Sabe aqueles dias em que nada dá certo? Quando o mundo todo parece ter se unido para simplesmente foder sua vida? Quando até mesmo seu melhor amigo olha para a sua cara destruída e dá uma risadinha sacana. Quando até o céu, no momento em que você sai de casa, se fecha e começa aquela chuvinha fina e irritante.
Não era um desses dias. O sol brilhava, passarinhos cantavam em seus ninhos e toda a rua estava cheirando a flores e terra quente. E o calor, o calor era apenas mais um assassino silencioso e nojento que matava mais lentamente que uma colher.
Eu odiava o frio, mas simplesmente desprezava o calor. A melhor estação, com certeza, seria a primavera, mas minhas alergias simplesmente não me permitiam desfrutá-la. Logo, a minha favorita é o outono, que, apesar de bastante e irritantemente frio, ainda não era o suficiente para congelar meu sangue.
Mas o caso era que hoje estava quente. Absurdamente quente, destruidoramente quente, um calor digno de um forno ligado no meio do deserto. Tentando me aliviar, liguei o chuveiro e enfiei minha cabeça embaixo da água. Tremi com a mudança brusca de temperatura, sentindo meus cabelos, agora estranhamente curtos, grudando-se no meu rosto.
A campainha tocou. Automaticamente, minha cachorra gigante pulou e começou a latir. Abri a porta e mandei-a calar a boca. Atravessei o quintal, me dirigindo para o portão da rua, onde Victória me esperava, com o rosto afogueado.
- Tá muito quente! – ela gritou no momento em que destranquei o portão.
- Eu sei, eu sei – falei, dando-lhe tapinhas nos ombros.
- Não toque em mim! Tá. Muito. Quente! – suspirei e fui para trás dela, levantando seus cabelos, que mesmo naquele inferno terrestre, continuavam soltos. – Ah?
- Eu sabia. Você é uma retardada.
- Não, não sou!
- É, sim. Quem, em sã consciência, deixa cabelos do tamanho dos seus soltos nessa situação? Você só pode estar pedindo para derreter. Venha, vamos entrar. Tem ventilador e gelo lá dentro.
Ou melhor, deveria ter gelo aqui dentro. Depois de checar até embaixo do fogão, levei minha mão até a cabeça e sacudi meu cabelo. Aquilo não podia estar acontecendo. Simplesmente não podia.
- Acabou o gelo. – declarei penosamente, abrindo o congelador novamente e colocando minha cabeça ali dentro. Victória soltou um gemido baixo e longo.
- Eu imaginei. Por que você acha que eu vim até aqui? – não respondi. O ar gelado estava entorpecendo minha mente. Inspirei profundamente, sentindo meu cérebro dar algumas cambalhotas. Uma dor pungente subia a partir do meu nariz e estava se alojando lentamente na minha testa. Me sentindo meio masoquista, inspirei novamente. Fechei meus olhos, eles estavam ficando estranhos. Um zumbido baixo preenchia meu ouvido, transformando a voz de Victória em nada mais que um barulho indistinto de fundo.
Abri os olhos, e algo explodiu por trás deles. Vi estrelinhas e a voz de Victória voltou subitamente ao tom normal, que no momento eram gritos, que ainda estavam indistintos. Então algo me puxou para trás e eu cai deitada no chão da cozinha.
- ... batatinha? – ela berrou. Pisquei repetidamente, vendo tudo girar. A dor amortecida ainda estava na minha testa. Esfreguei-a com força e tentei sacudir a cabeça. Tudo girou com mais força.
- Pare de gritar – gemi, esfregando minha cabeça com os punhos. – Não entendi nada que você disse.
- Eu perguntei se você tinha pirado na batatinha. Você quase teve uma hipotermia! – ela disse num tom de voz furioso, que indicava claramente seu esforço em não gritar. Seus olhos pareciam dois rasgos no seu rosto, mas como eu estava sem óculos ou lentes, isso não era uma surpresa.
- Ah. Isso.
- Qual é a temperatura do seu freezer? – tentei dar de ombros, fazendo um gesto estranhamente deformado, já que ainda estava deitada. Me forcei a sentar. O calor voltava lentamente ao meu corpo, a partir dos meus dedos das mãos e pés. Esfreguei-os com força.
- Nossa. Isso foi muito legal. – murmurei, deixando meus olhos vagar pela cozinha. Minha visão estavas ainda mais toldada que o normal, fazendo com que tudo não passasse de apenas sombras indistintas. Pisquei mais algumas vezes.
- Não, não foi. Você poderia ter sofrido algo grave. – ela rosnou para mim. Dei de ombros novamente.
- Você nunca apreciou o perigo – falei, catando meus óculos no chão. Ela me alcançou-os. Estavam molhados. Tentei secá-los na minha blusa. Falhei e coloquei-os no rosto mesmo assim. - Você não faz ideia de quão estranho foi.
- Não mesmo. – ela deitou no chão da cozinha e suspirou de satisfação. Tive que concordar. Nada melhor que azulejos de cozinha no verão.
- O que eu quero dizer é: de novo! – me levantei de um pulo e Victória deu um gritinho histérico, puxando minhas pernas. Pulei, tentando me soltar, mas ela não me largou. O resultado foi uma queda histórica e ridícula, que de algum modo terminou com ela sentada nas minhas costas e uma dor estranhamente familiar subindo a partir do meu nariz.
- Opa.
- Você quebrou meu nariz! – gritei, apertando-o e sabendo que era um exagero. Ele nem havia batido em nada. Mas então porque estava sentindo aquela dor entorpecente novamente? Abri meus olhos no momento que entendi porque não enxergava nada.
Havia diversos cubos de gelo dentro dos potes de água dos cachorros. Senti um comichão na cabeça enquanto minha memória voltava. Então me liguei que formas que estavam na pia cheias de água não estavam prontas para ir para o freezer e sim tinha saído de lá antes que eu ligasse o chuveiro na minha cabeça. Comecei a resmungar que nem o Mutley enquanto Victória saía de cima de mim e deitava novamente nos azulejos da cozinha.
Oh calor cruel.









Nenhum comentário:
Postar um comentário