Um som estridente ricocheteou nas paredes claras do meu quarto. Um raio iluminou o céu acinzentado por meros segundo até aquele tremor perpassar as paredes. A segunda descarga elétrica, seguida de um ruído alto, me fez despertar de um sonho que refletia minha clara necessidade de ter em mãos algum exemplar de um clássico da literatura russa. No sonho eu usava uma ushanka azul-escura e saltava pelo ar com uma facilidade que certamente ultrapassavam algum limite humano de elasticidade, imitando os dançarinos de hopak.
Me ergui, piscando debilmente, meus olhos se adaptando a semi-escuridão interrompida por luzes brancas que a persiana deixava entrar. Caminhando em direção a janela, para confirmar se aqueles ruídos não seriam produto de uma chuva de verão colidi com o ventilador portátil – meu ar condicionado pifara – e segurei o pé direito – o que colidira mais violentamente – entre as mãos, pulando no mesmo lugar e praguejando em voz alta. Meus xingamentos não podiam ser ouvidos, pois foram abafados por estrondos vindos de todas as partes. Larguei o pé tapei os ouvidos. A chuva que eu pensei ser passageira tinha se instalado confortavelmente, sem demonstrar sinais de que cessaria.
Desviando daquela máquina velha causadora de acidentes noturnos voltei para a cama, e puxando os lençóis finos até os ombros. Eram três da manhã e eu precisava acordar às oito para ir trabalhar. Os raios e seus mais novos companheiros trovões aparentemente não concordavam com meu descanso e faziam tudo ao meu redor sacolejar de leve. Coloquei o travesseiro sobre o rosto, bufando e tentando dormir. O vento uniu-se a eles, uivando em protesto.
Joguei o travesseiro longe, resmungando em árabe. Com os ombros encolhidos e bocejando, me levantei novamente e percebi que um botão perto da tela do meu computador piscava. Me aproximei para desligá-lo, dando-me conta de que deixara algum documento aberto. Cerrei os olhos e sorri. Um episódio de anime particularmente interessante, mesmo que minhas caras companheiras Alemanha e Itália não estivessem presentes.
- America's Storage Cleaning. – li, ouvindo minha voz - entrecortada - pela primeira vez na noite. Já que eu certamente não conseguiria repousar com tranquilidade, resolvi empregar meu tempo numa tarefa que realmente valesse a pena me liquefazer em suor. E uma limpeza de vez em quando não era ruim. Especialmente a que eu estava prestes a fazer.
Fui até a sala, acendendo algumas luzes, fazendo com que a iluminação fosse oblíqua. Parei em frente a uma porta em específico, um pouco distante da entrada do apartamento, com muitos adesivos e faixas de segurança com os inscritos “Caution” em formato de X pregados nela. As recordações fizeram o ribombar lá fora parecer distante por um momento. Fixei meu olhar demoradamente sobre os adesivos de “Perigo!” e “Atenção!”.
Me ergui, piscando debilmente, meus olhos se adaptando a semi-escuridão interrompida por luzes brancas que a persiana deixava entrar. Caminhando em direção a janela, para confirmar se aqueles ruídos não seriam produto de uma chuva de verão colidi com o ventilador portátil – meu ar condicionado pifara – e segurei o pé direito – o que colidira mais violentamente – entre as mãos, pulando no mesmo lugar e praguejando em voz alta. Meus xingamentos não podiam ser ouvidos, pois foram abafados por estrondos vindos de todas as partes. Larguei o pé tapei os ouvidos. A chuva que eu pensei ser passageira tinha se instalado confortavelmente, sem demonstrar sinais de que cessaria.
Desviando daquela máquina velha causadora de acidentes noturnos voltei para a cama, e puxando os lençóis finos até os ombros. Eram três da manhã e eu precisava acordar às oito para ir trabalhar. Os raios e seus mais novos companheiros trovões aparentemente não concordavam com meu descanso e faziam tudo ao meu redor sacolejar de leve. Coloquei o travesseiro sobre o rosto, bufando e tentando dormir. O vento uniu-se a eles, uivando em protesto.
Joguei o travesseiro longe, resmungando em árabe. Com os ombros encolhidos e bocejando, me levantei novamente e percebi que um botão perto da tela do meu computador piscava. Me aproximei para desligá-lo, dando-me conta de que deixara algum documento aberto. Cerrei os olhos e sorri. Um episódio de anime particularmente interessante, mesmo que minhas caras companheiras Alemanha e Itália não estivessem presentes.
- America's Storage Cleaning. – li, ouvindo minha voz - entrecortada - pela primeira vez na noite. Já que eu certamente não conseguiria repousar com tranquilidade, resolvi empregar meu tempo numa tarefa que realmente valesse a pena me liquefazer em suor. E uma limpeza de vez em quando não era ruim. Especialmente a que eu estava prestes a fazer.
Fui até a sala, acendendo algumas luzes, fazendo com que a iluminação fosse oblíqua. Parei em frente a uma porta em específico, um pouco distante da entrada do apartamento, com muitos adesivos e faixas de segurança com os inscritos “Caution” em formato de X pregados nela. As recordações fizeram o ribombar lá fora parecer distante por um momento. Fixei meu olhar demoradamente sobre os adesivos de “Perigo!” e “Atenção!”.

A porta
Não era como se você estivesse violando algo, assegurei a mim mesma, firme. É apenas um armário velho que precisa de uma limpeza e que algumas coisinhas sejam jogadas fora, só isso, repeti.Respirando profundamente e acenando com a cabeça, girei a maçaneta da porta, que rangeu muito mais do que o esperado. Uma avalanche em miniatura inundou minha sala de memórias. Meus pés foram cobertos por tantos objetos que era difícil se arriscar a identificá-los.
Pisando com cuidado, afastei alguns, abrindo um pequeno espaço e sentando-me. Havia várias sacolas com cadernos, cada sacola para um ano escolar; reconheci alguns tutus azulados e sapatilhas esbranquiçadas e de solado gasto; bonecas sorridentes me cercavam, junto do guidon de uma bicicleta – isso me desagrada só de lembrar – rosa. Os uniformes estavam dobrados meticulosamente e mais ao fundo uma bola de basquete marrom-avermelhada recostava-se serenamente contra a parede. Me deparei com o antigo lar de Dentinho: uma gaiola com uma caixinha de madeira forrada de algodão e folhas de jornal, repleta de grãos de girassol. Um aquário estava esquecido no fundo. Vários álbuns de fotos de capas coloridas estavam empilhados ao fundo, perto de casacos pendurados.
Um dos cabides me chamou a atenção, especialmente por guardar algo envolto em uma espécie de proteção de plástico bolha e uma toalha velha. Retirei-o e voltei ao meu posto. Desdobrei a embalagem com cuidado, cobrindo o rosto para esconder aquelas manchas avermelhadas no meu rosto. Não pude deixar de sorrir. Era uma roupa para uma criança de três, no máximo quatro anos usasse. Uma legítima fantasia de Branca de Neve, com direito à capa vermelha e gola alta branca. A barra do vestido amarelo e azul estava ligeiramente encardida, provavelmente devido ao fato de que eu passava dias inteiros vestindo-o, chegando a dormir com ele. Como meus pais faziam para que eu acordasse com o vestido limpo é um mistério que ainda me fascina.
Cruzei os braços e olhei ao redor, enquanto alisava o vestidinho. Minhas lembranças eram mais vívidas do que eu poderia supor, e livrar-me delas parecia esquecer um pedacinho de mim. Com o auxílio de uma vassoura, duas frigideiras e um vaso de flores, guardei quase todos os pertences em seu ligar, jogando apenas as sementes de girassol no lixo. Sentei no sofá, passando as mãos demoradamente sobre a capa, dobrando as pontas.
Uma música nipônica tocava alegremente e em um volume alto o suficiente para me fazer esquecer os estampidos que irrompiam no céu. Na minha mesa de centro encontrei o objeto reluzente que cabia na palma da minha mão e apertei um botão qualquer, apenas para iluminar a tela e cruzar os dedos para que não fosse oito da manhã.
- Sete chamadas não atendidas? – disse, erguendo uma sobrancelha. Apertei o botão para completar a ligação, sem ao menos perceber. – Alô?
- O que você estava fazendo durante as últimas duas horas da madrugada?! – uma voz conhecida sibilou baixinho e anormalmente suplicante do outro lado da linha. – Eu segui as dicas de sobrevivência contra descargas elétricas que tu colou na minha geladeira, mas não deu muito certo. Vem para cá. Agora. – ela vacilou um momento, antes de revelar o suposto ultima ratio. – Eu tenho milkshake aqui.
- Desculpe, estava imitando o Alfred, por mais estúpido que isso soe.
- Você está assaltando o McDonald’s?
- Não. Storage Cleaning. Acabei revivendo e revirando muita coisa, até achei aquela roupa de Branca de Neve que eu vestia quando tinha três anos. Deve ter alguma foto minha com ele por aqui e...- a ligação caíra, e eu encarei o celular, sem entender.
Menos de um minuto depois, pancadas sequenciais eram ouvidas na minha porta de entrada. Abri-a e quase cai para trás ao me deparar com aquela figura misteriosamente assustadora usando protetores de ouvido que agarrava o batente da minha porta, arreganhando os dentes. Os cabelos estavam arrepiados, assim como o pelo ruivo do animal que a criatura carregava. Seus olhos estavam arregalados, alucinados com algo muito além da minha compreensão. Uma taça com um canudo emerso em uma substância que cheirava a milkshake de chocolate não deixava dúvidas.
- As fotos. – ela sorriu diabolicamente, fazendo a cor sumir do meu rosto gradualmente. – É a sua punição por ignorar meus pedidos de S.O.S contra esse temporal com excesso de descargas elétricas barulhentas, que viola totalmente o acordo feito com o Devil Kitty.
- Processe-o e construa uma fábrica de chocolates com a indenização. – sugeri, desmoronando ao lado de minha amiga e me preparando para a seção de tortura que dava início. – Se me contratar como advogada, dividimos os lucros meio a meio. O que acha?
- Uma ótima sugestão, Snow White. – ela riu, apertando minha bochecha esquerda a ponto de não senti-la.








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