.

Em menos de meia hora, eu retornara com dois sacos de cinco quilos de ração, esperando que aquilo adiantasse pelo dia. Ri nervosa, com a mão na maçaneta.Não era como se os gatos fossem demônios.

Era pior.

Larguei os pacotes com um baque seco no chão. Os gatos haviam se espalhados pela sala de um jeito muito peculiar. Um gato de pelo acinzentado e eriçado encarava alguma revista velha com uma raiva descarada, miando com uma mulher sorridente que fazia propaganda do All Star. Um gato de pelo malhado o fitava por trás, os olhos esverdeados cravados nele com uma ferocidade e invejas igualmente nítidas. Raphael equilibrava a massa com certa dificuldade sob as patinhas curtas, porém não desistia e tentava alcançar o sofá, orgulhosamente. Um outro felino, sem pelo algum, dormia profundamente numa almofada felpuda. Uma gata preta de olhos amarelados, estirada no peitoril de uma janela da sala, estava muito entretida lambendo o próprio corpo magro para notar a minha presença. Um bichano solitário arrastava inúmeras latinhas de atum com o rabo em direção ao canto mais afastado de seus companheiros. Um outro felino mirava-se constantemente numa panela de metal, de perfil e de frente.

Pisei em falso e ao cair no chão tive noção de que não havia um único metro quadrado na minha casa que não tivesse bolas de pelo e baba. Espichei o pescoço e vi a geladeira aberta e com quase todos os seus produtos do lado de fora. Corri até meu quarto, que virara um mar de algodão e lençóis rasgados. Voltei e vi uma figura ao centro, sorrindo e lambendo as próprias patas.

- Devil Kitty! – eu apontei criminosamente para meu sócio. – Como você deixou que isso acontecesse?
- Não pude evitar. Eles queriam se reunir comigo, o seu mestre. Ou você não percebeu, humana ingênua, o que esses sete outros felinos são?- não me deixando responder, Mike completou. –Enfim, eles são os Sete Pecados Capitais.
- Sete? Eu só contei seis e...– minha voz morreu quando vi o último – e infeliz – gato, com as patas e o rabo pretos em contraste com o corpo branco mirava os outros com desconfiança e cravava as unhas no meu antigo volume de Harry Potter e a Ordem da Fênix.
- Imaginei que você não fosse se dar muito bem com a Avareza. – Mike disse e poucos segundos depois se desfez no ar como fumaça, fugindo de arcar com as responsabilidades dos seus subordinados.

Eu podia aguentar muita coisa...Podia agüentar ter que ser chamada de Doçura, ser sequestrada, ter prejuízo com um negócio recém-aberto, enterrar meu próprio hamster, mas havia algo que eu não tolerava: deixar meus livros em mau estado. Uma página dobrada já me causava tontura, mas aquilo era um apocalipse. Um apocalipse russo. E se eu aprendi algo nessa vida, é que um apocalipse russo precisa de uma revanche. Ou algo do tipo.

- Você vai deixar de ser avarento mais cedo do que pensa, enviado da Hello Kitty adulterada. – eu disse, tentando soar ameaçadora e brandindo o primeiro objeto com que tive contanto – um guarda-chuva – em sua direção.

Depois de uma breve passada no quarto e na cozinha, voltei à sala, brandindo uma frigideira, um crucifixo, um colar de alho e uma garrafinha leite morno.

- Aqui. – eu disse, despejando o leite na frigideira, instantaneamente atraindo a atenção de todos os gatos, até mesmo daquele que dormia. Rapidamente, envolvi os sete no mesmo colar de alho e peguei o crucifixo.

Como um bom pastor evangélico após experimentar uma exótica mistura de vodka, molho shoyu e açúcar, fiz o que era necessário para que um sacrilégio contra a obra de J.K Rowling como aquele não se repetisse mais. Nas duas horas e vinte e sete minutos e quatorze segundos que se seguiram, exorcizei os bichos a tal ponto que certamente não deixaria o Mr. Mustache contente: eu transformara os Sete Pecados nas Sete Virtudes.

Com um sorriso satisfeito e prevendo as noites sem miados incessantes, arrumei a casa para que se tornasse habitável. Visitando a cozinha mais uma vez e trazendo sete potes e um copo com leite morno, sentei no sofá, rodeada pelos gatos.

- Não se preocupe vizinha. – eu falei, imaginando a porta do outro lado da minha. – Viviane sabe cuidar muito bem dos demônios alheios.





Efeitos não mencionados pós-exorcismo dos felinos

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