- Eu tenho uma pergunta. – falei, levantando a mão. Apenas Victória me olhou, obviamente. Os outros sempre estavam mais preocupados bebendo, fumando, trocando tiros ou se escondendo da polícia. – Por que diabos o Garcez está morando aqui agora? Quer dizer, já estava apertado com essa cama de casal, uma alpaca e um mexicano... E agora também tem essa fuinha drogada?
- Não me venha falar de drogados! – gritou Garcez do seu canto rodeado de garrafas – Temos provas da semana passada! Fotos e vídeos!
- Não, você não tem. – falei, sorrindo amigavelmente e voltando a afiar uma faca de caça que eu tinha roubado de um velho careca com uma cicatriz estranha. Mas, é claro, isso não o intimidou.
- Sim, eu tenho – ele afirmou, convicto. Coitado.
- Meu bem – falei delicadamente – Sua casa pegou fogo, lembra? Ah, isso responde a minha pergunta! – acenei com a cabeça, contente. Garcez então percebeu a verdade.
- Ah, é. – comecei a cantarolar Seek and Destroy com os lábios fechados, alheia ao mundo. Mas então meu celular tocou e eu o atendi, sem nem ver quem era.
- Hm? – resmunguei, dando a entender que eu podia ouvir e não estava nem aí.
- Olá! – falou uma voz meio fanha do outro lado da linha que eu tinha certeza de que já havia ouvido – Você foi aleatoriamente selecionada para ganhar um carregamento de chocolates Lacta!
Todo o mundo parou. O escritório imediatamente adquiriu um tom de cinza que não existia antes graças a uma fogueira. Eu via as pessoas se mexerem e falarem, mas nenhum som chegava até mim. Abri e fechei minha boca várias vezes, como um peixe fora d’água.
- Como? – gani, e pigarreei para fazer minha voz voltar ao normal. – Me desculpe, o quê?
- Você ouviu certo! – gritou a voz fanha com um tom de apresentador da sessão da tarde. – Um carregamento inteirinho de chocolates Lacta, apenas para você!
- Você está mentindo – grunhi, coçando a cabeça. A pessoa riu do outro lado da linha.
- Não, não estou! Olhe só, amanhã iremos enviar uma barra de chocolate para você e você pode decidir se quer o resto, ok?
Um carro da Lacta, na minha imaginação
No dia seguinte, tinha uma barra de chocolate embrulhada em cima da minha mesa. Relutante, a abri e encontrei um cartãozinho que dizia algo como ‘Bom Chocolate!’. Tentei ignorar a barra, mas falhei em dois minutos. Eu mal tinha terminado de comê-la quando meu celular tocou novamente.
- Sim? – rosnei.
- Olá! – falou a voz, como no outro dia – Recebeu nossa barra?
- Sim – suspirei, inclinando minha cadeira para trás. – Estava maravilhosa.
- Então você vai querer as outras?
- É claro.
- Ótimo! – então ele me passou um endereço que eu tinha certeza de que ficava em outro canto da cidade. Anotei-o rapidamente – Então, amanhã estará lá o seu carregamento de doces!
- Cara – falei para Victória – Acho que vou cortar meu cabelo.
- Não faça isso – ela nem se virou para mim. Vaca. – Você vai se arrepender. De novo.
- Eu nunca me arrependi – retruquei. – Posso não ter gostado algumas vezes. Mas nunca me arrependi.
- Eu tenho provas do seu arrependimento.
- Meu bem, eu não quero tocar fogo na sua casa. – ela ficou quieta. Sorri e me levantei, saindo de lá.
Parei na frente de um salão de beleza. Tinha uma foto apertada nas minhas mãos e meus lábios estavam cerrados, parecendo uma fina linha no meu rosto. Respirei fundo, relaxei os ombros e entrei.
Uma hora e pouco depois saí de lá, muito diferente. Pelo menos eu achei. Para uma pessoa que teve cabelos longos a maior parte da vida, ficar com eles quase um palmo acima dos ombros era uma vitória e tanto. Satisfeita, fui para casa dormir.
Acordei totalmente descansada e muito bem humorada. Saí de casa cantarolando e dando bom-dia e pirulitos suspeitos para todos que encontrei na rua, até o momento em que entrei no escritório.
- Ei, você está perdida? – ergui os olhos para o Antonelli e levantei minha sobrancelha. Fiquei assim até o pânico se espalhar pelo rosto dele – MEU DEUS – ele gritou, pulando para trás e colocando a mão no peito – O QUE VOCÊ FEZ? – ele apontou um dedo na minha direção. Sorri e dei de ombros.
- Me livrei dos meus cabelos – falei, sacudindo a cabeça. O resto do dia passou assim. Tive que xingar o Biancardine e o Garcez por alguns minutos até eles finalmente aceitarem que era eu e não uma impostora.
Quando percebi as duas da tarde se aproximando, dei um adeusinho e saí rapidamente de lá. Meu encontro com a felicidade estava chegando. Pulei numa moto e liguei-a rapidamente, saindo antes que seu dono percebesse.
O armazém que achei ficava realmente no canto oposto da cidade. Mas não havia nada lá. Nada além de uma fuinha com um olhar meio bêbado e um sorriso sacana (fuinhas sorriem?).
- Isso é para você não me chamar de drogado novamente! – gritou ela, erguendo uma frigideira e atingindo minha testa.
Acordei horas depois com um galo na cabeça e uma vontade absurda de comer carne de fuinha ao shoyu. Mas o bicho já havia sumido, e deixado uma raiva inexprimível no seu lugar.









Um comentário:
Tu roubou o Locke??
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