- Gente – falei, repentinamente. Para variar, ninguém se mexeu. Na verdade, se você não tivesse uma garrafa de bebida na mão ou um decote absurdo, eles dificilmente se virariam. Suspirei profundamente. Victória, surpreendentemente, não estava ali e, pela primeira vez na vida, eu não fazia a menor ideia de onde ela estava. Por isso, abri uma das minhas gavetas e puxei um mega-fone de dentro dela. – GENTE! – berrei, fazendo as janelas tremerem.
O efeito foi o esperado. Marina deu um pulo na cadeira. Larry levantou as orelhas e... mugiu?... Os dois Brunos levantaram as cabeças automaticamente e Biancardine nem desviou os olhos da tela do computador. E Paulo saiu da sua sala, o rosto branco.
- O que foi isso? – ele perguntou, piscando, atônito.
- Nada, meu bem – falei, apontando uma faca de cozinha para ele – Agora, vá para dentro da sua sala. – ele me olhou por alguns segundos e fechou a porta rapidamente. – Bem – continuei, sorrindo para os meus colegas – Eu tive uma ideia.
- Eu acho que isso não foi uma boa ideia. – disse Victória. Eu a fuzilei e dei uma dentada na minha barra de chocolate.
- Largue de besteira – resmunguei com a boca cheia – Olhe, Paulo já está voltando com os nossos ingressos. – e era verdade. Nosso editor vinha na nossa direção, segurando um papelzinho apertado entre os dedos. – Obrigada, meu bem – sorri para ele, peguei os ingressos e guardei a faca de cozinha no meu bolso. – Bem, gente, vamos?
Meus colegas resmungaram. Eles disseram que não estavam afim de ir e que isso era uma perda de tempo, mas eu tinha ótimos argumentos. Uma faca, uma garrafa de bebida e fotos de uma certa colunista de cabelos negros e longos na praia podiam fazer milagres.
- Se não temos escolha... – murmurou Marina, acendendo e fechando seu isqueiro em seguida. Sorri para ela e mordi outro pedaço do meu chocolate.
- Não, não tem – retruquei alegremente.
- Eu me pergunto porque ela está de tão bom humor – suspirou Garcez, andando na direção do cinema.
- Segredo – cantarolei, girando no mesmo lugar.
- Ok, isso é realmente estranho! – gritou Victória, apontando para mim. Me retraí, olhando-a como um cachorrinho com fome. – Quem é você e o que fez com a tarada dos doces? – ergui a barra de chocolate, sem deixar de imitar o Gato de Botas. Ela suspirou. – Tudo bem. Quem é você e o que fez com a tarada dos doces mal-humorada e anti-social que eu conheci?
- Está aqui – girei novamente e apontei para mim. Victória ergueu as sobrancelhas e algo pareceu se encaixar em sua mente. Então ela arrancou a barra de chocolate da minha mão. – NÃO! ME DEVOLVA! – berrei, me atirando na direção dela. Ela girou delicadamente, me deixando cair no chão. Me sentei ali, choramingando.
Victória levou a barra até perto do nariz e o cheiro longamente. Então quebrou um pedacinho e colocou-o na boca.
- Eu preciso fazer xixi – falei, e tapei a boca e comecei a rir histericamente. Victória me olhou criticamente.
- Ecstasy – ela suspirou, e jogou a barra numa lata de lixo.
O cinema foi remarcado para o dia seguinte. Apesar de eu estar sob o efeito de drogas quando fiz a sugestão, eles pareceram realmente gostar dela. Claro que eu já estava normal, e basicamente desanimada quando entramos novamente no shopping.
- Acabou o efeito? – algum deles perguntou. Meu cérebro mal-humorado não registrou quem.
- Com certeza. Olha a cara de zumbi dela – tripudiou Biancardine. Olhei-o de soslaio, tentando encher meus olhos com toda a raiva que eu sentia naquele momento. Ele só riu.
Entramos no cinema, barulhentos como um grupo de adolescentes. Logo nos sentamos, ocupando três lugares em uma fileira e outros três na fileira logo abaixo. Ironicamente, caras em cima e garotas, pobres garotas, embaixo.
- Alguém se lembrou de comprar pipoca? – perguntei, tediosamente. Todos xingaram. Rapidamente foi decidido, de uma maneira muito justa, que Victória iria comprar para todos. Com o dinheiro de Paulo.
- Isso é muito injusto – ela resmungou, enquanto eu a empurrava para as escadas.
- Meu bem – começou Biancardine, em voz alta – Se você pedir para a Losina, ela vai comer todas as doces. Se pedir para a Rocha, ela vai tocar fogo em tudo. E Antonelli provavelmente nos daria uma bela cobertura de baba de Larry.
- E Deus sabe o que o Garcez e o Biancardine colocariam em cima – conclui, fazendo-a finalmente concordar e ir comprar as pipocas.
Ir ao cinema vale a pena só por isso.
Era o meio do filme quando aconteceu. Já havíamos levado pipocas de todos os outros espectadores, pois era simplesmente impossível que algum dos seis ficasse quieto por mais de dez minutos. E Biancardine já estava praticamente expulso do cinema por passar uma cantada em toda e qualquer mulher que ele vislumbrasse.
Marina suspirou profundamente. Ela tirou um cigarro do bolso e o acendeu. Então pegou um jornal de dentro da bolsa, virou um pouco de álcool nele e acendeu o isqueiro novamente. O fogo crepitou e cresceu enquanto ela o jogava para frente.
Os gritos começaram quase que instantaneamente. Um alarme começou a soar e as luzes de emergência se acenderam. Suspirei profundamente, com raiva, e protegi minha pipoca no momento que começou a cair água do teto.
- Que merda. Minha pipoca – resmunguei, tapando-a e saindo correndo.









2 comentários:
...
Boa, Lusina!
Adorei esse conto.. acho que vou fazer algo como a Marina fez... aliás, não tenho boas memórias desse nome, enfim...
Pode me passar uma foto da Dutra?
Toca fogo em tudo, meu rapaz! o/
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