3 de janeiro de 2011

O Chamado de Cafuiu

Existem motivos no Universo, motivos nefários e obscuros, que poderiam enlouquecer uma mente desafortunada o suficiente ao simplesmente resvalar em tais cálculos. Minha sanidade mantém-se intacta, por algum desígnio travesso do destino, mas ainda sou atormentado todas as noites por suas implicações. A verdade destruiu minha vida. A verdade tomou de mim uma ignorância que outrora amaldiçoava, porém já vejo que me protegia. Agora eu sei a verdade, e jamais voltarei a viver de forma normal. Hoje eu ouço o Chamado.

Minha fatídica jornada pela verdade começou há alguns meses, quando ainda trabalhava como detetive particular nas minhas horas vagas do Contos de Bar. Sentava-me descansadamente na minha mesa, fumando o que parecia ser um cigarro feito com pele humana. Dei de ombros, e terminei-o. Quando estava prestes a dormir, alguém bateu em minha porta. Suspirei, cansado. Não tinha energia para mais um caso.

— Entre! — Gritei, alguns segundos depois. A porta se abriu com um rangido irritante, e pelo vão passou uma mulher esbelta, linda, e com um pequeno ponto preto na bochecha, que depois me informaram ser uma pinta. Vá entender. “Pinta”. Ela não demonstrava emoções além do necessário, e tudo que ela fazia tinha um ar calculado e exato. Imediatamente, imaginei-a nua e agindo como um robô na cama.
Digamos que esta é a tal mulher.
— Senhor Victor, eu tenho necessidade de seus serviços.
— Muito bem. — Arranquei as calças, entendendo quais eram os “Serviços”.
— Esses não são os serviços que requeiro — disse, sem alterar a voz —, na verdade eu tenho um caso para você.
— Ah. Um… Caso. Ok. Qual é o caso?
— É meu irmão.
— O que tem ele?
— Ele se matou.
— Meus pêsames.
— Não, tudo bem. Ele era um porre.
— Ah. Meus parabéns, então.
— Mas ele me deixou um bilhete bastante enigmático, e eu queria que um detetive investigasse a fundo o motivo de seu suicídio.
— Pois bem. Qual é o bilhete?
— Aqui está.

Li o bilhete, e fiquei perplexo. Era uma coleção de símbolos, desenhos e palavras sem qualquer nexo visível. Sangue estava espalhado pelos cantos, como se o escritor tivesse se cortado durante o ato. No meio, apenas uma pequena parte era legível e compreensível:

“Eu descobri a verdade, e a verdade me descobriu. A verdade me queima. A verdade me deixa cego a tudo mais. Eu não agüento mais a verdade. Cafuiu me chama, durante meus sonhos. Não consigo resisti-lo, porém não consigo alcançá-lo. Estou preso a minha falsa realidade como um rato, mas não mais. Irei me unir a Cafuiu, e para isso irei me matar. Aqui vou eu. Argh. ARGH! AAAAAAAAAARRRRGGGGHHH!!! Estou morto!”

— Isso não faz o menor sentido.
— A nota de suicídio?
— Não, seu cabelo. Mas a nota também é enigmática. — De fato, o cabelo dela era bizarro.
— Bem, será que você pode investigar a fundo? Meu irmão morava comigo, na minha casa numa pequena cidade perto daqui.
— Pois bem. Mas você dirige. Se me pegarem dirigindo bêbado novamente eu serei preso. Novamente.

A casa dela era, como bem me lembro, sombria e Lovecraftiana. Estranhos desenhos eram proeminentes nas paredes, e o teto era vermelho de sangue. Não era sangue propriamente dito, apenas uma tinta que parecia sangue, mas tinha gosto de morango. Não que eu tenha provado aquela deliciosa e viciante tinta, claro.

O corpo do irmão de minha cliente estava disposto balançando numa corda em seu quarto, como um bom cadáver. Com certeza, Zumbi Noel o traria presentes naquele Natal. Tirando sua candidez aparente, não havia nada muito espetacular, era apenas uma cena de suicídio padrão #42. Desconsolado, reportei a notícia para a minha cliente, cujo nome acabo de lembrar que era “Sally”.

— Sally…
— Meu nome é Carolina.
— Merda! Epa, digo, eu sabia. Carolina, sinto dizer, mas…. Seu irmão se matou por livre e espontânea insanidade.
— Não! — Ela fingiu estar chocada.
— Sim, infelizmente não há nada que eu possa fazer por ele agora. — Ela me fitou, perplexa.
— E se ele não fosse insano? Você poderia fazer alguma coisa por ele?
— Bem, eu poderia comprar uma puta para transar com seu cadáver. Dar-lhe uma última aventura antes da cova. Mas agora eu tenho medo que ele vá contagiar a prostituta com sua insanidade. — Loucura é contagiosa, certo?
— Entendo.
— Agora eu vou para casa. Sinto muito pela morte de seu irmão, senhora.
— Espere! Você não quer ficar mais um pouco?
— Adoraria, mas eu não transo mais com seu tipo. Da última vez que o fiz, acabei numa banheira, nu, e sem o rim que eu tinha acabado de comprar no mercado negro. Então não, obrigado.
— Na verdade, detetive… Eu ia perguntar se você gostaria de ver uma estátua que meu irmão ficava adorando dia e noite, depois de um incidente que ele sofreu.
— Pois bem. Mostre-me tal estátua.

Segui seu corpo bem definido até o sótão da casa, aonde ela me mostrou algo que até hoje me horroriza. A estátua, feita de pedra e esculpida de forma que parecia impossível que seu autor fosse humano, representava uma criatura diabólica, que arrancaria a sanidade de um homem mais fraco com um simples vislumbre. Estranhas marcas rodeavam o seu corpo de bode, enquanto fragmentos de poemas grotescos rodeavam suas orelhas de coelho. Por fim, penas verdadeiras estavam presas às suas asas de galinha. O estande dizia, de forma agourenta: “Cafuiu”

— O que… — Não ousei perguntar, tomado por medo.
— Cafuiu é uma antiga entidade. Meu irmão tinha uma obsessão por tais paganismos, mas nunca imaginei que ele fosse levar tais bobagens tão a sério.
— Entendo. Será que você poderia me permitir levar isto para meu escritório? Sinto que devo estudar sobre tal entidade.
— Ou… — Ela sugeriu, seus olhos brilhando — Você poderia passar a noite aqui. Meu irmão tinha muitos livros sobre Cafuiu.

Com algum prazer, aceitei a generosa oferta de Scarlett — era esse o nome dela? Não me lembro mais —, e fiquei no sótão, lendo o que podia sobre aquela tal entidade misteriosa. Não achei absolutamente nada, pois assim que abri o primeiro livro sobre o assunto, caí num sono pesado.

A minha volta, apenas a escuridão do fundo do… Oceano? Piscina? Era algo com água. Espaço, talvez. Segui o caminho iluminado diante de mim, perplexo com as estruturas diante de mim apresentadas. O chão, percebi, não era chão, e sim um material viscoso e provavelmente inflamável, já que estava queimando minhas calças. Estando de baixo d’água, o fogo não me deixou extremamente desconfortável.

Subitamente, envolto pela escuridão inefável e incompreensível, senti uma presença. Ela me chamava. Olhei para a origem, mas nada vi. E então, apareceu uma mesa. Nessa mesa, havia uma tigela. Na tigela, cereal. Com o cereal… Estava o leite. Aliviado, sentei-me à mesa. Tomei duas colheres do cereal, antes daquilo acontecer.

— Ei! — O leite gritou.
— Ah! — Eu gritei.
— Quem diabos me bebeu?!
— Não foi ninguém! Eu juro!
— Quem é você?
— Eu sou… Err… Dutra!
— Qual seu primeiro nome, Dutra?
— Vic… Err… Roberto. Roberto Dutra.
— Pois bem, Vicerrobertoroberto Dutra. Você vai morrer.
— Ei! Espera! — Protestei, quando o leite começou a me atacar com seus dentes aleitados — Você não pode fazer isso! Ei! Ei! AAAAHHHH!

Acordei, e estava sozinho no sótão. Perguntei-me se havia gritado durante a noite, mas percebi que não, pois não estava rouco. Eu acho que isso significa que não gritei, pelo menos. Um som me alertou, vindo de baixo. Ouvi sorrateiramente o que diziam, e fiquei no mínimo assustado. E no máximo, aterrorizado.

— O que você quer? — Era a voz de Shirley, ou seja lá qual for seu nome.
— Chegou sua hora, Carolina. — Isso, Carolina.
— Mas… Mas… E meu convidado?
— Não se preocupe, a hora dele também chegou.
— Não! Não faça isso!

Mas era tarde. Uma batida se ouviu, e a voz de Suzanna se apagou, possivelmente para sempre. O homem então bateu na porta do sótão, que estava trancada. Corri para a janela, tentando escapar, mas não havia como. Estava trancada, e nem ferrando que eu iria quebrá-la. Cacos de vidro são um inferno para serem removidos.

Outra batida, e a porta começou a ceder. Pensando rápido, quebrei a janela, e procurei um lugar para me esconder. Não havia nenhum. Tentei me esconder atrás da estante de livros, mas nada adiantava. Não havia um lugar que da porta não ficasse imediatamente visível.

Outra batida, e por fim a porta cedeu. De baixo entrou um homem corpulento e gordo, com uma voz grossa e robusta. Ele andou em minha direção, com passos lentos, sabendo que não havia escapatória. Eu, como qualquer pessoa numa situação desse tipo, comecei a gritar.

— Espere! — Gritei, exasperado, mas não houve resposta. O homem então me deu um soco à cabeça, desacordando-me. Aquele era o fim.

— Bem-vindo de volta, Victor! — Uma mulher me abraçou, parecendo familiar. Procurei a fundo em minha memória para ver se a encontrava, mas não houve resposta de meu cérebro.
— Obrigado, err…
— Dutra. — Ela completou, suspirando.
— Sim, Dutra. Victória Dutra. Minha co-colunista, e… Amante?
— Não, seu depravado.
— Tudo bem, então.
— Então, como foi a viagem? Vejo que você fez uma tatuagem. — Ela notou meu Símbolo de Cafuiu, e de forma esquisita, não foi tomada por um sentimento de repulsa ou terror.
— Foi… Divertida. Eu encontrei novos… Como se chama? — Estalei os dedos — Amigos!
— Maravilhoso. E… Por que você tem uma aliança? Você se casou, foi?
— Sim, na verdade. O nome dela é… Ah, merda. Era… — Estalei novamente — Ah! Roberta. Não, digo, Carolina.
— Essa eu não esperava! — Ela riu alto — Você! Casado! Pensei que você tivesse roubado esse anel, simplesmente.
— Bem, apesar de ser casado, tenho um relacionamento aberto… Doçura.

Sorri, e então fui para meu escritório — ou seria do Paulo? —, vitorioso. Dutra ficou para trás, insultando-me por algum motivo nefasto, e eu comecei meus planos para minha nova vida. Uma vida… Com Cafuiu. Agora, todas as noites, eu ouço o Chamado de Cafuiu.

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