Aquela noite parecia extremamente complicada para mim. Meus sentidos pareciam estar completamente inversos. Eu sentia um gosto púrpura, cheirava a álcool, e tateava no escuro. Abri os olhos e tudo pareceu estar dobrado.
a sensação de que tudo o que não faz sentido, faz menos aindaFoi então que eu tive parcial ciência de que eram grandes as chances de estar bêbada. Nada fora do comum, é claro.
Percebi que eu olhava para um teto decorado com contas transparentes, ao redor de um precário lustre, e paredes cobertas com cortinas de algodão em tons diversos. Sentei-me na pequena cama acoplada a uma das paredes e respirei fundo. Inalei o mais puro e saudável cheiro de vodka. Só quando a tontura e as hilariantes imagens de macacos comendo queijo suíço deixaram meus olhos marejados é que pude me lembrar de onde eu estava.
O interior de meu recém-adquirido trailer, conquistado numa troca justa de cigarros e bebida de uma Hippie maconheira estava reformado, graças à ajuda voluntária (com voluntária, entenda sob protestos e o argumento de meu revólver) que tive de meus colegas colunistas, de uma alpaca e uma fuinha vestida de Napoleão. Nada fora do comum, é claro.
A Máquina do Mistério era um trailer mediano, batizado e pintado em homenagem a van utilizada pela equipe de detetives da Mistérios S.A. dos anos 70, composta por Scooby-Doo, Salsicha, Daphne, Fred e Velma, que caçam fantasmas, assombrações e outros monstros.
A imagem perfeita do desenho na minha cabeçaMas na minha visão alterada, eu só enxergava macacos e queijo suíço mesmo.
Enquanto eu observava aturdida que piscavam algumas luzes psicodélicas pelo cômodo dentro do trailer, e tudo parecia organizadamente fora do lugar. Como se tivessem calculado uma festa nos menores detalhes, e depois, perderam-se completamente do plano, deixando tudo fora do lugar. Escutei um baque forte na porta traseira e me levantei com dificuldade (não sou alta o suficiente para bater a cabeça no teto), em seguida abrindo a porta. Um Antonelli excessivamente sorridente, com um abajur na cabeça e uma toalha pendurada no pescoço se apresentou, batendo os coturnos e uma continência.
Para quem não o conhece, deixe-me acrescentar que sua reação não foi... Nada fora do comum, é claro.
- Pois não? – Eu o saudei, com minha típica educação e o destravamento de meu revólver.
- Boa noite, borrão. – Ele colocou uma flor no cano de minha arma e foi entrando no furgão, obviamente, batendo a cabeça sonoramente, mas rindo em seguida.
- Você está bêbado? – Avaliei bem a situação. Pergunta idiota, quando referida a qualquer um de meus colegas.
- É difícil formular uma resposta partindo dos meus princípios. E devo dizer que esse macaco comendo queijo atrás de você atrapalha minha concentração. – E ele apontou para o abajur atrás de mim, que “coincidentemente” estava sem a parte superior.
- Ah, foda-se. – Grunhi, desistindo de qualquer diálogo. Quando um macaco que come queijo invade sua casa, uma conversa sensata parece não ter qualquer utilidade.
A Máquina do Mistério, vista por seu buraco anal.Fui arrumando as coisas como podia, não tendo nenhuma idéia de onde elas deveriam estar. Arrumei um abajur de lava em cima do frigobar, puxei as cortinas pra cima, desamassei o tapete felpudo e fui recolhendo os copos sujos. E os farelos de queijo. Levei o que consegui para a lixeira no banco da frente, ainda um tanto tonta. Tente repetir isso por 15 vezes seguidas e rápido que você vai me entender. “Um tanto tonta”.
Quando voltei para a parte de trás do trailer, Antonelli dormia a sono, numa posição pouco confortável, e que me lembrava, por alguma razão, um canguru.
Tipo assim.Cutuquei a testa dele com a arma, incomodada.
- Ow. Acorda.
- Nham nham. – Ele estalou os lábios, em sono profundo.
- Ei! – Falei, já exaltada. Nada.
Dei alguns tiros pra cima e gritei: “É GUERRA!”. Mas nenhuma reação. Quando se é um ex-soldado/terrorista/traficante vindo das terras do Iraque, uma guerra pela manhã é como o canto de um pássaro no parapeito da janela. Te faz se sentir em casa. Suspirei, irritada e tentei outra vez.
- Incêndio!! – E ele só virou de lado. Droga de maníacos incendiários conformados com catástrofes naturais. Bufei, me levantei, guardei o revólver no bolso do sobretudo e tomei fôlego. Se não acordava por bem de guerras, ameaça armada ou desastre, eu tinha de apelar.
- CORRAM PRAS MONTANHAS, É O APOCALIPSE ZUMBI!
Imagine uma gazela pastando em paz em uma relva preparada pela manhã gentil, sorvida em orvalho. A gazela não está esperando, mas de repente, da mata silenciosa, um leão urge e corre atrás dela. O pânico toma seus sentidos e ela corre. Agora, imagine que atrás desse leão, irrompe o Robin Williams vestido de Tarzan. E atrás dele, o caçador de Jumanji. Imagine então que atrás deles, vem vindo o Exterminador Do Futuro e uma equipe de Siths. Agora, pense que atrás dessa pobre gazela, perseguida por um leão, pelo Robin Williams, pelo caçador, e pelo Schwarzenegger, surgem zumbis. Esse foi o sentimento do meu querido colega ao despertar com meus berros.
- Fodeu tudo de uma vez! É o apocalipse zumbi! Estamos condenados! Esqueçam as crianças e dane-se a vida de seus amigos! Corram para os abrigos! – Ele gritava desesperado, levantando de um pulo do sofá e batendo novamente a cabeça no teto do trailer. – O que é que você está fazendo aí parada?!
- Não tem apocalipse zumbi nenhum. Eu só queria que você acordasse. – E eu coloquei a mão no bolso do revólver, por precaução.
- Que golpe baixo e perigoso! Poderíamos ter perdido vidas inocentes com essa brincadeira impensada!
- Ta, ta, tanto faz. Me passa a vodka de uma vez. – Eu o interrompi, incomodada.- Pouco me importam as vidas inocentes.
- Se você diz. – Ele esticou o braço e abriu o frigobar, procurando bebida. Mas tudo que tinha lá era um macaco.
Neste momento, um baque alto e um grito fino aconteceram na porta do trailer, do lado de fora. Eu olhei assustada, sacando o revólver e Antonelli correu pro banco da frente até se estatelar contra o vidro.
- Meu herói. – Sibilei enquanto ele tentava arrancar o vidro lateral com os dentes.
-São os zumbis!! Dessa vez eles vieram, e vão devorar nossos cérebros!! – Eu então olhei pra ele com deboche e revirei os olhos. – Ta, nossas entranhas, que seja!
Ambos sabíamos que entre nós não havia cérebro pra ser devorado.
Mais uma vez, outro baque alto aconteceu, e algo como unhas arranhando o metal do carro o acompanharam. Zumbis eram de fato humanozinhos semi-mortos muito espertinhos pro meu gosto. Nunca gostei muito de espertinhos. Mirei certeira para a porta e atirei 5 vezes . Estourei o abajur, acertei 3 tiros no teto e um outro ricocheteou e atravessou o vidro da frente.
- Meu herói – Antonelli falou enquanto olhava da arma pro vidro e calculava a improbabilidade da merda toda.
- O jeito é fugirmos. – Eu avaliava os gastos que eu teria se tacasse fogo no trailer. De novo.
- Deixa comigo! – E então ele jogou algo no chão que explodiu e formou uma densa e sufocante cortina de fumaça. Enquanto tossíamos tuberculosamente, o Larry, a alpaca de Antonelli, apareceu no meio do cômodo, relinchando (?).
- Você carrega pílulas de alpaca?! – Eu exclamei indignada, tentando raciocinar como diabos um animal daquele porte tinha vindo parar ali dentro.
- Hey, ele veio, não veio? Então deixe as perguntas para os fracos e suba nele, se quiser viver pra contar sobre o dia em que quase morremos no apocalipse zumbi!
Enquanto o Antonelli montava na Alpaca, e tentava me convencer de que aquele troço estranho poderia salvar nossas vidas condenadas, um novo baque, muito mais forte, amassou as portas traseiras e as fez ceder. A fumaça da bomba bloqueou nossa visão do mundo exterior, mas eu sabia que lá dentro, tudo fedia. À merda de lhama.
-Ugh, bicho escroto! – Eu reclamei. Merda de lhama no meu tapete felpudo estraga toda a mágica de um apocalipse zumbi pós rave hippie na traseira de um trailer psicodélico.
-Veja! – O Antonelli apontou alarmado para uma figura destorcida e monstruosa que havia se formado na fumaça lá fora. Um urro horrendo encheu o lugar, e o medo preencheu nossos pobres corações corrompidos. Se aquele fosse o momento de nossa redenção e arrependimento para os pecados... Tenho certeza que queimaríamos no inferno.
- Vá pra puta que pariu, zumbi maldito!! – E eu apontei meu revólver pra figura estranha, que cheirava a alface.
- E leve suas doenças sexualmente transmissíveis e afins com você! – Antonelli concluiu minha ameaça bem estruturada. Olhei pra ele e ele deu de ombros.
- Saibam que eu me senti realmente ofendido agora. – O Garcez, outro colega colunista do Contos de Bar, respondeu, enquanto a cortina de fumaça se desfazia, empunhado de seu taco de beisebol e sua fuinha Azeite de Oliva.
- Inferno, é só o Garcez. – Eu abaixei a arma, e depois, percebi a estupidez que tinha feito. Levantei-a de novo no ar, mas ele já tinha avançado pra cima do Antonelli, subindo em suas costas, batendo violentamente sua cabeça oca no teto do trailer, que já estava se deformando de tanta pancada.
- Isso é por dizer que tenho DST! – E então o Garcez balançou o taco no ar, enquanto Antonelli se desviava. – Eu sempre uso a proteção infalível de uma sacola de super mercado de qualidade!
- Eu não ligo pra sua segurança sexual, me deixa em paz!
- Eu não mereço isso em plena ressaca. – Me joguei no sofá, e acendi um cigarro.
- Eu posso saber porquê é que tem um macaco comendo queijo na geladeira? – A voz da fuinha foi a última coisa que escutei, antes de acabar caindo no sono por causa da bebedeira. Ou pelas drogas, eu nunca sei diferenciar bem.
Fica aqui registrado o protesto dos macacos comedores de queijo suíço contra minhas piadas repetidas e sem graça.








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