Dei-me um tapa na cara e tentei lembrar o que acontecera na noite aterior. Nada, um branco total. A última coisa que eu me lembrava era estar dirigindo por uma avenida deserta e ter virado à direita.
Ouvi uns barulhos vindo da porta. Deitei-me rapidamente e cerrei os olhos, deixando uma mínima fresta para poder observar os vultos. Um deles alto e magro, e o outro menor e um pouco curvado. Ao entrarem no quarto, trocaram minha garrafa d'água por uma nova, com água fresca. O vulto menor colocou a mão no meu pulso, depois na minha testa. Encostou a orelha no meu peito e ouviu minha respiração lenta. Então começou a falar:
- Não entendo, Massan. Ele já deveria ter acordado. Dê o tônico para ele. Não podemos deixá-lo desidratar. - Depois retirou-se para dar passagem ao vulto maior, que enconstou ao meu lado.
- Ok. - Massan tinha uma voz familiar, o que me deixou curioso. Ele colocou um pequeno funil perto da minha boca e despejou o líquido. Bebi sem abrir os olhos. Não era água, parecia gatorade.
Quando eles iam saindo, criei coragem e tentei falar, porém apenas um ruído estranho saiu pela minha garganta. Os dois pararam e viraram-se para mim. O vulto menor (supus ser uma garota) chegou perto de mim e falou:
- Oi, que bom que você acordou. Eu sou Luana. Meu amigo ali é o Massan. Te resgatamos ontem depois que você bateu o carro e te trouxemos pra cá.
- Onde eu tô? - Perguntei com a voz rascante.
- Em um aposento no tempo de Madame Gau. Vou chamá-la, fique aqui.
Luana saiu rapidamente, seguida por Massan, que continuou em silêncio e fechou a porta. Sentei-me e tentei lembrar do dia anterior. Não consegui nada. Fiquei mais de dez minutos em silêncio até que a porta se abriu.
Nada poderia ser mais surpreendente. Junto com as duas pessoas anteriores, mais uma entrou. Foi a cena mais bizarra que eu poderia esperar.
Uma anã com armadura de stormtrooper do Star Wars, um chicote três vezes maior que ela e, na outra mão, uma xícara de chá que ela me ofereceu. Aceitei a xícara, virei-me de costas e ouvi um estalo. Senti nitidamente três fios de cabelo serem arrancados da parte de trás da minha cabeça na hora em que a anã brandiu o chicote. Sentei-me depressa no chão, tomei um gole de chá. Amargo e com um cheiro estranho, fez-me contorcer quase todo meu corpo com o gosto. Ao que parece, isso agradou a madame Gau, pois ela guardou o chicote e sentou-se ao meu lado.
- Qual seu nome? - Perguntou com uma voz um pouco mais fina que o esperado.
- Garcez. - Respondi sem olhar diretamente para a figura que estava ao meu lado.
- Tem primeiro nome?
- Bruno. Bruno Garcez. - Um segundo depois não me pareceu uma boa ideia ter dado meu nome verdadeiro.
- Ok, Bruno. Tome seu chá. Ele é feito de lã, pele de linguado e suco de joanete. Aproveite.
Vomitei o pouco de chá que havia tomado, enquanto a anã observava. Quando terminei, ela se levantou, me deu roupas limpas (uma toga e chinelos) e disse-me para segui-la assim que me vestisse. Coloquei a toga e os chinelos, saí pela porta onde ela me esperava e seguimos por um pequeno jardim até uma construção grande e imponente, na qual capacetes de stormtroopers eram desenhados em quase todas as paredes.
Ao entrar no lugar, uma grande estátua de Darth Vader de quase 5 metros de altura estava na parede oposta à entrada. Vários discipulos (todos com a mesma capa preta e capuz dos dois que eu havia conhecido primeiro) estavam lá, andando, lendo ou conversando. Apesar de ter, facilmente, mais de cinquenta pessoas no salão, havia um silêncio quase absoluto, exceto os murmúrios de conversa, que eram muito baixos, inaudíveis a mais de três metros de distância.
Quando entramos, todos olharam com curiosidade. Madame Gau me conduziu até uma sala lateral, onde havia um sofá. A anã retirou a armadura porém permaneceu de capacete.
- Então, Garcez. Você foi trazido aqui após um acidente de carro. Nós somos a Ordem Vaderiana de Poetas Assassinos. E eu sou a tropper líder, Madame Gau.
- Certo. - Foi a única coisa que me vinha a mente.
- Agora você deve fazer parte da Ordem.
-Não, valeu.
- Então terá que passar pelo TESTE DE FOGO DO MAL ASSASSINO DESTRUIDOR DE MUNDOS FODEDOR DE GARRAFAS ZUMBI... do mal. - Ao final da frase, a anã pegou uma bombinha de remédio contra a asma e colocou-a em um adaptador no capacete.
- Que teste é esse? - Perguntei. Meu interesse já havia se esvaído e eu precisava sair dali.
- Você terá que enfrentar o maior monstro do mundo! GRELL, O TERRÍVEL!
- Ahn? Grell o terrível? Hahahaha, ok, bora lá.
Fui levado para uma arena. Todos estavam nos observando, em uma arquibancada elevada, que impediria a fuga. Na outra extremidade, uma porta se abriu, e de lá, saiu o Grell.. O mesmo de sempre, na verdade. Gordo, camiseta de político, avental de cozinha e calça moleton. Porém ele segurava um machado. Eu estava apenas com um canivete.
Quando Grell olhou atentamente, eu sorri inocentemente e vi seus olhos encherem de pânico, e seu grito foi assustador. E na primeira vez na vida, Grell pulou. Ele pulou na arquibancada, subiu abrindo passagem entre as pessoas e saiu correndo e gritando coisas como "ELE NÃO! ELE NÃO!". Todos fixaram o olhar em mim, todos com raiva e alguns com armas. Abri um grande sorriso, e todos entraram em pânico. Madame Gau gritou "É O DÊMONIO SKYWALKER" antes de se jogar do primeiro andar, o que para um anão é uma queda fatal.

Moral da história: Um sorriso pode salvar sua vida.








Um comentário:
Ah, Grell. :'D
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