29 de outubro de 2010

Suposto Conto de Terror em uma Sexta-feira à noite


Era sexta-feira. Apenas uma dentre as várias antecessoras a esta. Só mais um dia de trabalho árduo, tendo de tirar colegas colunistas da cadeia pela terceira vez na semana, alimentar suas alpacas e gatos de estimação, além de cuidar das finanças de minhas lojas semiclandestinas (digo isso pois elas eram legais, só não têm um espaço próprio, o que me obriga a utilizar o cubículo não apenas para escrever). No entanto, era a primeira sexta-feira véspera de Halloween que eu passava na Contos de Bar. A decoração do escritório contava com caveirinhas fosforescentes, máscaras de cabeças de aliens, patas peludas de lobisomem no lugar das maçanetas e paredes manchadas de sangue – a princípio – falso. Resolvi aderir ao clima, e fui trabalhar usando meu traje típico de fã de Harry Potter (o que incluía um chapéu pontiagudo preto, uma capa da mesma cor com o emblema de Ravenclaw no lado esquerdo do peito e uma vassoura afanada do zelador Foster).

Não apenas meus colegas, mas todos os funcionários do escritório também vieram a caráter (não que fosse algo digno de comparação com o meu traje, obviamente). Júlia usava uma camiseta com os escritos em letras garrafais, vermelhas lembrando o sangue na parede “Loira do Banheiro”, Antonelli usava roupas listradas de preto, laranja e roxo, Garcez e Oliveira carregavam abóboras de plástico, pedindo doces e dinheiro para qualquer um que cruzasse o caminho deles. Biancardine se fantasiara de tentáculo – foi o que presumi pelo pedaço de pano lilás que ele usava, com dois furinhos no lugar dos olhos, se balançando constantemente e dizendo “Feliz Halloween!” numa espécie de saudação. Rodrigo (também conhecido como Sr. Esferográfica), Carlito, Ramon e Larry andavam cada um com duas das letras que compunham a palavra “Halloween” escritas em plaquinhas de madeira que penduraram no pescoço. Paulo limitou-se a vir com uma longa capa preta, de gola alta, e caninos postiços manchados de vermelho, numa tentativa de vampiro.

Já estava na hora de encerrar meu expediente e descansar algumas horas em casa. Empilhei alguns rascunhos, peguei minha bolsa e escrevi um pequeno bilhete ao Foster, me desculpando por ter pego Leucádia (Foster apelidara a vassoura, com a qual tinha conversas freqüentes) emprestada e garantindo que ela seria entregue em perfeitas condições, caso ninguém resolvesse atear fogo nela ou vendê-la no ebay. Caminhei em direção as escadas – depois de experiências mal sucedidas envolvendo o elevador, as escadas sempre são uma opção.

Meu relógio de pulso apitou, anunciando a passagem de uma hora. Quando fui checar o horário, a luz azul-clara que vinha do mostrador, juntamente com as caveirinhas fosforescentes eram as únicas coisas que iluminavam o escritório.

Era um Black-out.

Meus ombros caíram, num protesto silencioso, acompanhado de gritos de euforia, raiva e um “Alguém viu a minha vassoura?”.

- Ótimo.
- Calma, calma. – era a voz de Paulo espantosamente se sobressaindo naquele barulho. – Além das caveiras grudadas na parede, só consigo enxergar a Dutra. Se tiverem objetos luminosos, se identifiquem. – ele tirou o celular do bolso e apertou um botão qualquer, iluminando seu rosto.
- Acho que posso ajudar. – o Oliveira disse, tirando de trás das costas uma espada jedi, que iluminou o escritório de maneira precária.

Nos reunimos, em círculo, e sentamos no chão.

- Então, o que vamos fazer? – Paulo perguntou.
- Meh. – disse Larry, de modo informativo.
- Ficar aqui. – antes que eu pudesse abrir a boca todos falaram em uníssono.
- Dutra? – a voz de Paulo era suplicante.
- Bem, chefinho... – ajeitei meus óculos sobre o nariz, e cruzei os braços. – Ficar aqui não é a minha escolha ideal, mas, relativamente, é a mais segura a ser feita no momento. Quer dizer, descer as escadas, mesmo com o auxilia da espada jedi é arriscado, afinal, ninguém aqui quer quebrar o fêmur, as vértebras lombares, a clavícula, o maxilar ou até mesmo o...
- Ok, Dutra, já entendi. – Paulo me cortou. Huh, que rude. – O jeito é passar a noite aqui.
- O que significa... – Antonelli deu a deixa, os olhos brilhando no escuro. Ele tossiu e completou, a voz assustadoramente fina: – Histórias de terror. Então, quem poderia se voluntariar para a nobre missão de...
- Eu conto! – Biancardine se levantou de súbito.
- Histórias de terror que não envolvam tentáculos. – esclareceu o Antonelli. – Temos criaturas inocentes aqui. – e apontou para o Larry.

Biancardine, há muito contra-gosto, voltou a sentar no círculo, bufando e murmurando algo como “Estaria denegrindo a imagem das histórias de terror se não envolvesse tentáculos nelas”.

- A decisão de quem será escolhido para contar a história será feita pela espada jedi. – disse Oliveira, de maneira solene, inclinando a espada em minha direção.
- Por que eu? – disse, levando uma das mãos aos olhos numa tentativa de me proteger da luz verde esbranquiçada que saia da espada.
- Porque essa é a decisão da espada. – Garcez falou o óbvio.
- Mas...
- Você está contestando a decisão da espada jedi?! – Oliveira berrou, indignado.
- Uma espada jedi “Made in Paraguay”!? – apontei para o cabo da espada, tentando não aparentar o susto que levara ao ouvir o Oliveira berrando. – Sem ofensas, Ramon.
- Não deixa de ser uma espada jedi. – o Sr. Esferográfica disse.

Fuzilando o Sr. Esferográfica com o olhar e percebendo como o diálogo procederia, suspirei.

- Está bem, eu conto. Mas já aviso que não vou contar uma história que conheçam ou estejam familiarizados. – sorri no escuro, procurando algo na bolsa. Dela tirei um livro. – “Lendas Japonesas”. – li em voz alta.
- Dutra, acho que todos nós já vimos “O Chamado” e...- Paulo começou, mas foi interrompido por meu olhar de reprovação. – Mas nós podemos ver, ou no caso, ouvir, perfeitamente outra vez.
- Não vou contar essa história. – tsc, Paulo subestimava meu gosto literário. – A história que vou contar aconteceu centenas de anos atrás, no longínquo Japão feudal, no qual uma bela, jovem e vaidosa mulher vivia. – umedeci os lábios, dando continuidade a narração. – Ela era casada, mas não era fiel ao seu marido. Passado algum tempo, ele logo percebeu a traição e decidiu vingar-se da mulher.
- E é nessa parte em que os tentáculos aparecem. – Biancardine concluiu, de maneira triunfante.

Numa velocidade não-humana, arranquei a espada das mãos do Oliveira, me ergui e berrei em plenos pulmões.

- JÁ QUE VOCÊS INSITIRAM TANTO PARA QUE EU CONTASSE ESSA MALDITA HISTÓRIA DE TERROR NA VÉSPERA DO HALLWOEEN VÃO FICAR SENTADOS E OUVIR ATÉ O FINAL! – brandi a espada na direção de meus colegas e chefe. Eles se limitaram a se afastar alguns centímetros de mim, se encolherem e chamarem por suas mães. Ou quase isso.

Ouvimos o vento uivar, sinistro, na rua. Voltei a sentar, colocando o livro sobre minhas pernas.

- Como eu dizia...O marido resolvera vingar-se de sua mulher. Sabendo da vaidade da mulher, ele concluiu que a melhor maneira de vingar-se dela seria afetando sua linda e pálida face. Numa atípica noite fria de verão, ele a atacara, rasgando sua boca de orelha a orelha. Ao terminar de lhe deformar o rosto, ele riu e perguntou: “Quem considerará você bonita nesse estado?”.
- Cruel...! – Ramon e Carlito disseram ao mesmo tempo.
- Desde então, ela vaga, de vila em vila, de cidade em cidade, com uma máscara cobrindo seu rosto. Durante a noite, ela se aproxima de algum passante na rua e pergunta “Você me acha bonita?”. Se o passante concordar ela retira a máscara e pergunta novamente: “Mesmo assim?”.
- E o que acontece caso a pessoa responda “não”? – Paulo perguntou, usando a capa de vampiro como escudo.
- Ela fará a mesma marca que o marido deixou em seu rosto. – completei com um sorriso macabro.

Um silêncio ainda maior se apoderou do escritório, o suficiente para o Carlito se manifestar na conversa e perguntar algo útil.

- Donde está Júlia? – o sotaque espanhol carregado se fez ouvir, desprestigiando minha história.
- Ela bem está aqui, Carlito do meu lado...- me virei para o lado direito. Ao invés de me deparar com ela, vi o Garcez com minha carteira na mão, contando dinheiro. Apontei para a espada jedi. – Devolva o dinheiro. Agora. – ele fez o que eu disse. - De qualquer maneira, precisamos ir atrás dela.

- Por que? – Biancardine falou.
- Tentáculos não têm opinião. Na aqui, ao menos.
- Tudo bem, Antonelli, seja útil e faça a pergunta para mim.
- Por que eu deveria te obedecer em primeiro lugar?
- Essa é a pergunta errada. – disse o Garcez.
- Precisamos procurá-la porque ela está sozinha em um black-out, com frio e provavelmente com abstinência de sacarose. E vocês sabem o que acontece quando ela está com abstinência de sacarose. – senti arrepios percorrerem meu corpo. Ergui-me. – Vocês não vêm comigo? – perguntei.
- Ah, que seja. – e levantaram ao mesmo tempo em que ouvimos a porta do banheiro público do quarto andar ranger.
- Não foi nada. – tentei tranquilizar mais a mim do que meus colegas. – Todos aqui sabem como essas portas são velhas e vivem rangendo, não é?
- As portas foram trocadas semana passada. – Paulo me corrigiu.
- Bem...- minha mente trabalhava em uma hipótese válida para ser usada como argumento. – Portas têm defeitos, às vezes...Cupins, talvez? – pigarreei.
- Continuemos nosso caminho. – disse o Oliveira, brandindo a espada jedi.

Andamos até a porta do banheiro, que estava semi-aberta. Tive a sensação de que todos engoliram em seco ao mesmo tempo, enquanto a espada iluminava o ambiente e ouvíamos ruídos estranhos do banheiro. Eram duas vozes, uma era visivelmente feminina, a outra era abafada, e falava baixo, o que não nos permitiu ouvir todo o diálogo apenas uma frase.

- Mesmo assim?

Um pulo em conjunto para trás foi realizado com uma sincronia admirável pelos homens do escritório. Eu permanecia parada, meio grogue, encarando a porta. Olhei para trás.

- Vão deixar a colega de vocês ser mutilada por uma psicopata japonesa vaidosa!?

Eles não responderam.

- Ah, dane-se. – arranquei mais uma vez a espada das mãos do Oliveira e com o pouco que me restou de ousadia (porque a minha coragem tirou férias nas Ilhas Canárias no instante em que a porta rangeu) e esperando que Júlia tivesse aplicado algum golpe de kung-fu eficiente na Kuchisake onna do Ocidente, dei meu melhor chute contra a porta.

Aparamente ignorando meu resgate, encontrei Júlia e Foster (acompanhado de Leucádia) discutindo.

- Mesmo assim, Foster, mesmo assim! – Júlia tirou algo das mãos do zelador.
- Mas essa barra de chocolate já passou da validade!
- Eu já sei disso, Foster, mas é chocolate suíço. Suíço! Essa é uma iguaria que só se prova uma vez na vida! – quebrou a barra de chocolate. – Então, qual é a história de terror que eu perdi?

Maldita hora em que me tornei amiga de uma viciada em açúcar no sangue e fui trabalhar no mesmo lugar que ela. E mais maldita seja a hora em que acreditei que pudesse haver uma Kuchisake onna ocidental.

Leucádia, a inseparável companheira do zelador Foster

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Design by Contos de Bar | Modified by 1UP