4 de janeiro de 2011

Não Planejado

Bocejei longamente. Estava com medo do momento em que teria de me olhar no espelho. Quando passei as mãos pelos meus cabelos, tinha sentindo-os espetados, apontando para todas as direções. Meu rosto provavelmente estava amassado e eu devia ter olheiras que me daria o apelido de ‘Panda’ em qualquer colégio.
Acima de tudo, eu estava simplesmente exausta. O telefonema da noite anterior havia simplesmente me aterrorizado. Não podia ser verdade. Eu sabia que aquilo ia acontecer em algum momento, afinal, quem é vivo sempre aparece, mas mesmo assim... Era aterrador. Eu estava com vontade de fazer as malas e partir, mas sabia que nunca poderia fazer isso.
Bocejei novamente enquanto entrava no chuveiro e tomava um banho frio. Tinha certeza de que não podia passar das 10 da manhã, mas o calor era, para variar um pouco, simplesmente infernal. Quase me afoguei quando bocejei novamente embaixo do chuveiro.
Saí do banho, me vesti e fui cambaleando para a sala, com os cabelos ainda molhados. Qualquer pessoa que me visse provavelmente acharia que eu tinha tomado absolutamente todas e caído em seguida. Ter chegado em casa viva seria simplesmente outra prova de que Deus protege os bêbados.
Me joguei no sofá, suspirando. Peguei meu celular e ergui o visor, tentando focaliza-lo sem os óculos. Quando finalmente entendi o horário, ofeguei. Eu simplesmente não podia ter dormido 14 horas. Olhei pela janela. O sol baixaria em breve. Era seis da tarde. Eu havia dormido demais.
- Todo o meu dia – choraminguei. Olhei em volta, preocupada. Algo estava errado. Assobiei baixinho. Nenhum movimento. Nenhum cachorro desesperado. Me levantei lentamente, sentindo falta de alguma arma. Empunhei uma almofada, corajosamente.
Comecei a abrir as portas de todos os cômodos. Primeiro a cozinha, o banheiro, meu quarto... A última porta, o quarto de visitas, estava hermeticamente fechada. Respirei profundamente antes de abri-la.
- Ju! – berrou uma voz no momento em que empurrei a porta.
- CARALHO – gritei enquanto era jogada para trás por uma coisa em vários tons de rosa. Pesadelo de qualquer Victória Dutra. Afastei a pesada massa de cima de mim, ouvindo uma risada histérica e extremamente alta. Tapei meus ouvidos e gemi uma única palavra:
- Kimberly...

- Primeiro lugar – falei, bebendo um copo de milkshake para me acalmar. – Como diabos você entrou na minha casa?
- Uma pedra falsa só funciona quando está no meio de outras pedras – ela falou lentamente, como se eu fosse idiota. Olhei para ela por longos segundos. Tinha certeza de que já havia ouvido isso em algum lugar.
- Mas como daí vou achar a pedra certa? – perguntei, levantando a sobrancelha, certa do meu raciocínio. Kimberly suspirou, se atirando para trás na cadeira.
- Ai, Jubs... – ela suspirou, sacudindo a cabeça. Praticamente rosnei. Eu não havia sentido falta daquele ‘ai, Jubs’. – Eu sei que tu adora Two and a Half-Men, mas o Charlie não é o melhor exemplo de vida. – senti um estalo na minha cabeça. Sim, eu realmente já havia ouvido aquilo.
- É claro que não – me defendi – Eu não lembro em nada o Charlie. Estou mais para Jake – pisquei alegremente, mostrando a caixa de bombons no meio da mesa. Ela não falou nada, então continuei: - Segundo lugar. O que você está fazendo aqui?
Ela pensou por alguns segundos. Então deu de ombros. – Sei lá, deu saudadinha – ela falou, sorrindo infantilmente. Suspirei. Era quase impossível achar que ela era mais velha que eu.
- Até quando você fica? – perguntei, deitando a cabeça na mesa. Falar com a Kimberly exauria todas as minhas forças. Eu sempre precisava me controlar para não esgana-la.
- Não faço a menor ideia – ela cantarolou, piscando inocentemente. Peguei a almofada que eu largara no chão e joguei em sua direção. Ela desviou gargalhando histericamente.
- E, obviamente, você ficará na minha casa, desfrutando dos meus doces e das minhas acomodações.
- Obviamente – ela concordou e então se levantou. – Ah, e eu fiz comida. – ela apontou um pote em cima do balcão. Levantei a sobrancelha. – É massa. – e se virou com os olhos brilhantes – Alemanha! – gritou, me abraçando. Suspirei mais uma vez.
- Cale a boca, Itália. – grunhi.

Fizemos uma refeição calma. Quando terminei, peguei meu violão e toquei a introdução de Aquarela, esperando minha amiga falar. Ela podia estar se controlando, mas eu sabia que não era somente aquilo.
- É amanhã – ela disse finalmente. Concordei com a cabeça. – O Quarteto me mandou aqui. – deixei um sorriso leve levantar meus lábios. O Quarteto era algo que tínhamos criado no Ensino Médio. Obviamente éramos quatro no começo, mas agora devíamos ser mais de dez.
- Para?
- Levá-la para casa. – tirei os olhos do violão.
- Estou em casa – murmurei, dedilhando aleatoriamente. Kimberly sacudiu a cabeça com raiva.
- Sua verdadeira casa. – gemi de leve. Eu devia ter imaginado. – Nós até fizemos uma vaquinha – e puxou uma passagem de avião da bolsa. Arregalei os olhos.
- Vocês O QUÊ?
- Não vá desperdiçar nosso dinheiro – ela cantarolou, sorrindo. Olhei-a por alguns segundos e então dei de ombros, derrotada. – Não se preocupe com os cachorros, está tudo organizado. E, ah, nós deveríamos chegar no aeroporto em meia hora, nosso avião sai as onze. – e foi xingando aos gritos que ela me arrastou de casa e me fez entrar em um avião cujo destino era Porto Alegre.
Claro que de avião é bem mais rápido

2 comentários:

Nede Losina disse...

AHHHH, o mapa...

Anônimo disse...

Indiquei seu site para o Kreative Blogger - http://vashmaker.blogspot.com/2011/01/kreative-blogger.html

Postar um comentário

 
Design by Contos de Bar | Modified by 1UP