28 de outubro de 2010

Caralhos Andinos: A Revanche Sobre Duas Rodas

- Suponha que um homem está saindo da casa de sua namorada, e ele dirige uma moto. – segui com meu raciocínio - A massa dessa moto é de 120 quilos, e a aceleração, desconsiderando qualquer tipo de atrito, é de 20 metros por segundo. O homem decide andar sem usar o capacete, e a namorada fica preocupada. Ela insiste que ele use o capacete, e ele, relaxado, diz “não ter problemas”. Eles discutem, mas por fim, para acalmar sua mulher, ele coloca o capacete.
- Prossiga. – disse a instrutora, inflexível.
- Pois bem. – prossegui – Ele acelera uniformemente e em linha reta subindo pela rua da casa de sua namorada, que possui uma inclinação cujo ângulo equivale a 15º. Ao chegar ao topo da subida, após percorrer 80 metros, um pterossauro do gênero pteranodonte, que possui cerca de 7,5 metros de envergadura, em um rasante com velocidade média aproximada de 35 quilômetros por hora, o agarra pelo capacete, levantando-o da moto e levando-o pelos céus até seu ninho oculto para servir de alimento para seus pteranodontezinhos. No final, me diga para que serviu a ilusão de proteção gerada para a namorada pelo capacete, que presenciou a abdução prematura de seu amante?
- Senhor. – ela suspirou, e concluiu – Se quiser tirar sua carta de motociclista neste país, coloque o capacete ou se retire imediatamente.
- Mas você nem pensou nos números! Vai desistir assim, sem nem mesmo tentar chegar a uma conclusão?
- Já sou formada e não tenho mais que pensar nesses problemas. – um raciocínio compreensível por parte dela – E sua hipótese também é inválida.
- INVÁLIDA? – exaltei-me. Para um improviso, achei que foi uma hipótese digna de nota.
- Sim, inválida. Pterossauros estão extintos desde antes do ser humano sequer existir.
- E é por causa desse tipo de pensamento equivocado que as leis atuais de trânsito não garantem minha segurança.
- Senhor, estou perdendo a paciência. Coloque o capacete ou saia da moto.
- E eu estou perdendo meu filme! Pegue-me se puder, trouxa! – virei a chave que aposto que ela não percebeu quando tirei de seu bolso e disparei com a moto por alguns metros, pra então parar e olhar para trás e ver a cara estupefata da instrutora, que parecia gaguejar algo.
- M-mas... – gaguejava ela – A c-chave... C-como? Estava no meu b-bolso e... – ela colocou a mão no bolso de sua blusa, e para a surpresa dela, ao tirá-la, algumas pombas saíram voando de dentro dele. Ela me olhou com uma expressão confusa.
- Cheque sua orelha esquerda. – disse, confiante.

Ela levou sua mão até a orelha esquerda, atônita, e sua expressão ficou ainda mais confusa ao se certificar que sua orelha esquerda se encontrava em seu devido lugar sem nada de mais. Ela abaixou a mão, provavelmente se sentindo muito idiota, e disse, num tom de voz consideravelmente baixo:
- Quem diabos é você, seu maluco?

Coloquei meus óculos escuros de aro redondo, dei uma bela cuspida no chão, olhei em direção ao horizonte e respondi, sem me virar:
- Sou dinamite, babe.




Ao contrário do quê a lógica do nonsense (por assim dizer na falta de termos melhores) exigiria num momento como esse, eu não explodi. Mais tarde me encontrava no escritório do Contos de Bar, inteirinho (embora levemente chamuscado, com o cabelo bagunçado e com a jaqueta de couro rasgada) e explicando como consegui uma moto de graça no meu primeiro exame. Obviamente, havia usado a identidade de Paulo, nosso editor.

- Hahaha, clássico! – disse Garcez, após me dar um tapa na orelha e apontar a culpa para nosso colega Oliveira, que se encontrava dormindo em sua mesa.
- Muy caliente! – disse Carlito, o ex-guarda de trânsito mexicano que agora era nosso inquilino, comendo um sanduíche enorme como de costume.
- Quantas pombas...? Ah, deixa pra lá. – disse Dutra, acostumada.
- Vocês são loucos. – disse o Sr. Esferográfica, como eu chamava nosso assistente que comete o erro de achar que um dia será pago.

Sentei na minha cama de casal localizada ao lado de minha mesa no meio do nosso escritório, aonde dormia Larry, minha mascote andina. Enquanto acariciava-o e apreciava seus murmúrios de prazer, misturados com sons de gases intestinais que mais se assemelhavam a toques de celulares de colunistas, tive a breve sensação de estar sendo observado.
Virei-me, e ao notar que todos na sala olhavam para mim, tive a breve sensação de estar sendo molestado.

- Pessoal? – perguntei. Nada, apenas continuaram me encarando, com os olhinhos brilhando – Vocês estão pensando no que eu acho que estão pensando? – perguntei para confirmar. Concordaram com a cabeça, continuando a me encarar. Então era certeza, e eu comecei a desabotoar minha calça.

- NÃO, SEU IDIOTA! – berrou Losina, jogando uma caixa de bombons em mim para que eu parasse com minha “dança erótica do acasalamento”, depois correndo até minha mesa para pegá-la de volta e comer mais um de seus doces – Queremos saber quem você vai levar pra dar uma volta de moto por aí!
- Levar um de vocês pra dar uma volta de moto por aí? – perguntei.
- Sim, disco riscado.
- E por que diabos eu faria isso?
- É uma regra social básica: quando um amigo ou colega de trabalho compra, ou nesse caso, “ganha” uma moto, leva alguém pra curtir por aí. – interveio nosso colunista Oliveira (ou peso-de-papel, que descreve mais o que ele faz), voltando a dormir logo em seguida.
- Pfft. Olha minha cara de quem cumpre com regras ou padrões sociais básicos. – fiz uma cara que com certeza deixou bem claro que eu não era uma dessas pessoas.
- Veja por esse lado, caro Antonelli. – disse Biancardine, que estava distraído afiando a perigosa e assassina lâmina de seu apontador – Quando o Paulo voltar, ele vai estar acompanhado da polícia e você vai passar alguns dias ocupado demais para andar de moto, atrás das grades tentando preservar sua virgindade anal.

Era um bom ponto. Levantei da cama e peguei na minha mesa uma rolha de segurança que guardei para esse tipo de situação. Agora decidiria quem viria comigo na minha primeira corrida de moto pela cidade, provavelmente a última também em território nacional. Mas quem eu levaria comigo? Com quem eu escolheria dividir esse belo momento de amizade e aventura? Quem eu usaria de escudo para o caso de um pteranodonte aparecer tentando me abduzir? Quem seria meu colchão em caso de queda?

Olhei para todos na sala, analisando minha intimidade para com cada um deles.

Biancardine provavelmente me esfaquearia pelas costas com seu apontador para testar minha concentração na direção. Garcez acabaria me fazendo parar pra comprar uma pizza de graça pra ele. Oliveira dormiria em minhas costas e isso seria desconfortável. Losina ficaria tapando meus olhos para me fazer aperfeiçoar minha “intuição de motociclista”. Carlito já estava pesado demais para subir em qualquer veículo. Dutra passaria o tempo todo berrando no meu ouvido. E o Sr. Esferográfica já estava ligando para a polícia... Eu não poderia decidir algo importante assim tão rápido, e a dúvida estava me consumindo. Quem eu escolheria?


***


Passei pelo cruzamento e entrei numa descida, deixando a inércia fazer seu trabalho. Chegando ao final dela, virei à esquerda, acelerando, e parei em um farol. De um dos bares locais saia um cara que pensei já ter visto antes em algum lugar, e distraído, ele subiu em sua moto que estava parada na rua. Parecia ter bom gosto musical, pela jaqueta de couro, jeans e correntes que vestia. Deu a partida e uma meia volta, se virando para seguir em direção contrária à minha. Como um bom “parceiro das estradas”, resolvi cumprimentá-lo.

- Eaí. – disse, me virando e tentando me equilibrar com meu passageiro às costas.
Não é a verdadeira foto dele. Por algum motivo, ele não quis que eu tirasse sua foto.

O homem se virou para responder, mas ficou embasbacado.
Ele apenas continuou olhando, sem concluir nenhuma frase. Por fim o farol abriu e eu mandei um gesto de despedida com a cabeça, seguindo meu rumo.

- Eaí? Curtindo o passeio? – perguntei ao meu passageiro.
- Meh. – respondeu Larry.

Foi nesse momento, com minha alpaca debruçada sobre minhas costas, que tive certeza: Larry era macho. O bom é que eu já estava usando a minha rolha de proteção.

Um comentário:

Anônimo disse...

usahuuasuhsauhusauhasuhsahsahu
seus posts tão cada vez melhores.
Talvez seja pelo fato de vc estar seguindo sempre uma linha de acontecimentos lógica. Ou ilógica. Ou não... -qq
Mas de uma coisa eu sei.
Que tô rolando de rir! sauhsauhuhsauhsa

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