17 de dezembro de 2010

A verdade sobre a morte de Dentinho

Abri a porta, fechando-a com um chute. Larguei meu peso no sofá, a alça da bolsa escorregando de meio ombro para cair no móvel acolchoado. Recostei minha cabeça na beirada e fechei os olhos, deixando um ruído longo e constrangedor preencher o cômodo. Minhas pálpebras se mexeram, preguiçosas, e fitei minha barriga, para depois encarar o mostrador do relógio e constatar que não havia ingerido nada em quase doze horas. Usando uma vassoura como muleta, cheguei à cozinha. Lavei as mãos, prendi o cabelo, arregacei as mangas da blusa e coloquei um avental.

Acabei por fazer um sanduíche e decidido por comê-lo na sala. Ao caminho de lá, percebi que havia um pequeno pacote na minha mesa de centro, junto com um bilhete. Sentei, larguei o prato com o sanduíche e prontamente reduzi a embalagem do pacote a inúmeros pedacinhos de papel empilhados. Dentro dela havia apenas uma caixinha com um dvd. Peguei, então, o bilhete, que estava manchado nas pontas com algo entre chocolate derretido e azeite de oliva. Nele estava escrito:

“Esse dvd contém uma forte revelação. Assista sozinha.”

Muito receosa e pedindo mentalmente que não fosse mais um dos dvds em que o Antonelli distribuía mensalmente aos colunistas com um documentário sobre alpacas, coloquei o dvd no aparelho e liguei a tv. Minha prece havia sido atendida, pois nada fora do comum acontecera. Pelo que entendi, a tal cena exibida no dvd se passava em um banheiro. Um banheiro extremamente parecido com o do escritório. A câmera mostrava que o banheiro estava anormalmente bem iluminado e se focava, estranhamente, na privada. Ouvi rangido familiar, algo parecido com o som se um hamster roendo grãos de girassol.

Levantei com um pulo, arremessando o sanduíche de tal modo que ele se grudasse contra o teto da sala. Minhas mãos largaram o prato em que o alimento estava, segurando a televisão com força, grudando meus olhos contra ela. Eu reconheceria aquela figura em qualquer lugar, aqueles pelinhos marrom-claros e macios, os olhos escuros e cintilantes, as patinhas pequenas, os dentes proeminentes. Era ele, o meu querido, amado, idolatrado e falecido bichinho de estimação, quase membro da família: Dentinho.

Quando eu percebi que Dentinho se aproximava da privada me afastei, como se tivesse recebido um choque. Coloquei uma mão no peito e tapei parcialmente meus olhos com a outra. Eu sabia o que ia acontecer a seguir. Gritei, avisando para Dentinho que aquilo não era sua gaiola, mas ele não me ouviu através do vídeo. Entretanto, pelo estreito espaço que os meus dedos deixavam, percebi que a cena tinha uma extensão a mais do que o doloroso e não merecido fim de Dentinho.

Além de assistir mais uma vez a morte agonizante do bichinho que se debatia na privada, percebi que uma mão estava segurando a cordinha de dar descarga. A câmera foi se afastando, revelando o braço e o resto do corpo daquela criatura desalmada. Tirei a mão que obstruía minha visão do caminho, vendo a cena, chocada. Não, aquilo não podia ser verdade. Eu simplesmente me recusei a acreditar naquele horror a minha frente. Assisti a cena, mais um, duas, três, quinze vezes, para me convencer de que aquela maldade fora real.

Tonta, faminta, mas enjoada o suficiente para não conseguir colocar nada na boca revirei minha bolsa sobre o sofá de modo que todos os pertences contidos ali fossem expelidos rapidamente. Catei meu celular entre eles e, como de costume, disque um número aleatório que prontamente atendeu.

- Venha para o meu apartamento. Já. – eu disse, trincando os dentes e tentando manter uma calma que há muito tinha ido pelo ralo. – Como você vai descobrir aonde moro é problema seu. Apenas venha. E não ouse demorar.

Enquanto minha “visita” não chegava, voltei até a cozinha, abrindo o armário de panelas. Tentei escolher uma que parecesse mais mortalmente assustadora. O máximo que consegui encontrar foi uma frigideira larga. Uma panela não era um bom instrumento para se ameaçar pessoas. Não por homicídio, pelo menos.

Vasculhei minha mente, tentando encontrar vestígios de algum instrumento que pudesse ser utilizado para aterrorizar uma pessoa que não fosse um colunista. Meus olhos reluziram e um sorriso sádico brotou em meus lábios. E isso tipo de coisa é um alerta claro de que estou passando tempo demais com a Júlia.

Caminhei em direção ao meu quarto, me agachei e meti a mão de baixo da cama. Quando senti algo frio em contato com a minha pele, puxei em seguida. Me ergui, contemplando o presente de aniversário que o Garcez havia me dado: um kit de tacos de baseball. Escolhi um de metal, muito polido, com um brilho aterrorizantemente reluzente e o cabo de madeira. Nesse mesmo instante, a campainha tocou. Me postei atrás da porta, o sorriso se alargando em proporção nada saudáveis.
O kit que ganhei do Garcez


- Entre.
- Ola. – o precário sotaque espanhol soou. - ¿Hay alguien ahí?

Ramon adentrou o apartamento, sentindo um vento cortante perto de seu ouvido direito, para constatar que a mesa de centro do meu apartamento estava rachada em duas. Eu definitivamente iria agradecer ao Garcez pelo presente.

-¿Qué pasa? – ele tentou ignorar o estrago que eu fizera.
- Eu descobri tudo! – respondi, fechando a porta e trancando com o máximo de voltas que a chave permitia. – Tudo, Ramon, tudo!
- Que se… - ele não completou a frase, pois teve de desviar de um golpe na cabeça.
- Não adianta tentar mentir! – eu brandi o taco com uma das mãos e apontei para o aparelho do dvd ainda ligado. – Eu vi! Eu vi tudo, Ramon, tudo!
- Por Dios! – ele se afastou, confuso e levemente chocado, ficando atrás do sofá.
- Eu confiei em você! – peguei o taco com ambas as mãos e golpeei o ar, furiosamente. – Eu achei que no meio daqueles incendiários eu podia confiar em alguém, mas não, eu estava redondamente enganada! – fui em direção a ele.

**

Do lado de fora do apartamento, três pessoas sem qualquer ligação aparente estavam paradas defronte ao meu apartamento. A primeira era um senhor de cabelo grisalho vestindo pijamas listrados, que mexia na ponta do bigode bem cuidado com frequência, a segunda era uma senhora baixa, trajando uma camisola envolta em roupão branco de rendinhas, com os cabelos presos em uma espécie de touca de pano, e o terceiro era um senhor alto, careca e com uma bengala, que franzia o cenho. Os três fitavam, com certa expectativa, a porta.

- Vocês estão aqui pelos gritos, não? – disse a mulher, quebrando o silêncio.
- Perfeitamente, senhora, perfeitamente. – disse o primeiro homem, alisando o bigode.
- Gritos? – perguntou o segundo homem. – Achei que alguém tivesse me chamado.
- É que a menina tinha gritado algo e eu fiquei preocupado, entende? – o primeiro homem prosseguiu, ainda alisando seu bigode e encarando os dois outros companheiros e porta, temeroso.
- Não adianta tentar mentir! Eu vi! Eu vi tudo, Ramon, tudo! – uma voz feminina soou abafada pela porta.

- Acho que é traição. – a mulher disse baixinho, cobrindo a boca logo em seguida.
- Tradição? – perguntou o mais velho do grupo.
- Traição, senhor, traição. - a mulher repetiu, balançando a cabeça em desaprovação. – Pobrezinha, nessa idade...
- Mas ela nem deu uma chance ao rapaz de seu explicar. – o homem do bigode tentou intermediar.
- Eu confiei em você! – a voz soou novamente, seguida por um som de algo sendo golpeado.
- Será que ela está...batendo nele? – o mais velho do grupo perguntou, o ouvido quase encostando na porta.
- Espero que não, meu senhor.
- Uma mulher traída é capaz de muita coisa. – a mulher da touca ponderou, fechando os olhos e balançando a cabeça.

**

- O que es...
- O que está acontecendo? O que está acontecendo, você me pergunta?! Justo você, que mentiu para mim? – eu quase cuspira as últimas palavras. - Ah, então você se esqueceu? Esqueceu do que você fez com uma criatura indefesa e inocente?


Ramon balançou os ombros, negando com a cabeça.

- O que...
- Fique quieto, seu infeliz! Você tirou a vida de uma criatura pura, que era quase um membro da minha família! – apontei o taco contra ele, que instintivamente se abaixou, deixando apenas os olhos e um tufo de cabelos visíveis atrás do sofá. – Eu vi e revi o momento em que você cometeu o ato. – minha voz tinha agora um tom rouco, dados os berros. – Eu vi. – repeti, me aproximando lentamente dele. – Você sabe quanto dinheiro eu gastei indo a psicanalistas?! Quantos pesadelos com a morte do meu amado animalzinho eu tive!? Quanto tempo eu empreguei em fazer um funeral decente e tentar tocar a vida sem aquele ser adorável?!
- ¿Cuándo? ¿Cómo?
- Quando eu vi você assassinar meu hamster impiedosamente? Faz menos de meia hora. Mas se esse “¿cómo?” se refira a “Quanto tempo você vai viver depois que o meu amiguinho aqui” – e indiquei o taco, que reluziu nada amigavelmente. - “Entrar em contato com os seus ossos”. – golpeei novamente, acertando uma almofada ao invés do paraguaio com inesperados – e indesejados – bons reflexos.
- Fue un accidente, lo juro!
- Seu assassino de hamsters…! – disse, baixando o tom da voz.

**

Os três continuavam encarando a porta, e, no caso do segundo homem, grudando-se a ela para tentar ouvir algo.

- Eu continuo apostando que foi traição. – a mulher cochichou para o homem do bigode. – Ela pegou o rapaz no ato meia hora mais cedo. Agora, está acertando as coisas do jeito dela.
- Espancando ele?

A mulher ajeitou a touca, desconcertada.

- É o que parece.
- Fique quieto, seu infeliz! Você tirou a vida de uma criatura pura... – eles não entenderam aquele trecho da fala da voz feminina, agora rouca. - Membro da minha família! Você sabe quanto dinheiro eu gastei indo a psicanalistas?! Quantos pesadelos com a morte do meu amado... - voz falhara aqui também - eu tive!? Quanto tempo eu empreguei em fazer um funeral decente e tentar tocar a vida sem aquele ser adorável?!
- Tirou a vida de um membro da família? – o mais velho do grupo repetiu.
- Então não era traição! – o homem disse, alisando a gola do pijama por alguns instantes e retomando a mexer no bigode.
- Ele assassinou o filho deles! – a mulher disse, com a voz aguda.
- No entanto, se referir ao filho como “aquele ser”...Que mãe desnaturada. – o homem mais novo falou.
- É claro, se você visse seu filho sendo morto por seu marido em dvd, se referir ao filho assim até é compreensível. – a mulher argumentou, segurando o queixo.
- Se isso é um caso de morte. – o homem do bigode começou. – Devemos chamar a polícia. Rápido. Antes que esse assassino resolva tomar a vida dela também!
- Mas o pior...- a mulher arriscou mais um palpite. – É que ele pode tê-la traído e matado o filho deles!
- Isso explica as horas no psicanalista. Mas não podemos desviar o foco, temos que ligar para a polícia.

Em menos de dez minutos, um grupo de dez policiais chegara ao prédio, estacionando viaturas no meio da rua e subindo os andares de escada e megafones em mãos. Logo cercaram o apartamento de onde os gritos vinham. Os três vizinhos explicaram a situação para o chefe do mini-batalhão.

**

- Yo estaba usando el baño, no vi el hámster!Cuando me di cuenta ya era demasiado tarde. – Ramon disse, se delongando.
- Então...Você não matou o Dentinho? – eu brandi o taco contra ele, sibilando.
- No! – ele respondeu, exasperado.

**

- Vocês estão cercados! – disse um policial que parecia exercer algum tipo de influência sobre os demais através do megafone. – Já aviso que estamos dispostos a negociar a liberdade da refém! Ninguém precisa sair machucado, apenas deixa-a livre e não atiraremos!


Seis minutos, três golpes de taco de baseball no ar, uma fuga não muito bem sucedida dos policiais e uma madrugada inteira na delegacia do bairro depois, eu finalmente tive minha primeira refeição do dia.

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