- Estou com preguiça – declarei, olhando para o teto. Havia alguns papéis atirados pelo chão, a maior parte amassada em forma de bola. O sol iluminava a sala, mas meu ar-condicionado recém instalado estava garantido um ambiente fresco. Eu havia comprado-o no momento em que voltara da minha viagem não planejada para a minha cidade natal.
- Acene sua bandeira, acene sua bandeira, acene sua bandeira no desfile – cantarolei calmamente, ainda sem desviar os olhos do teto. Ele era vermelho. Eu havia feito questão de pintá-lo dessa cor. – Para o mundo encantador, andiamo. Nos damos as mãos, fazemos um círculo, giramos e temos o mundo. Com minhas botas brilhantes, estou nas melhores condições... – eu ia continuar a falar sobre a bandeira italiana quando meu celular tocou. Rolei do sofá, caindo em cima das folhas e atendi-o.
- O que o ser que não é sublime quer me ligando enquanto eu canto Acene Sua Bandeira? – rosnei gentilmente. Mas não foi Victória quem me respondeu. Foi uma risada sarcástica e desprovida de emoções. Suspirei internamente.
- O que foi? – perguntei, um pouco mais rudemente. Ou seja, com um tom de voz tão doce que daria cáries aos menos afortunados.
- Eu tenho a sua amiga – falou a voz fria e cruel. Suspirei internamente de novo.
- E como você sabe que esse não é o número da polícia? – perguntei com um tom doce e profissional.
- Estava escrito em letras azuis com corações... azuis. Nos contatos.
- Own – falei, incapaz de me conter. – Que meigo. Então, o que você quer em troca dela?
- Trinta mil – falou a voz, e eu tinha certeza de que ele sorria.
- Tudo bem – eu disse, pegando o telefone de casa e começando a discar um outro número. – Vou só separar o dinheiro aqui.
- Você tem trinta mil em casa? – ri baixinho. Claro que não.
- Por que não teria? Me ligue em cinco minutos para combinarmos o lugar de troca. – desliguei o telefone no momento em que atenderam na outra linha. – Nós temos um problema. Raptaram a nossa Victória. Seja uma boa pessoa, Biancardine, e avise os outros. – com a confirmação do meu colega, desliguei o telefone e abri o armário, puxando uma caixa de um canto escuro. Tirei sua tampa, ficando maravilhada como sempre com o seu conteúdo.
O casaco de couro que estava ali tinha mais de 50 anos. Puxei-o para perto de mim, sentindo seu cheiro. Quase não existia mais. Era totalmente surrado. Afaguei-o carinhosamente. Devia usá-lo mais vezes. Coloquei-o na cama ao meu lado e peguei a caixa de bombons que tinha ali. Abri-a e peguei a Desert Eagle, colocando o pente no lugar. Apontei-a para a parede, me lembrando dos velhos tempos.

Ninguém mexia com meus amigos e saía inteiro.
Eu estava quase dormindo quando o celular tocou novamente. Atendi-o como o mesmo bom humor de antes.
- Vamos nos encontrar no Velho Depósito em duas horas – o ser falou antes que eu pudesse abrir a boca. Gemi baixinho. Eu não gostava do Velho Depósito.
- Deixe-me falar com ela. – como eu esperava, ela não estava histérica. Só me fez uma pergunta.
- Vai demorar muito? – ela grunhiu, e consegui imaginar sua cara perfeitamente. Sorri de leve. Se ela podia reclamar, ela estava bem.
- Já estamos indo, docinho – cantarolei.
- Estamos? – ela sussurrou.
- É claro. Você é nossa mascote. Você sabe que estou economizando meu dinheiro para a Comic-Con. – antes que ela pudesse responder, a ligação foi cortada. Fechei os olhos, suspirando. E pensar que tudo que eu queria fazer era dormir. Havia acordado três horas antes por um telefonema nada agradável do Paulo, que exigia uma crônica pronta até a meia noite.
Peguei meu telefone mais uma vez e liguei para Biancardine novamente, informando o local e horário. Programei meu despertador para dali à uma hora e meia e dormi quase imediatamente. E quando acordei, me senti como se não tivesse dormido nada.
Fui até o banheiro e joguei água na cara. Pisquei, meio tonta, e voltei para o quarto. Catei meu coldre de ombro na caixa, encaixei a Desert Eagle nele e coloquei o casaco de couro por cima. Calcei um par de All Star, também de couro negro, e me olhei no espelho. Sim. Eu realmente sentia falta dos velhos tempos.
Encontrei meus colegas uma quadra antes do Velho Depósito. Estavam todos lá, com exceção do Garcez, que aparentemente estava liderando um culto de Poetas Assassinos. Marina e Biancardine fumavam encostados em uma parede, enquanto Antonelli brincava com um isqueiro. Mike, o Diabo em forma de gato, me encarou com olhos amarelos malévolos, e em seguida rosnou para Azeite de Oliva, que tentava de qualquer jeito montar em cima dele. E Larry pastava calmamente ao lado de uma lixeira.
- Espero que todos estejam armados. E que tenham boa pontaria. – encarei Marina fixamente. Ela assobiou.
- Você não sabe atirar – disse Biancardine, amassando a bituca do cigarro no chão. – Você nem tem uma arma.
- Errado. Júlia Losina não tem uma arma. Juliet tem. – falei, sorrindo inocentemente, me balançando pra frente e para trás.
- Seu alter ego? – ele perguntou, com uma risada. Sacudi a cabeça.
- Não estou no ânimo de discutir. Vamos acabar logo com isso.
Não é preciso dizer que o resgate foi um sucesso. Até o Devil Kitty ajudou, sumindo com o corpo em seguida. E assim voltamos felizes para casa, com nossa querida mascote a salvo e de muito mal-humor.









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