“Escuta, Biancardine, venha aqui, temos que discutir algo…” Paulo subitamente ficou em silêncio. Sua face mostrava terror, pudim de chocolate e uma dúzia de outras coisas. Uma delas, segundo minha imaginação, era atração sexual.
“O que foi?” Perguntei, bebendo um copo de whiskey.
“Suas roupas. O que… Aconteceu?”
“Ah, gostou? É, eu herdei este terno de uma loja que faliu.” Mostrei a marca do terno, sorrindo como um babaca.
“Qual era a loja?”
“Não faço idéia. Só sei que este terno chegou no correio, e que ele cheira como eu.”
“A whiskey e buceta?”
“Obrigado” Sorri ainda mais.
“Espera, isso é de Californication.”
“Ah, é mesmo. Excelente série.”
“Com certeza. Mas esse não é o ponto!” Ele balançou os braços, irritado.
“Qual é o ponto?”
“Venha comigo. Temos uma nova pessoa na equipe que eu quero que você e os outros colunistas conheçam.”
“Se for alguém para me substituir, você já sabe a punição” Mostrei a colher, e um tremor percorreu pela espinha dele.
“Não se preocupe” Ele riu nervosamente “Ninguém irá te substituir. Jamais. Agora abaixe a colher. Por favor.”
“Ok, mas me dê o seu cinto.”
“Meu cinto?!”
“Sim!”
“Por quê?”
“Não sei. Gostei dele. Combina com minha calça. Agora me dê ele, ou sofra a colher.”
“Ok, ok! Só não use a colher.” Ele tirou o cinto e passou-o para mim, resmungando. Botei o cinto, que estranhamente cabia direito na minha cintura, e guardei a colher.
“Podemos ir para a sala de reuniões agora, por favor?”
“Temos uma sala de reunião?” Perguntei, pasmo.
“Não. Vamos usar a do escritório vizinho, que tem uma.”
“Ah. Ok, vamos nessa.”
Minutos depois, todos nós do Contos de Bar estávamos sentados em cadeiras fofas rosas com detalhes de flores vermelhas, e eu estava preso à minha cadeira por algemas peludas — Nosso escritório era vizinho de um escritório de uma revista local pornográfica.
“Bem, pessoal…” Paulo começou, animado. Carregava com dificuldade uma caixa, e em seguida a colocou no chão. “Tenho excitantes notícias para contar-lhes.”
“Você comprou vinte quilos de lubrificante?” Perguntei, fitando a caixa. Ela me era familiar, por algum motivo.
“Não.”
“Então isso é uma caixa de camisinhas.”
“Não!”
“Impossível. É a mesma caixa que eu uso.”
“É a caixa da minha sobrinha.”
“Sua sobrinha tem camisinhas pra cacete então.”
“Ela é virgem!”
“Sei.” Zombei dele.
“Enfim. Posso continuar?” Fitou-me, ódio irradiando sorridente de seus olhos.
“Tem algo que eu diga que possa lhe silenciar?”
“Não.”
“Então continue.”
“Pois bem. Pessoal, estou animado, pois hoje, atingimos uma marca impressionante.”
“O Biancardine quebrou seu recorde de denúncias na polícia em um único dia?” Perguntou Losina.
“Não” Respondi, irritado “Só fui denunciado duas vezes hoje.”
“O Biancardine está usando um terno?” Perguntou Dutra.
“Bem, sim, mas não é esse o motivo” Paulo ganhou de mim na hora de responder.
“O Larry morreu?” Foi a vez do Oliveira.
“Não!” Antonelli gritou.
“Por enquanto, Antonelli, por enquanto.” Ele voltou a sentar-se, fazendo uma daquelas cenas de vilões de James Bond, só que menos foda.
“Ah, pelo amor do padre” Resmunguei quando Garcez se levantou “Ele está comemorando que nosso número de visitas diárias aumentou!”
“Sim!” Paulo apontou para mim, sorrindo.
“E então ele trouxe camisinhas para termos uma orgia para comemorar tal evento.” Continuei.
“Sim! Digo, não!” Ele jogou um grampeador na minha testa. Covarde, atacando colunistas algemados.
“O que estou fazendo para comemorar” Ele completou “É contratar uma estagiária para o Contos de Bar!” E então ele abriu a caixa, e de dentro dela, saiu uma mulher de dezessete anos, de cabelos negros, seios bem definidos e um corpo que me fez quebrar as algemas que prendiam meus pulsos.
“Olá!” Apertei sua mão, sorrindo.
“C-como diabos você se soltou?” Paulo perguntou, embasbacado. E então lhe mostrei a algema quebrada em meu pulso.
“O nome é Biancardine” Continuei “Victor Biancardine. Mas você pode me chamar de Clint.”
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| Nós do Contos de Bar usamos esta foto sempre que podemos. |
“Eastwood?” A estagiária perguntou.
“Não, Biancardine. Clint Biancardine. Fica bem legal, não acha?”
“Acho” Ela soltou um riso leve, mas que era suficiente para mim. Naquela noite, ela seria minha.
“Biancardine” Paulo me puxou para longe da estagiária, cujo nome ainda devo aprender em nome da ciência. Ciência do sexo, mas ciência de qualquer forma. “Ela é minha sobrinha.”
“A das camisinhas?” Perguntei, sorrindo ainda mais forte.
“Sim. Mas não são camisinhas!” Ele me deu um tapa.
“Qual o nome dela?”
“Roxeanne.”
“Uh, Roxy. Gostei do nome. Bem, Paulo, hoje à noite, dormirei com a estagiária. Alegre-se com esse fato, titio.”
“Não me chame assim” Ele tentou me dar outro tapa, mas já era tarde demais.
“Então, Roxy…” Comecei, ainda sorrindo “Que tal hoje à noite você e eu pegarmos o expresso Oral e irmos para minha casa, pelo trem das nove e quinze?”
“O quê?!” Ela riu. Espere, ela riu? Por que diabos ELA riu, e todas as outras pessoas com quem tentei essa frase só me deram tapas? Será que o Paulo tinha passado sua inegável admiração por mim para ela por osmose?
“Você é tão tolo” Ela apertou minha bochecha, que me deixou desconfortável. Não por ela me apertar, mas por me obrigar a usar a palavra ‘Bochecha’. Bochecha. Palavra mais feia.
“Bem, ainda mantenho minha oferta de você vir até minha casa e conhecer todas as minhas tolices. Que tal?”
“Talvez, algum dia.” Ela sorriu de volta, o que me deixou inacreditavelmente surpreso.
No dia seguinte, quando entrei no escritório, todos me cumprimentaram, excitados. Contei uma piada, e até mesmo a Losina riu da piada. Ok, tinha algo de muito errado. E eu havia de descobrir o que era.
“Bom dia!” Roxy me cumprimentou, sorrindo “Te trouxe seu café preferido.”
“Obrigado…” Tomei um gole, desconfiado. Quase cuspi, surpreso “Isto é Jack Daniels!”
“Não é o seu preferido?”
“Sim! Mas como VOCÊ sabe disso?”
“O Paulo me contou.”
“Ah.” Olhei para o vazio, sentindo-me como um idiota. “Aliás, onde está ele?”
“Ele não quer ser perturbado.”
“É, certo.” Passei por ela, em direção ao seu escritório.
“Estou falando sério!”
“Aham, acredito.”
“Belo terno, por sinal” Ela tentou me distrair.
“Obrigado” E abri a porta.
Para minha surpresa, Paulo estava sentado na cadeira, olhando para o teto. Todas as luzes estavam apagadas, e ele gemia quando tentava falar. Na sua mesa, estavam garrafas vazias de vodka, whiskey e outros.
“Pelo amor do Smurf! O que aconteceu com você, Paulo?!”
“Ele está descansando” Roxy disse atrás de mim, seus olhos azuis acendendo-se como chamas. Chamas azuis. E vermelhas, pois eles se tornaram vermelhos “Sugiro que você saia.”
“Sua monstra!” Taquei água nela, torcendo que ela derretesse. Nada. Droga “Primeiro substitui meus colegas de trabalho por robôs, e agora transformou o Paulo numa versão do Paulo de ressaca!”
“Primeiro de tudo, você bebeu?”
“Sim, aquele café de Jack Daniels que você me serviu!”
“Ok, acho que isso é culpa minha então.”
“A-ha!”
“Take On Me?”
“Não!” Gritei, depois de cantarmos Take On Me por alguns minutos. Eu realmente gostei da sobrinha do Paulo “A-ha, a culpa é sua!”
“Sim, foi o que eu disse. Te embebedei sem querer. Não sabia que você era tão fraco na bebida.”
“Não sou fraco! Você que é uma bruxa que transformou meus amigos em robô! Agora dissolva quando eu jogar água em você!” Taquei mais água nela, fazendo-a fitar-me irritada. Por fim, corri para longe, sem querer dando de cara com a Dutra.
“Dutra!” Gritei, apertando-a com as mãos.
“O que foi, diabo?”
“Todos os outros são robôs, e nossa estagiária é uma bruxa! E O PAULO ESTÁ DE RESSACA!”
“Ok, eu vou fingir que não ouvi isso, e continuarei a escrever minha crônica, ok? Agora dá pra você levantar da minha mesa?”
“Espere, você não é um robô?”
“Não, seu idiota.”
“Ontem” Continuei, desconfiado “Pedi uma pizza. O cara trouxe a pizza errada, então eu o espanquei com um arenque.”
“Isso era para ser engraçado?”
“Você não é um robô!”
“Não”
“Ainda bem.” Nesse momento, tentei beijá-la. Parecia a coisa certa a fazer, todo filme de terror tem essas cenas toscas. Ela me deu um soco, e começou a me xingar e cuspir.
“O que porra você está fazendo?!”
“Parecia a coisa certa a fazer. Todo filme de terror tem uma cena aonde os únicos sobreviventes se beijam.”
“Ok, você pirou de vez.” Ela disse, encaminhando-se para o vidro de emergência.
“Dutra, não faça isso. Se você me ama, NÃO FAÇA ISSO!”
Mas ela não me ouviu. Com o martelo atarraxado à caixa, quebrou o vidro que dizia “QUEBRE EM CASO DE LOUCURA MOMENTÂNEA DO BIANCARDINE (OU TÉDIO)”, pegou a arma de dardos tranqüilizantes, e deu um tiro em mim. E então tudo ficou escuro. E psicodélico. E alegre. E também um ornitorrinco voou pelo salão memorável com uma doce dança vingativa de estilos conflitantes alarmados.
“O que… O que aconteceu?”
“Você teve um episódio de insanidade, e a Dutra te atirou com um dado tranqüilizador.” Roxy disse, sentada em sua mesa. Com alguma dificuldade, levantei, e apoiei-me em sua cadeira.
“Isso significa que você não é uma bruxa?”
“Não” Ela riu “Não sou uma bruxa. Mas podemos todos ser robôs, quem sabe.”
“É, quem sabe. Ei, que aba é essa?”
“Dancing Queen?”
“Não” Disse, depois que cantamos Dancing Queen “Que Abba do COMPUTADOR é essa?”
“Ah, não é nada…”
“É um site de fan-fics. E é uma fan-fic sua!” Ri “Você é uma lunática, que nem o resto de nós!”
“Bem, e daí?”
“E daí que eu gostei de você, Roxy. Só que sua escrita com certeza pode melhorar.”
“E assumo que você vai me… ‘Ajudar’?”
“Eu farei de você uma escritora nem que isso me mate.”
“Isso é bom?”
“É bom sim” Paulo disse, saindo do escritório e esfregando a testa. “Ele pode ser completamente insano, mas pelo menos sabe escrever bem.”
“Tio!” Ela levantou, abraçando-o “Como você está se sentindo?”
“Estou melhorando” Ele sorriu “Obrigado.”
“Ei! E eu, não ganho um abraço?”
“Você quer que eu te abrace?” Paulo brincou.
“Estava falando com sua sobrinha. Mas se ela recusar, tudo bem. Aliás, o que diabos aconteceu com você, Paulo?”
“Ressaca. Você deve saber como é.”
“Sim, eu sei, mas você não bebe!”
“Bem, eu tive algumas notícias ruins… Relacionadas ao que você me disse da minha sobrinha.”
“Ah. Entendi.”
“Bem…” Roxy pronunciou-se, vermelha de vergonha “Que tal eu fazer para os dois um café?”
“Jack Daniels?” Perguntamos em uníssono.
“Pode ser.”









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