13 de janeiro de 2011

Contatos Imediatos com Queimaduras de 3º Grau

Ninguém acreditaria se eu contasse o que me aconteceu na última quinta-feira, dia 06 de Janeiro de 2011, às 05 horas, 31 minutos e 44 segundos e meio.

Eu estava com meu material semanal atrasado. Mas essa não é a parte inacreditável, é só a parte toscamente previsível. Me sentia vorazmente apoplético, talvez até um pouco hostil, porém levemente obsequioso e um pouco consternado. Para tentar me distrair, estava lendo um dicionário e procurando por palavras complicadas ou engraçadas, e cada vez mais me atrasava para publicar meu conto.

Já eram 05 horas, 32 minutos e 11 segundos e meio daquela quinta-feira quando o assistente geral do Contos de Bar, Rodrigo, vulgo Sr. Esferográfica (apelido criado por mim e adotado por todos inclusive sua própria família), penetrou-se porta adentro da sala dos escritórios.

- Maldito seja, Antonelli e sua alpaca! Desde que me inventou este apelido ridicularizante, não consigo mais ter uma bosta de uma vida normal!
- Ora, não fiquemos nervosos. – só para constar, ele me apontava uma arma – E nem com nossos cartuchos carregados. Vamos nos acalmar, descarregar nossas armas e conversar sobre o assunto para chegarmos a um consenso.
- Vou é descarregar essa arma na sua cabeça e então me matar!!! – ele gritava insano – Tarde demais para discussões amigáveis, acabou!!!
- Espere aí.
- O QUÊ FOI?
- Como vai se matar tendo descarregado a arma em mim?
- Certo! Vou descarregar todas as balas menos uma na sua fuça e então me matar com a que sobrar, satisfeito agora?
- Não. Mas veja bem, que é sempre bom ter uma bala reserva caso a última não te acerte.
- Eu vou atirar dentro de minha própria boca! Ela VAI me acertar!
- Ora, não duvide do acaso, meu jovem assistente sociopata e suicida. A bala pode muito bem se desviar com o atrito do próprio ar e acabar por não te matar imediatamente.
- Isso é impossível! Seriam necessários quilômetros de distância para a bala se desviar assim!
- E você quer arriscar se ver agonizante, morrendo lentamente, e sem nenhuma bala sobrando para acabar com seu sofrimento?
- Uhhm... Pensando desse jeito, dá mesmo medo de arriscar...
- Vejo que você não pensou em muita coisa, não é mesmo? Não quer voltar e refazer sua entrada assassina?
- R-refazer? – confundiu-se o Sr. Esferográfica.
- Mas é claro! Vai ser a última cena de nossas vidas! Que pelo menos seja bem feita, afinal, eu me importo! – afirmei.
- Bem pensado. FIQUE AÍ que eu venho te matar, deixando então DUAS balas sobrando para me suicidar.
- ... Só duas?
- TRÊS! Que tal??
- Perfeito, estamos combinados.

Não preciso nem dizer que no momento em que o Sr. Esferográfica saiu da sala, eu pulei pela janela. Para meu azar, o escritório fica agora no 8º andar. Para minha sorte, eu caí em uma espécie de andaime mais ou menos na altura do 6º andar.

- Preciso parar de me jogar por essa janela. – disse para mim mesmo, enquanto tentava ver se ainda conseguia sentir minhas pernas.
- Hey, bro. – disse uma voz fina, enlatada e sinestésicamente verde, devo acrescentar.
- Hey... – olhei para trás, e de imediato tudo que pude acrescentar foi: - Verde?!
- Não. Mim, Wilson. Tu, defenestrado desconhecido.
- Não, eu quis dizer... Tu é verde, porra? – disse para o ser magricela e verde comendo pizza na minha frente do lado de fora do 6º andar do prédio aonde eu trabalho.
- E tu ser rosado, descendente de macaco pelado.
- Justo e bem rimado. – admiti.
- Qual ser seu nome? – perguntou o tal de Wilson.
- Ah! Finalmente um ser desconhecido que não adivinha meu nome antes de eu me apresentar. Olá Wilson, muito prazer, me chamam de...
- Antonelli.
- Filho da puta!
- Minha espécie poder ler pensamentos imediatos pouco antes de acontecerem.
- S-sua... Espécie? – tive um calafrio.
- Sim, mim não ser descendente de macaco pelado.
- Tu ser descendente de rã analfabeta? – caçoei.
- Mim vir de bem longe.
- De onde você veio? Do Acre?
- Não. Mim... Vir de lá. – como eu temia, o serzinho verde apontou para cima.
- V-você quer dizer... Do espaço?!
- Não! Da cobertura, 12º andar! Meu povo cair aqui há 50 anos e desde então morar na sala de máquinas do seu prédio.
- Esse tempo todo tinha mais de você e da sua raça alienígena apenas 4 andares acima de onde eu venho trabalhando e dormindo, enquanto eu me esforço para escrever algo interessante toda semana??
- Sim, nós ficar escondidos na sala do elevador, nos alimentar de cabos de aço e de mecânicos enviados para consertá-los, isso ser um ciclo vicioso.
- E explica os freqüentes problemas que temos com o elevador parando no meio dos andares... E com os agentes do governo procurando mecânicos desaparecidos. Essa última sempre achei que fosse coisa do Biancardine.
- YAAAAAAGH!!! – o alien se contorceu quando eu terminei a frase.
- Wilson, o que foi?
- Essa palavra... Não a repita!
- Qual, “coisa”?
- Não, não! Depois dessa! Mas não a diga!
- Por que não?
- Em meu idioma natal, soar como uma palavra usada para tortura mental e genital do nosso povo!
- Qual palavra?
- Biancardine! – e ele se contorceu denovo - YAAAAAAAGH!!!
- Hehehe, você caiu nessa. E merda, você vomitou toda a pizza nesse andaime... Flutuante... Andaime flutuante? A tecnologia vem me surpreendendo, devo admitir.
- Não ser andaime... – disse Wilson, após se recuperar – Ser minha nave espacial. Nós cair com ela aqui há décadas, mas eu achar que finalmente consegui concertá-la! Em breve nós estar livres desse planeta antiquado e de nossa dieta de aço e mecânicos de baixa escolaridade!
- Levaram décadas com sua inteligência superior para fazer essa sucata voltar a funcionar?
- Ser difícil sem ter materiais certos. Tivemos que trocar nosso Estabilizador Gravitacional e o Impulsionador de Dobra Sideral por uma geladeira cheia de frango e um esquilo amarrado a um megafone.
- AHÁ! – gritei, acusador – Então é aqui que veio parar a geladeira que eu havia trazido para o meu escritório! E eu pensando que o meu editor havia se livrado dela, até coloquei caranguejos na calça dele para me vingar... Devia ter acreditado quando disse que não havia visto nenhuma geladeira. Enfim! Pois estou tomando-a de volta! – entrei pela escotilha convenientemente aberta ao meu lado.
- Espere, seu macaco rosado! Não pode desconectar agora! Está funcionando como nosso Estabilizador Gravitacional! – o alien me acompanhou desesperado nave adentro.
- Blá blá blá! Está me enrolando seu ladrãozinho de geladeiras! Qualquer um pode inventar nomes complicados e que pareçam inteligentes e usar como desculpa dentro de seu objeto voador não identificado! – e assim que encontrei minha geladeira, a puxei da onde estava presa.
- Seu idiota! – e a nave começou a cair dramaticamente em movimentos exagerados e ziguezagueados. No meio do desespero, avistei um esquilo amarrado em um megafone que saia de uma das paredes da nave, e com muito esforço, puxei o nó que o prendia. Agora, ou isso nos salvaria, ou nos mataria de vez. Mas tudo que veio a seguir, foi um clarão.

***

- Então, você está me dizendo... – prosseguiu Paulo, meu editor – Que não pôde escrever na sua coluna semana passada porque foi teletransportado para uma ilha paradisíaca no meio do Oceâno Atlântico, junto com um alienígena apreciador de pizza chamado Wilson, e foram salvos por gostosas nativas que lhes ofereceram uma estadia gratuita num hotel com SPA cinco estrelas?
- Exatamente. Foi difícil sobreviver pelo tempo que ficamos lá, – tomei mais um gole de água de coco pelo canudinho, enquanto ajeitei meu colar de flores exóticas – mas quando conseguimos voltar para o continente já era domingo à noite.
- E aonde você disse que está esse tal Wilson?
- Disse que ia ter que reconstruir a nave dele desde o início, e me amaldiçoava por isso, depois de termos batido naquela maldita ilha com piscinas térmicas e buffet.
- Certo... – ele esfregou os olhos - Essa é a desculpa mais ridícula que eu já ouvi. Se tivesse me dito que apenas havia se esquecido, como a sua colega Losina já me disse, tudo isso seria muito mais fácil.
- Você pode não acreditar em mim agora, mas não me culpe pelos elevadores que vão continuar quebrando!
- Eu posso te culpar por muita coisa!!! – disse o editor, começando a se exaltar, até que seu telefone tocou – Alô? Ah, mais um agente do governo atrás de um desaparecido? Mande-o subir. – e desligou, enquanto eu o encarava com um olhar acusador.
- Eu estou te avisando, Paulo... Não deixe mais ninguém subir no 12º andar...
- Isso é ridículo! Saia daqui! – e eu obedeci, mas não sem antes chutar seu aquário e sair correndo com os peixes em mãos.

Subi então até a porta da cobertura e da sala de máquinas, no 12º andar, e bati 3 vezes. Depois, bati no ritmo de Holy Diver. A porta se abriu lentamente, deixando escapar um vapor esverdeado e uma luz intensa, enquanto Wilson, em passos curtos, se posicionou à minha frente.

- Aqui estão suas anchovas, pode pedir para eles se acalmarem agora. – disse, apresentando os peixes – Não precisam mais matar o entregador de pizza por terem esquecido.
- Muito obrigado, Antonelli. Nos lembraremos de seus serviços. – o pequeno extraterrestre estendeu a caixa de pizza para mim abrindo-a, e eu joguei os peixes dentro dela – E nos lembraremos dessa tal de “pizza” como maior invenção de sua espécie, o quê evitará a fúria de nosso povo quando nós voltar para nosso planeta.
- Estamos entendidos, então. Agora me devolvam o entregador.
- Aaaah! – disse Wilson, triste – Não podemos ficar como sobremesa?
- Na-nã-não. Devolvam ele, ou vão querer que deixem de entregar para cá?
- Tsc... Certo, certo. – a porta se abriu mais um pouco, e um cara completamente aterrorizado e coberto em algum tipo de gosma transparente saiu de lá, tremendo e ofegante. Antes dele se afastar, o pequeno alienígena segurou-o e disse, olhando em seus olhos assustados: – Você não lembra de nada. – O rapaz apenas assentiu, e desceu as escadas calmamente sem dizer uma única palavra.
- Então... – tentei dizer, para quebrar aquele clima tenso – Mesma hora, na semana que vem?
- Sim, e dessa vez, com as anchovas. – e a porta se fechou dramaticamente, fazendo com que os últimos filetes daquele vapor verde se enrolassem e sumissem pelo ar.

Eu apenas fiquei ali, parado, encarando a porta enquanto refletia sobre como, desde que comecei a morar e trabalhar nesse prédio, eu já conheci pessoas como Victor Biancardine e os outros colunistas, além de um gato possuído pelo próprio Diabo, um anjo revoltado com seu próprio nome, um demônio em forma de flamingo, e uma porra de uma fuinha falante e megalomaníaca. Estava precisando de férias, voltar para o Iraque, relaxar no caos do Oriente Médio. Mas teria que levar minha alpaca e meu mexicano comigo, pois ninguém aqui saberia alimentá-los direito.

E a fumaça verde se explica por algum vício terrestre que os aliens pegaram.

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