14 de outubro de 2010

Só Mais Uma Daquelas Quinta-Feiras em Que Você Incendeia o Escritório do seu Editor

Agora eu estava realmente nervoso. Nervoso como nunca estive por um bom tempo. Uma vez tudo bem... Duas vezes até vai... Mas essa foi a terceira e foi também a gota d’água.

- Pedra e pedra... Empate de novo.
- Eu sei que foi a merda de um empate! – eu disse - Vai, mais uma vez: Jo... Ken... Po!

Pedra e pedra. Quarta vez. Esse cara só pode estar brincando.

- Sabe Foster... Se quisermos ir a algum lugar, alguém vai ter que parar de usar pedra aqui. – disse ao meu amigo zelador, já perdendo a paciência.
- Você sabe que fica difícil, uma vez que insiste que “as Regras do Jo-Ken-Po só permitem o uso da mão direita”, e eu perdi todos os dedos dessa mão num acidente de fábrica em 1953...
- Você é sempre pessimista assim, nunc... 1953? Quantos anos...? Ah, deixa pra lá, vamos mais uma vez.

Nesse momento Paulo, meu editor, abre a porta do cubículo do zelador, provavelmente nervoso por eu ter quebrado o aquário da sala dele há alguns minutos atrás, motivo para eu estar escondido aqui.

- Antonelli, precisamos conversar.
- Você não tá vendo que eu estou tentando me esconder por aqui? Vai Foster, mais uma vez... Jo... Ken... Po! – empate de novo - ...Droga!
- Se você parasse de usar pedra...
- Assim não seria justo com você, Foster.
- Caham. – interrompeu Paulo – Antonelli...
- Ah, tá bom. Desculpa Foster, continuamos outro dia. – me levantei – Aonde é o incêndio, Paulo?
- Você sabe qual é o “incêndio”.
- E eu devo dizer que ele foi devidamente apagado. Só aconteceu de a fonte da água ter sido escolhida meio que no calor do momento e...
- Do quê você tá falando? Precisamos conversar sobre o Carlito.
- Ah sim! O Carlito! – esse “Carlito” em questão é um guarda de trânsito mexicano que eu havia trazido para morar no edifício alguns dias atrás - Boa pessoa ele, não?
- Olha, uma lhama tudo bem...
- Alpaca. – corrigi.
- Mas trazer GENTE pra cá é outra história... E nem sabemos se ele entrou legalmente no país.
- Ora! Se esse é o problema, vamos perguntar pra ele. – caminhei em direção à sala dos escritórios.
- Esse não é o ponto! – insistiu Paulo, mas eu já estava a caminho.

Entrando na sala dos escritórios, digo, uma sala com as mesas de cada colunista da Contos de Bar (o único a ter um escritório propriamente dito é o editor), me dirigi à minha mesa, onde ao lado dela está a cama de casal que eu trouxe aonde dormem Carlito e Larry, a alpaca. Carlito, como de costume, estava sentado comendo um sanduíche maior do quê o rosto dele, e derrubando mais da metade de cada mordida no lençol. Tudo bem, temos assistentes para limpar essas coisas.

- Carlito, você tem visto de imigração, não tem?
- Si. Yo tengo un certificado de cuando llegué a Brasil. Tierra muy bella! Mujeres muy guapas! – disse ele, de boca cheia, cuspindo alfaces e aquelas coisinhas verdes que parecem pepinos pela sala toda.
- O QUÊ? – exaltou-se um dos assistentes – Ele te entendeu?
- O quê foi agora? Mexicanos são burros demais pra nos entender, no seu conceito? – respondi, odeio pessoas preconceituosas.
- Acontece que eu e os outros assistentes passamos o dia todo tentando nos comunicar com ele, até nos esforçamos pra falar em espanhol, mas ele não entendeu nenhum de nós!
- Talvez vocês precisem melhorar no sotaque. – rebati.
- MAS! – ele respirou fundo, já sabia que não adiantava se exaltar comigo – Você acabou de falar com ele, e em português!
- Vai ver ele entendeu por coincidência, são idiomas parecidos.
- Mas tentamos falar com ele o dia todo! O DIA TODO!!!
- Você está muito nervosinho pro meu gosto, não acha que está trabalhando demais, Sr. Esferográfica? – esse foi o apelido que dei para ele quando entrou para a equipe. Ele parece não gostar muito, mas eu sempre quis chamar alguém de “Sr. Esferográfica”, então ele pode muito bem chupar o meu saco se não gostar.
- E pare de me chamar assim! Sou um assistente, mas você não tem direito de me tratar como a um cãozinho!
- ORA ESSA! – disse, indignado – Eu nunca chamaria um cachorro de “Sr. Esferográfica”, Sr. Esferográfica! É consenso geral que esse é um nome muito bobo para um bichinho. Eu o chamaria de Queijinho ou algo assim.
- E não é um nome muito idiota pra mim, então!?
- Ou quem sabe Parmesão, ou então Goiabinha... Não preciso me limitar aos lacticínios, embora seja consenso geral que todo labrador tem cara de “Requeijão”.

Requeijão e Jabuticaba, só para elevar o nível de fofice do texto.

- Me escuta aqui, seu...!

Talvez essa discussão tivesse ido muito mais além se o Sr. Esferográfica tivesse concluído a frase acima, o quê não pôde fazer, já que se envolveu num terrível acidente envolvendo um segundo de distração por causa de uma incontinência gasosa um tanto quanto longa por parte de Carlito, seguido por uma cadeirada nas costas. Esta última por minha parte.

- Antonelli! – já veio dizendo meu editor, sem me dar um segundo para aproveitar meus momentos de silêncio provenientes do fim da discussão.
- Ele vai ficar bem, é um homem forte. Tem boa carga. – disse – E veja o lado bom: Carlito é um imigrante legalizado! Agora ele pode ficar sem problemas, não é?
- Eu estou cansado dessas suas loucuras!!!
- E eu estou cansado dessas... Desses... – olhei em volta, procurando algum objeto para completar a frase – Desse teto arrogante! – joguei a cadeira contra o teto, que se quebrou em duas e caiu no desafortunado Sr. Esferográfica, que por sorte estava caído e desmaiado e só iria sentir isso quando acordasse.
- Ok. – disse Paulo, esfregando as têmporas impacientemente – Ainda não vou te denunciar para a polícia. – claro que não, minha coluna era uma das mais comentada no nosso site, em parte por instituições e ONGs protestando contra meus textos, mas ainda assim, comentada – Primeiro vou pedir para o zelador arrumar essa bagunça e levar seu amigo Carlito para dormir em algum canto do prédio que não nos atrapalhe, está bom assim pra você?
- Agora estamos tendo uma conversação decente. Você devia ensinar o Sr. Esferográfica a ser inteligente como o senhor, chefe.
- Ah sim, antes de mais nada... – Paulo suspirou – Vou ligar para uma ambulância vir pegar o Sr. Esf... O pobre Rodrigo.
- Faça isso, o coitado parece ter sido atacado por um louco!

Paulo levou a mão ao seu rosto, exausto, e se dirigiu ao seu escritório, para pegar o telefone.
- E Antonelli, precisa parar de trazer essas pessoas dizendo que trabalharão como assistentes, como acha que ele vai ficar quando souber que você não é responsável por nada aqui e que não pode pagá-lo?
Eu ia responder algo como "o salário dele pode ser chupar o meu saco", mas no momento lembrei do pequeno incidente incendioso seguido de assassinato de peixes caros que tive no escritório do Paulo.
- Carlito, nos vemos semana que vem. - disse.
- Buena suerte, hermano. Vida loca! – respondeu, cuspindo mais alguns pedaços de carne e daquela coisinha verde, fazendo um hang-loose.

Saí correndo da sala dos escritórios e me escondi no armário das vassouras mais uma vez, enquanto Paulo gritava algo sobre um degenerado que havia destruído seu aquário e queimado sua mesa, e sobre cortar o pescoço desse tal degenerado também. Eu passaria mais algumas horas matando tempo com meu amigo Foster. Mas, dessa vez, jogaríamos poker.

2 comentários:

Anônimo disse...

Haha! Muito bom o conto. :D

Gostei muito do site, parabéns a vocês da equipe. :)

Anônimo disse...

como o cara vai jogar poker com uma mão só?
*imaginando a cena de um maneta tentando blefar.*
de fato, é cômico.

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