30 de outubro de 2010

Casa nova, antigos colegas.

Acordei no meu colchão. Uma ressaca moendo minha cabeça, um capacete de motociclista na cabeça e um cachorro lambendo meu pé esquerdo, cheio de algo que lembrava mel. Não fazia idéia de como tudo aquilo havia parado na minha cama. Lembrei, uns minutos depois, que eu estava no meu novo apartamento. Sim! Eu havia ido morar sozinho! Levantei de uma vez, bati a testa na parede. Eu havia trocado meu colchão de lado. 

Minha cama não existia mais e eu agora dormia apenas com o colchão. Eu havia queimado minha cama para cozinhar meu miojo na noite passada. Levantado, tirei aquele capacete, que na verdade reparei que era uma jibóia enorme que tentava me espremer. “Hm, lanche!” Pensei. Dei um tapa na cabeça da jibóia e ela saiu rastejando e foi se armazenar embaixo da minha pia. Esperando uma próxima noite, imagino.

Após fazer a barba e tomar um café da manhã reforçado com um bom uísque, eu resolvi ir ao trabalho. Saí para o corredor do prédio, abri a porta do elevador e apertei o térreo. Enquanto descia o elevador comecei a dançar macarena. A mulher, uma senhora religiosa extremamente velha reprovou minha atitude e principalmente minhas roupas. Ou a falta delas.

Chegando no térreo, seu Glicoperson, o zelador, me olhou com uma cara feia. Dei-lhe um beijo na testa careca, seguido de um soco. Roubei suas roupas, e dei-lhe um sorridente bom dia. Chutei-o delicadamente da cadeira em que ele se encontrava, peguei-a e arremessei contra a janela. O fato de existirem portas no mundo era irrelevante naquele momento. Pulei a janela, e caí. Caí mais do que deveria. De fato, após recobrar a consciência, algumas horas depois, eu descobri que havia subido o elevador, ao invés de descer e que eu havia roubado as roupas do pai do meu editor, Paulo. Arrastei-me cerca de dois quilômetros até perceber que minhas pernas estavam perfeitamente bem. Levantei, e voltei para casa. No caminho, um homem me abordou:

- O senhor sabe onde fica essa rua? – Perguntou me mostrando um pedaço de papel com um endereço qualquer.
- Sei sim, o senhor pega a esquerda e segue reto até a placa “Kokoto’s Bar”. Lá o senhor se informa. – Esqueci de avisá-lo que o Kokoto’s Bar é um conhecido bar de estupradores. Ele vai reparar uma hora.

Glicoperson.

Continuei minha caminhada habitual subindo no teto dos carros parados enquanto imitava um avião militar e jogava ovos nas pessoas dentro dos carros. No meio do caminho encontrei um conhecido.

- Olá, Biancardine! – Disse, cordialmente, estendendo a mão.
- Eu sou a Dutra, e tire a mão... daí! – Disse ela enquanto olhava horrorizada eu aproximar minha mão perigosamente de sua testa.
- Agora já foi. – Eu retruquei, dando-lhe um tapa um pouco mais forte que o esperado.
- Seu idiota – Dutra retirou um saco de gelo da sacola que trazia e colocou-o na testa. – O que está fazendo aqui, Garcez?
- Eu moro aqui.
-Não mora não, eu moro. – De fato, eu estava na cozinha dela. Ótimo argumento.
-Tanto faz. O que VOCÊ está fazendo aqui? Hoje é sexta-feira e você deveria estar tra-ba-lhan-do.
- Hoje é sábado, Garcez. –Ela me olhou com cara de desconfiada.
- Fodeu. – Dizendo isso, eu saí voando. Não, eu não voei de fato, mas foi uma bonita queda em cima da mesa com tampo de vidro da Dutra. Após o estrondo a Losina saiu do banheiro da Dutra, com várias barras de chocolate (Espero, juro mesmo.) e uma cara de alucinada.
- Meu Deus. – Disse a Dutra enquanto saía com as mãos na cabeça. Após ela sair da sala, dizem que o grito pôde ser ouvido de Moscou.

Após devidamente satisfeito com o almoço que roubei da Dutra, fui esperar um ônibus. Entrando no ônibus, expulsei o motorista do seu assento, olhei para ele e disse: “Ninguém dirige o meu ônibus.” Enquanto saía na noite na estrada. Às duas e meia da tarde, parado no trânsito de São Paulo.

Algumas horas depois, cheguei ao escritório. Paulo me esperava com uma cara de quem comeu carne de lhama e não gostou. Eu gostei, particularmente.

- Garcez. Sua crônica. – Ele disse, esticando a mão.
- Terminando, chefinho. – Eu retruquei com um sorriso após cuspir sangue na mão do Paulo.

O fato de o Antonelli estar em uma piscina no meio do andar era uma rotina, mas ainda parecia incomodar nosso redator. Principalmente com uma alpaca dentro. Coisas da idade, imagino.

Após escrever qualquer coisa sobre como a vida é chata e ficaria melhor com uísque no lugar de água nos bebedouros, eu saí do prédio, peguei um táxi, expulsei o motorista, engatei a ré e saí direto para minha casa.

Quando estava na portaria, Antonelli, Biancardine, Fábio, Dutra e aquele cara que acha que é uma colunista mulher, chegaram. Estavam todos animados para uma tal festa que eu havia planejado. Eu não havia planejado nada.

Entramos no meu apartamento e a Dutra foi ao banheiro (informação desnecessária, eu sei). Biancardine abriu a garrafa de vodka e começou a beber compulsivamente. Antonelli estava só de cuecas dançando na frente daquele cara estranho.

Não há muito o que contar após isso. Acordei três dias depois, sem as cuecas (mas de calça) em um avião para Moscou. Soube, depois que voltei para o Brasil deportado por escrever meu nome na neve em frente à estátua de Lênin, que aquele cara estranho comeu todo meu chocolate, o Biancardine tomou todas as minhas bebidas, a Dutra roubou meu colchão e o Antonelli foi encontrado desacordado na minha banheira, que estava cheia de amido de milho.

Um comentário:

MikaHylian disse...

Falho em entender como alguém é capaz de não apreciar a carne de lhamas.

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