2 de novembro de 2010

Por que Nunca Devemos Negar Doces a uma Chocólatra

“Eu declaro a temporada de Halloween oficialmente aberta!” declarei, batendo a mão na minha mesa. Os outros colunistas mal levantaram o olhar para mim.
“O Halloween já passou.” algum deles gritou. Fiz uma careta.
“Eu sei. E eu não saí de porta em porta colhendo doces. E EU PRECISO DE DOCES!” bati na mesa novamente, fazendo minha nova cascata de chocolate se sacudir perigosamente. Equilibrei-a novamente e aproveitei para mergulhar outro morango. “O caso é” comi o morango “eu sempre fiz isso, desde criança. E não vou parar por causa de vocês!” bati o pé no chão. Não ia correr o risco de derrubar minha cascata de chocolate.
“E o que vamos ganhar com isso?” perguntou Biancardine, me olhando tediosamente. Sorri de leve.
“Bem, em primeiro lugar, vocês podem pedir bebidas ao invés de doces. Em segundo, eu posso fazer meu docinho de abóbora usar orelhas de gato.” pisquei para Victória, que levantou quase derrubando sua escrivaninha.
“Nem morta!” ela gritou. Sacudi a mão com descaso.
“Eu a conheço bem demais, querida. Você sempre faz o que eu quero.” ela abriu a boca para retrucar, mas inteligentemente desistiu. “E então, o que me dizem?” ninguém se moveu. “Bem, vocês acabam de perder a chance de ver a Victória de orelhinhas de gato.”
Depois dessa, todos concordaram, sem me espantar.

Menos de uma hora depois, até mesmo Ramon, Paulo e Larry estavam vestidos a caráter. Isso, é claro, quer dizer que todos estavam vestidos normalmente com uma cestinha de caveira nas mãos (ou, no caso de Larry, na boca). E eu tinha a impressão de que saía um vapor suspeito do cesto de Ramon.
“Todos sabem o que fazer?” perguntei, sorrindo. Ouvi alguns resmungos em concordância e puxei uma tiara com orelhas de gato da minha cestinha.
“Não se atreva a chegar perto de mim!” Victória gritou, cambaleando dois passos para trás.
“Biancardine, seu porco, segure-a.” ele ignorou meu xingamento e simplesmente segurou os braços dela para trás. Ela continuou se debatendo, gritando e principalmente me xingando, mas nada que me impedisse de colocar a tiara nos seus cabelos.
“Ah, que bonitinho – suspirei quando Biancardine soltou-a. “Não ouse tirar a tiara, ou você vai acordar com uma pintura rosa fosforescente no seu quarto.” a ameaça fez ela se contorcer de indecisão. “Agora, vamos!” comecei a empurrá-la pela rua.
Todos que passavam por nós se viravam pelo menos uma vez de volta. Isso, é claro, tirando os motoqueiros e caminhoneiros que volta e meia buzinavam. Victória tinha que levantar o punho e xingá-los em português, inglês, japonês e árabe cada vez que isso acontecia.
Ao chegar na primeira casa, bati na porta e empurrei-a para frente. Ela tentou passar, mas todos nós a impedimos. Quando a porta foi aberta, ela se virou lentamente.
“Sim?” falou um garotinho. Ele me parecia estranhamente familiar.
“Gostosuras ou travessuras!” gritamos. Ele piscou e olhou diretamente para mim.
“Vocês querem isso?” ele levantou uma caixa de bombons. Meus olhos brilharam.
“Sim!” guinchei, estendendo as mãos. Ele levantou a sobrancelha.
“Que pena. É meu e eu não divido.” uma imagem de uma cartola rosa e um pirulito de ecstasy surgiram na minha mente. Trinquei os dentes, mas o garoto simplesmente fechou a porta. Comecei a xingá-lo, mas Victória tapou minha boca. Mordi-a, e ela recuou, começando ela a me xingar.
“Tudo bem.” falei. “Tudo bem, eu tenho uma ideia. Ouçam-me.” dei um soco no estômago do Garcez que insistia que aquilo era uma perda de tempo. “Todos sabem qual é o lema do Halloween, certo?” alguns resmungos concordando. “Não ganhamos doces. Logo...”
“Travesuras!” gritou Ramon, no seu parco espanhol.
“Muito bem, Ramon. Deixarei que você fique com um pirulito. Agora, temos que entrar nessa casa e assaltar a despensa. Garotos, podem pegar todas as bebidas.” ouvi um urro de comemoração. “Agora, alguma ideia de como vamos entrar?”

A solução foi relativamente simples. Todos os caras, excluindo Paulo e Ramon, sabiam perfeitamente invadir casas. Não que fosse algo surpreendente, considerando a quantidade de queixas e ordens de restrição que chegavam todos os dias na casa de Paulo. E, mesmo assim, ele insistia em levá-las para o escritório, não que fizesse alguma diferença.
Dois cartões de créditos, alguns grampos e dez minutos depois, estávamos dentro da casa. A sala estava vazia, mas havia o barulho de uma TV ligada. Em silêncio, começamos a abrir os armários. Deixamo-los revirados, afinal, era uma travessura. Quando finalmente chegamos até a cozinha, paramos.
Era melhor do que poderíamos supor. Os armários com portas de vidros deixavam potes de balas e bombons a vista, junto com um bar bastante grande no canto. Eles foram esvaziados mais rápido que qualquer pessoa pudesse dizer ‘alpaca’.
Eu, por minha vez, comecei a abrir os armários no alto. Jogava as caixas de doces para Victória e Ramon, os únicos que não estavam atentos as bebidas. Estava quase terminando quando ouvi um suspiro. Todos paramos e nos viramos.
O moleque estava parado na entrada da cozinha, uma expressão de pânico no rostinho redondo. Ele abriu a boca para gritar, mas minha mira estava melhor do que nunca. Peguei um pirulito de ecstasy do bolso e o arremessei na direção dele, acertando-o em cheio na boca. Ele teve que parar para tossir, mas logo sentiu o bem-estar óbvio e se sentou, bem feliz com o seu novo pirulito.
“Pobres crianças viciadas.” suspirei, pegando a caixa de bombons que o garoto segurava e saí rapidamente dali, montada em Larry e ignorando os gritos de Antonelli.

Tão bonitinho...

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