29 de novembro de 2010

Crônicas Investigativas: Mulher Multicor

O dia estava terminando quando ela bateu na porta do meu escritório. O Sol aquecia minhas costas caridosamente, fazendo caminho por uma névoa de cigarros. Estava sentado na minha mesa, meu fedora e sobretudo apoiados no gancho atrás da porta de forma conveniente. Suspirei, pensando no meu último caso — fora há meses atrás.
— Entre! — Comandei, notando que minha voz havia se tornado extremamente parecida com a de Humphrey Bogart, mas ainda assim diferente o suficiente para evitar que fãs do ator queimassem-me vivo novamente. O que entrou pela minha porta, no entanto, atiçou-me em fogo mais rápido do que uma sardinha jogada em óleo quente. Não que sardinhas peguem fogo quando fritadas, claro.
Uma deusa entre mulheres, Afrodite, passou por baixo do arco da porta, vestindo um luxuoso modelo tubo preto tão delineado que dava para se ver cada traço perfeito de seu corpo sem ter que recorrer à imaginação — muito embora a imaginação não lhe fizesse jus. Seus cachos dourados apenas condiziam com seu rosto vívido e levemente rechonchudo, com bochechas um tanto quanto rosadas, e uma boca vermelha como o sangue que escorre do cérebro para partes mais indecentes do corpo àquela visão. Em outras palavras: Era um puta mulherão.
— Detetive Biancardine? — A deusa entre homens perguntou, já se preparando para o desapontamento.
— Já faz algum tempo que não me chamam assim. Mas sim, sou o Detetive Biancardine.
— Desculpe, mas não te chamam assim há tempo? Do quê te chamam então?
— “Fluffy”. — Imediatamente, o silêncio dominou o escritório.
—… Devo te chamar de… Fluffy?
— Se você quiser… Honestamente, eu não gosto do apelido, mas o que se vai fazer.
— Detetive, eu estou exasperada. — Ela quase gritou, impaciente. Seu busto largo subia e descia com sua respiração pesada com excitação. Que tamanho seria ele? 80? — Meu marido… Ele foi morto. — Talvez fosse 84… — Eu não sei o que fazer, mas eu sei que ele foi assassinado. E eu quero vingança. — Com certeza é maior que 80 — Eles me disseram que você era o melhor quando se tratava deste tipo de assunto, então eu vim assim que pude.
O fruto de uma longa e árdua pesquisa no Google Imagens por seios.
— Me diga… — Comecei, sem tirar os olhos de seu decote — Seu busto, é tamanho 87?
— O que isso tem a ver com a história? — Ela perguntou, cobrindo seu peito. Criminosa.
— Tem tudo a ver. Pode muito bem vir a ser uma informação crucial para minha investigação, minha querida. — Segurei suas mãos, fitando-a nos olhos. Quase que imediatamente, ela corou como um salmão. O Velho estava certo: Ainda tenho jeito com as mulheres viúvas desesperadas por qualquer tipo de amor.
— Bem, se você precisa saber, é 94. — 94! Por que eu não adivinhei antes?! Devo estar perdendo o jeito, como um hipopótamo que se esquece como se levantar pela manhã.
— Excelente. Agora, só uma última pergunta, senhorita…
— Layla.
— Belo nome. Bem, senhorita Layla, eu preciso saber: Aonde seu marido estava quando ele foi atingido pela… Morte?
— Aqui está o endereço. E rezo para que você encontre o culpado. Herbert era minha vida.
— Não se preocupe, Layla. Acharei o assassino nem que ele me mate em uma forma gloriosa e heróica.
— Obrigado, detetive. Eu não sei o que vou fazer sem meu marido. — Ela se deixou escapar, chorando em meu ombro. Com ternura, e aproveitando para sentir seu corpo espetacular, levei-a em direção à porta, dando-lhe instruções para que fosse para casa descansar. Com ela fora do caminho — e que caminho… —, comecei minha investigação.

O sítio de construção era velho e enferrujado, como uma mulher que passou tempo demais solteira, mas ainda assim se achava sexy o suficiente para casar e ter filhos, apesar de ter mais de sessenta anos. Andei por entre blocos de metal, até que cheguei ao centro. Numa camada funda de cimento agora seca, estava o formato de Herbert Manns: Obeso, feio, e provavelmente rude com detetives particulares.
A forma dele era, de fato, impressionante. Caberiam dois de mim naquele buraco, e ainda teria espaço para um anão albino roedor de nozes almiscaradas. O porquê de o terceiro elemento ter de ser albino e mascar nozes, eu não sei. Mas todos temos que nos manter nos nossos papéis: Os albinos com suas nozes, e eu com minhas investigações infrutíferas. E foi então que um colega bem ranzinza apareceu.
— Mas que porra você está fazendo aqui? — Ele perguntou, oferecendo uma xícara de chá também conhecida como “Uma bala no crânio”.
— O quê você está fazendo aqui, amigo armado com um rifle automático? — Procurei com certa ansiedade um lugar para me esconder, tentando disfarçar isso como sendo movimentos involuntários.
— Eu vou encher os dois buracos — foi só então que eu notei um segundo buraco no cimento no formato de seios — com cimento. Agora é sua vez.
— Estou aqui para investigar o assassinato de Herbert Manns. — Disse, não inteligentemente.
— Você veio fazer o quê?! — Ele apontou a arma para mim.
— Nada. Boa noite, até mais, colega.
— Acho que temos que dançar, “Colega”. — Disse, zombando.
— Como assim, dançar? Fazer uma luta de dança aonde o melhor ganha, ou… — E então ele atirou, errando por pouco. Imediatamente, me joguei para cobertura, apavorado.
— Escuta! — Gritei, depois de trocarmos alguns tiros e palavrões — Não precisamos matar um ao outro! Tem outra alternativa!
— Amigo, você só vai sair daqui de pés juntos!
— Servem os sapatos?
— Como?!
— Estou perguntando se, ao invés dos meus pés juntos, servem meus sapatos juntos.
— Bem… Sei lá. De que marca são?
— Não faço idéia. Vieram com o uniforme.
— Ah, me chupe! — Ele havia se irritado.
— Se eu fizer, você promete não me matar?
— Mas hein?!
— Eu só não quero morrer.
— Bem… Você é bom? — Merda. Ele vai pagar o blefe.
— Como diabos eu vou saber? Eu só quero manter minha cabeça intacta!
— Bem… Tudo bem. Eu estou indo até aí.
Ouvi-o andando do lugar de cobertura dele, devagar. Veio até onde eu estava, e começou a abaixar as calças. Imediatamente, atirei na cabeça dele. Não se fazem mais capangas mentalmente retardados como antigamente. Mas agora não era hora para reclamar sobre como assassinos de aluguel estavam ficando desaforados e idiotas. Eu tinha meu assassino, e era hora de confrontá-lo. Aquilo doeria, mas era o correto a fazer.
A casa de Layla era luxuosa, e cheia de espaço. Entrei pelo jardim, uma raridade naquela cidade, e bati na porta três vezes. Nenhuma resposta. Bati mais cinco vezes. Nada. Comecei uma batida de “In the Air Tonight”, e por fim ela me atendeu, vestindo apenas uma toalha.
— Layla! Eu descobri a verdade!
— O quê você descobriu? — Ela perguntou, surpresa.
— A verdade!
— Sim, mas qual verdade?
— A que você matou seu marido por dinheiro, e deixou seu busto no cimento por acidente só para foder comigo!
— Isso não faz o menor sentido.
— Não, mas é o máximo que eu vou fazer. Quase fui obrigado a chupar um pênis.
— Bem… Obrigada por nada.
— Não, espere! — Meti o pé na porta, impedindo-a de fechá-la na minha cara.
— O quê foi?
Mas não houve resposta. Eu a beijei, e ela ficou pasma. Arranquei a toalha de seu corpo, e fizemos amor doce amor. Ou, em outras palavras: Sexo animal. Eu simplesmente gosto de me gabar sobre minhas conquistas sexuais com minhas clientes emocionalmente vulneráveis.
Meia hora depois, havíamos acabado. Ela chorava, o que era um mau sinal. Geralmente significava que A) Eu fiz merda e a machuquei, ou B) Eu havia me esquecido de colocar uma camisinha. Mas neste caso, era C) Culpa por trair o marido morto. E também B), pois eu não tenho dinheiro para comprar camisinha. Eu fiz uma escolha entre comer, e comer com proteção. E acho que escolhi sabiamente.
— Oh, Victor, o que vou fazer! Não tenho marido, não tenho trabalho, e acabo de ceder meu corpo para um detetive desesperado e fedido!
— Precisava acabar com o pouco de auto-estima que me restava?
— Fuja comigo.
— Como?
— Fuja comigo. Vamos viajar o mundo, nos casar. Eu tenho dinheiro para nós dois. Vamos.
— Você está me convidando para ir com você numa viagem pelo mundo, de graça, transando com você, que parece uma modelo. É isso?
— Sim.
— Ok. Arrume suas malas, e vamos nessa.
— Espere, você disse sim? E seus escrúpulos?
— Meus escrúpulos não põem comida na mesa. Dinheiro sim. E honestamente, doçura, eu realmente gostei de você.
— Ah, Victor! — Ela jogou-se em cima de mim, e então tudo ficou bem escuro, durante bastante tempo. Quando acordei, estava nu, sem dinheiro, e sem idéia de onde estava. Acho que, no final, ela era mesmo culpada. E ela nem ao menos me pagou. Ah, bem. Vivendo, fodendo, e aprendendo.

Um comentário:

L. J. Lunewalker disse...

É cara, otima história.
Sempre fui fã de histórias de detetive, ainda mais quando é nesse padrão. Deu pra ver em "filme" na minha cabeça, totalmente em preto e branco.

Realmente bom.

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